Acordo. É uma sexta-feira dos finais de maio. Junto dois ovos, canela, uma banana cortada em rodelas. É bem simples, pasta de amendoim e mel, café numa caneca charmosa. Marisa canta uma Maria de verdade. Vou comer no quintal, a gata e o cão me acompanham, querem sempre estar ao meu lado, não importa comida. Vejo o quanto a pequeníssima floresta perdeu, sem a sombra da mangueira, tão brutalmente cortada, peço perdão de novo aos guardiões da árvore que viu Serena crescer. Mas ainda o seu tronco está ali, alegro-me. Há sempre um lugar para recomeçar, Gal me diz. A minha mãe, contrária, brada que sem Deus não se vai a lugar nenhum, minha filha. Sinto pena dela, pela milionésima vez. Ela, quem mandou decepar a mangueira. Mas estou muito contente agora em alimentar o cão no meu colo e gentilmente alisar a gata ao pé de mim, enquanto tomo café da manhã. Eles estão tão cheios de deus porque não sabem dele. O céu é tomado de cães e gatos. Assim, perco até o medo de morrer. Sou feliz e dou graças.
Açucena
sexta-feira, 29 de maio de 2026
terça-feira, 19 de maio de 2026
Dawnbreaker
A vida tão áspera, tão vária. Odeio os homens e suas convocações. Estou farta, solta, meio amalucada.
E mesmo assim paro comigo boquiaberta. Eu acabo de me apaixonar, elevo a mão ao centro de mim, está quente. Começo a gostar da voz, do tamanho dos cílios, dos caninos de vampiro que me mordem sem sangrar. Já sou outra e não me dei. Será grave?
Vejo o feitiço chegar, estou de costas, sentada ao pé da planta. Ele senta ao meu lado. Já sei o que vai acontecer. Você vai entrar em mim, não é? Ele diz que já está. Sinto um tremor, não é quase calafrio. Fico ali olhando o feitiço nos olhos, não consigo parar. O feitiço tem os olhos do universo.
Foi tão duro saber estar sozinha. Quando finalmente, me aparece. Assusto-me. Custa estar atenta e vulnerável. Quantas marcas precisei para me ser de volta? Mas a vida no es solo trabajar. Hay que brincar e rir, rir até dormir abraçada, perdidamente.
Lembrar que é tempo de ladrilhar os caminhos com estrelas, sim.
sábado, 25 de abril de 2026
Dandelion
A nuvem cobria o sol das 16, esperei. Ficaria mais bonito com os feixes. Havia nascido um dente-de-leão. Que rico o meu dente-de-leão do quintal, branquinho, de pontas ainda fechadas amarelas. Fiquei a olhar o percurso dos raios através das folhas, fiz um story. Quero que ele veja o que eu vejo, me interessa que ele saiba para onde eu volto meus olhos. Estou enamorada pelo Dandelion. Existe já uma palavra no meio de outra palavra. Mas não sou tão boa com trocadilhos.
Você sabia que soprar o rosto de uma criança quando ela está de calundu faz um pouco da alma passar pela boca? O sopro dissipa as sombras. Imaginei Poseidon soprando o rosto do mar, apaziguando tempestades.
O destino do dente-de-leão é dançar com o vento. Fiquei emocionada com essa imagem, acho que vou chorar. Mas ainda não chego. Fiquei a olhar cada particulazinha se desprender, voluteando, muito leves, meninas num parque, pequenas faíscas douradas. Não posso lhes traçar um final, mas sequer penso nisso, só penso na liberdade, diria, apenas inspiro tudo o que meus pulmões comportam e lanço um longo sopro no ar.
terça-feira, 17 de março de 2026
Um dia eu soube
Um dia não
Numa transição
Olhei para trás várias vezes
Tive medo de nunca mais encontrar ninguém
Por isso olhava tanto para trás
Sabia que olhar para trás fazia parte
Eu tinha estudado tudo
Um dia eu soube
Numa manhã, numa tarde,
numa noite cheia de horas
Eu soube
Amparada nas conversas com as minhas amigas
- Nunca deixe de conversar com as suas amigas -
Vi um vídeo específico no YouTube
que foi como epifania
E me alertou que eu ainda iria olhar para trás
Fiz de tudo por mim
Demorei, mas fiz
O que é demorar?
Ele me dizia que olhar para trás
Só podia significar destino, amor, sina
Conversa para boi dormir
E eu dormia
Muito tempo dormi
Eu era uma vaca mansinha
Ruminando dia e noite
Marcada a ferro, apeada
Algum dia totalmente perdido
dentro do meu cérebro regenerado,
eu soube
Estava ouvindo Lauryn Hill
Sentada no chão do banheiro
De repente
fui invadida por uma realidade
Que presente maravilhoso é na vida de uma mulher
nunca mais encontrar ninguém
Chorei de pura plenitude, de pura paz
Luminosa, segura
Chorei por eu ser finalmente eu
Com ele, nunca havia experimentado
E nunca mais olhei para trás
domingo, 11 de janeiro de 2026
Eu fico triste sim
Essa é a única resposta possível
Duas patinhas singelas dispostas num prato
Uma louça branca, chique, lustrosa
Eles estão sempre prestes a comer
Eu não posso escapar da visão desse animal vivo
Lindo, libérrimo
uma criatura que não me pertence
Não posso, simplesmente
não posso deixar de pensar sempre que eles não queriam morrer
Uma vez vi
e uma vez visto,
nunca mais poderei deixar de ver
Constantemente sou a maluca
Constantemente sou a única
Ninguém quer saber
É desconfortável
Sou esmagada pelo peso de toda uma cultura
extremamente violenta
Meus pares dançam com as bocas sujas
de farinha de mandioca
e um palito forrado de seis pequenos corações
Eles estão distraídos, felizes
Eu vagamente chego a preocupá-los
E sigo pelos anos, sinto-me bem
Não distingo o cão que resgatei das ruas
do boi que me lambe através do arame farpado.
