Eu fico triste sim
Essa é a única resposta possível
Duas patinhas singelas dispostas num prato
Uma louça branca, chique, lustrosa
Eles estão sempre prestes a comer
Eu não posso escapar da visão desse animal vivo
Lindo, libérrimo
uma criatura que não me pertence
Não posso, simplesmente
não posso deixar de pensar sempre que eles não queriam morrer
Uma vez vi
e uma vez visto,
nunca mais poderei deixar de ver
Constantemente sou a maluca
Constantemente sou a única
Ninguém quer saber
É desconfortável
Sou esmagada pelo peso de toda uma cultura
extremamente violenta
Meus pares dançam com as bocas sujas
de farinha de mandioca
e um palito forrado de seis pequenos corações
Eles estão distraídos, felizes
Eu vagamente chego a preocupá-los
E sigo pelos anos, sinto-me bem
Não distingo o cão que resgatei das ruas
do boi que me lambe através do arame farpado.
Não esqueço que também sou hipócrita
Não penso mal de quem não é como eu
Tenho também minhas sombras
E essa é toda a história.
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