domingo, 11 de janeiro de 2026

Eu fico triste sim

Essa é a única resposta possível 

Duas patinhas singelas dispostas num prato

Uma louça branca, chique, lustrosa 

Eles estão sempre prestes a comer 

Eu não posso escapar da visão desse animal vivo

Lindo, libérrimo

uma criatura que não me pertence

Não posso, simplesmente 

não posso deixar de pensar sempre que eles não queriam morrer

Uma vez vi

e uma vez visto,

nunca mais poderei deixar de ver

Constantemente sou a maluca

Constantemente sou a única 

Ninguém quer saber

É desconfortável 

Sou esmagada pelo peso de toda uma cultura

extremamente violenta

Meus pares dançam com as bocas sujas 

de farinha de mandioca

e um palito forrado de seis pequenos corações 

Eles estão distraídos, felizes

Eu vagamente chego a preocupá-los

E sigo pelos anos, sinto-me bem 

Não distingo o cão que resgatei das ruas 

do boi que me lambe através do arame farpado.

Não esqueço que também sou hipócrita

Não penso mal de quem não é como eu

Tenho também minhas sombras

E essa é toda a história.