Não esqueço que também sou hipócrita
Não penso mal de quem não é como eu
Tenho também minhas sombras
E essa é toda a história.
quarta-feira, 1 de outubro de 2025
Ache um grande gostoso
Deixe o gostoso se lambuzar de você
Lambuze-se do grande gostoso
Vejam o filme de Bob Marley
com suas pernas em cima do peito dele
Bebam cerveja juntos
naquela atmosfera escarlate na beira do rio
deixe o corpo tremer de tesão
só por ele tocar a ponta do seu cabelo
Transem até faltar oxigênio no cérebro
Deixe o grande gostoso pintar Bobbie Goods
Na cozinha da sua casa
Ria com ele
Deixe que ele converse
Sim, ele não para de falar
E ele nem te escuta
Então, quando o grande gostoso chover e não molhar
quando ele ir e vir e for e voltar
Lembre-se de que a grande gostosa é você
Se toca
Vá dando para trás
Não assim
Assim
Arranje alguém que goste da sua franja vegana
Pegue seu banquinho
Recolha seus caquinhos
que você nem quebrou, minha filha
Se saia
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Preciso procurar urgentemente um modo de parar de culpar os meus pais
Eu não sei como parar de culpar os meus pais
O que devo fazer para parar de culpar os meus pais?
Vou chorar-lhes a morte por séculos a fio pelo fracasso amargo de nunca ter parado de culpar os meus pais
Vou morrer triste e afogada em lágrimas por não ter aprendido a parar de culpar os meus pais
Vou esmurrar os túmulos, esfolar os calos até saber o que é preciso para não culpar os meus pais.
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
It's never over
ouço nos meus fones sem fio
cansando-me de homens que não me sabem navegar
homens que não duram nem para a literatura
preciso estar no mastro
mais altiva do que apareço nos meus poemas
atada como Ulisses
no posto do leme
para ouvir e resistir,
resistir ao chamamento do fundo do mar
o mar é lindo, eu sei
olhe esta luz que se deita em sua pele de água
no entanto,
ninguém pode respirar na morada das sereias
ninguém pode respirar na morada das sereias
eu não quero mais nadar contra a minha correnteza
Oh mother, I can feel the soil falling over my head
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
Há uma mulher em mim que dança
faça chuva ou faça sol
inverno, tempestade
para ascender leoas e cobras
suas ferocidades
serenas fúrias
firmes amenas
Há uma mulher em mim que dança
na cara do perigo
no dorso da libélula
no rabo do foguete
ao som das trombetas
Morfada em bruxa
buscando fadas
dança para além do corpo
além da memória
para o além
Há uma mulher em mim que dança
para o mistério de ser pessoa
carne, chama, movimento
água, sereia e terra
Há uma mulher dançando
A mulher que dança é uma mulher que é.
terça-feira, 17 de junho de 2025
Presságio
Quero um homem:
Que não me queira dominar;
Que entenda que vínculo afetivo pode existir na casualidade;
Maduro o suficiente para comunicar-se com clareza;
Que demonstre constância e permaneça;
Afetivamente disponível e responsável;
Verdadeiramente cuidadoso;
Disposto e ágil;
Que tenha espaço em sua vida ou que os crave realmente largos para eu caber
sem sufocar, sem suprimir, sem anular a nenhum de nós;
Assertivo em suas vontades e intenções;
Extinto de manipulação;
Que não queira me aprisionar em um relacionamento cheio de regras opressoras;
Que não me construa pedestais;
Que não procure em mim uma serva
nem um objeto de uso pessoal, um fetiche, uma fugacidade qualquer;
Quero um homem fora da lógica social, fora da norma monogâmica;
Corajoso para o amor, mas um outro amor
Um homem anti-romântico
Que não seja tão homem como a categoria social homem, um homem-mulher, um homem-criança;
Não busco fidelidade, compromisso e validação.
Não busco família de comercial de margarina.
Não busco fazer parte de uma coleção.
A minha ordem é a subversão. Uma brincadeira com muita seriedade, uma disciplina que no fim liberta. É leve como a bolha de sabão, é sólida como a perenidade do tempo.
No entanto, simples como a gota de chuva escorrendo no dorso da folha.
Por fim, e esta é uma síntese essencial, quero um homem cujos defeitos não me sejam um risco à vida, à minha segurança emocional e física, minha individualidade. Estas últimas não são as minhas palavras, roubei-as de Nina, a que mantém meus olhos sempre abertos, pois tenho amigas que são faróis. É bom que o saibam.