sexta-feira, 31 de julho de 2026

Odisseia desvairada

Quando um bebê tem por volta de 3 anos, fala uma frase assim: É a mamãe que vai fazer. É uma frase de premonição. A mamãe faz tudo mesmo, a mamãe fez o bebê, a mamãe alimentou o bebê, a mamãe limpou o bebê, a casa do bebê é o corpo da mãe. Quando chega a vez do papai, o papai até tenta fazer, pobre pai. O bebê se acostumou tanto com a mãe, que aí começou a repetir aquela frase e o papai foi começando a desistir, desde sempre. O papai era como uma sacola plástica, voava ao sabor do vento, muito despreocupadamente leve. O peso fica todo com a mãe. Sacolas plásticas são vazias.

Um pai para ser bom precisa ser uma mãe. Havia tantas coisas que o pai poderia fazer, quando a mãe cuida do bebê, o pai cuida da mãe, o pai cuida da casa, o pai insiste na sua carinhosa presença com o bebê, para que o pequeno finalmente o aceite, o pai deve permanecer, pacientemente, perto do bebê, para que ele se sinta seguro e confiante. Um pai para ser bom precisa ser uma mãe.

Para criar um bebê, é preciso passar pela quase completa anulação de si mesmo. A mãe, a mulher, está habituada. Ao pai, ao homem, ninguém ensinou a grandiosa tarefa de se diluir para que o outro exista. O pai escolhe ir embora, o pai esculpe numa pedra a palavra abandono. O pai jamais irá se interromper, ele é inteiro. Jamais irá se quebrar, ele é fraco. O pai deixa o bebê e diz: ele só quer a mãe. E o pai se lança no mar, amarrando-se ao mastro ao passar pelo vale das sereias. O bebê fica em casa enrolado numa colcha de amor do mais puro, bordada pela mãe. O pai fará outros bebês porque nunca vai aprender qualquer lição. Não há lição para o pai. Tudo lhe é permitido. 

Só a mãe, só a mãe, conhece a vida em segredo. Só a mãe conhece o amor. A mãe e o seu bebê.