sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Escrevo poemas.
Isto não é um anúncio
É, sobretudo, uma crença
Preciso retornar a ela
A cada vinte e duas respirações
Acariciar-me a calma
Para dizer
que eu sempre terei para onde retornar

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Todas as mães já falaram
das gotas que escorrem previsíveis
Nenhuma, como eu,
define
a dor de se abrir
Paraíso e
Tempestade
A terra que rachou
em mil labaredas
Para te engolir

Será que um dia a ferida se fecha?

Cada parte do teu filho
é bálsamo e unguentos
Mas a tua mãe,
a mãe da tua mãe
e a mãe do pai
são o sal derramado

A mãe chora a dor do filho
que ainda não entende ter nascido
O filho chora a dor da mãe
que perdeu sua figura no espelho

Ninguém compreende
nem há palavras
mesmo inventadas
para dizer que choramos
no meio do sorriso

Somos duas gotas
num oceano quente
Mãe é ilha de água
para seu bebê navegar

E por mais que tentem
Profanar
Esse nó
Fincado no meio
da polpa viva do seio,

esse nó de cujo ventre
nascem as galáxias
ninguém conseguirá partir.






domingo, 19 de agosto de 2018

A nuvem quando está carregada
solta raios
Sentimos o peso
das suas curvas
cheias d'água
A nuvem quer nascer
faz pequenas tempestades
redemoinhos sozinhos
vento no mar

Até a nuvem descer
demora coisa de minutos
Ela está prestes.
Esse quase
Ensina a nuvem
a não gotejar
É preciso vir inteira

Quando finalmente chega
ela chora e chora
de encontro à terra
chora tudo
refresca, afoga, floresce
até desanuviar

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Madureza

Guardo no corpo
Um segredo místico
Uma origem
Um laço de eternidade
O princípio
Todas as palavras que conheço
Um instante consagrado
O movimento dos planetas
O rio que corre nas veias da terra

sábado, 3 de março de 2018

Li coisas que escrevi em cartas e diários e senti algo que lembra saudade. Era assim: escrever é como abrir buracos negros. Depois de um tempo irei revisitar uma época acabada apenas para reencontrar-me. A escrita é a agulha que uso para a inserção no tempo. Achei preciso.

Então pensei no que eu queria mesmo, que era criar uma vaca. Ter uma casa dentro de um sítio apenas para comportá-la. Uma vaca resgatada, a única que escapou de estar prestes a incorrer no pecado de sentir as angústias da hora da morte. Imagino-a entrando pela sala, branca, gorda, primorosa, uma exímia filha de deus. O que eu queria mesmo era ser Adélia, mas nasci Helena, consolo-me.

Pronto, outro salto temporal. Estou refletindo ser breve, dar fluxo ao pensamento. O mais importante hoje é descrever o jeito como os nossos olhos se movimentam sobre as frivolidades. Então é isso, o futuro é uma vaca descansando sua mansuetude no sofá da minha casa.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Parque 2

Para Neldo

E havia Nestor, a quem minhas letras tímidas tentam se redimir. Diante de tanta força, de tanta grandeza e memória, acredito em mim porque acredito nele. Porque qualquer voz é capaz de atravessar paredes. Porque nascemos no tempo da bondade e ele gosta de decorar os versos que eu finjo saber também. Margarina, piscina, gasolina, Carolina. De repente fico boquiaberta por vê-lo tão crescido. Nestor segura a minha mão e sabe entender, mostra-me os poemas que me fazem chorar pela dor de existir. Gostaria de dar-lhe horas de sono se sono pudesse ser embalado em papel de presente. Dorme um pouquinho, Nestor. Come um pouquinho, também. Feito uma mãe besta. Invés disso, saímos notívagos para dançar até acabar os sapatos.
Tenho medo de que o mundo te quebre, sim. E que eu não saiba sustentar seus ombros erguidos. Tenho medo de dizer tudo errado, talvez eu esteja dizendo. Por favor, não se quebre. Ou me deixe saber de um modo muito objetivo caso qualquer furacão esteja passando. Estale seus dedos na frente do meu rosto, faz uma banda tocar e põe um outdoor na frente da minha casa. Te amo muito, Nestor. Espiei debaixo da tua máscara, me perdoe, fiquei extremamente emocionada de novo. Você é tão lindo e eu tenho tanto orgulho. Tudo que eu mais gostaria é te retribuir ao menos uma parte do que você é. O que você faz em mim não tem nem palavra.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Crianças dormem em creches
sobre lençóis dispostos no chão

nenhuma indignação jamais será capaz
de mudar o fato de que
crianças dormem em creches
por cima da desumanidade

Você é uma formiga que apaga pequenos incêndios
cheia de várias rebeldias
que precisam ser sufocadas

É melhor carregar teu grão de açúcar
mirando as antenas sempre para baixo
para não perceber que
crianças em creches
almoçam bolacha Maria

Você é uma centelha pairando sobre a cratera
o teu labor insignificante
não irá mudar
absolutamente nada

As crianças sorriem e te abraçam
porque ainda não sabem dizer a palavra futuro







segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Meu deus sou eu

Deduzem-me ateia
pois não converso
não professo e
não anuncio

Falar de deus para mim
é como falar do meu sexo
Uma coisa que
só diz a meu respeito

Às vezes gostaria de não ter nenhum deus
mesmo reservado e discreto
apenas para afrontar
estes religiosos
e seus deuses estúpidos
homofóbicos
e bárbaros


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A mãe acha que
devo saber lavar bem
a louça, arear panelas
Engomar roupas,
Dobrá-las perfumadas
Trocar os lençóis
no tempo correto
Porque existe um
tempo correto
para todas as coisas

Eu cresci para
acreditar que
eu venho em
primeiro lugar
porque este é o meu tempo

Entretanto
A vida é espelho que não se transpassa
Muitas outras mulheres
que me são anteriores
riem de puro cansaço

Há aquelas que
não se podem dar a esse luxo
de ser tão egoísta

Há então
esta revolução raivosa
e cega
comprando brigas
dentro das casas
pousada num trono
Infactível
feito de privilégios

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Toda mulher é um deus.