sábado, 22 de agosto de 2015

Agosto de deus

Todo dia
e não se vê
morre um poema dentro da gente
Cai uma gota para
o pôr-do-sol
É cedo para a morte
porém.

Todo dia
e não se vê
Morre o poema como o sol fenece
Coisa mais besta e triste
é andar por aí cheio de ternura
e quando no papel
vai algo como a chuva e
se sabe,
papel não se pode com água.

Poema, eu te desisto.
E então ele dexiste
Fim

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Elogio da tristeza

"Ajusto-me a mim, não ao mundo."
Anaïs Nin


Quero chorar
Exijo o direito de chorar incessantemente
Como quem percebe estar para sempre desalinhado
Chorar até que sulcos profundos
marquem a pele de meu rosto
Que eu possa exibir orgulhosa
os estigmas de quem
não desistiu de ser triste

Quero chorar com os olhos sangrados
porque o mundo é um desgraçado
e eu também
Exijo o direito de ser irrecuperável
Posso encher a casa de espelhos
A melancolia receberá sua devida contemplação
Posso quebrar todos os relógios
para suspirar fora dos minutos

A tua razão é falsa
e cheia de egoísmo
Não tentes interromper a valsa
que teus ouvidos não alcançam
A minha dor tem a exuberância
da luz sombria que se desprende do luar
A minha dor dá-me poemas poderosos
A minha dor humilha a tua alegria

Deixa-me só
nos cantos da casa
A minha dor me basta
Quero chorar o insuportável
Deixa-me

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Pouso meus olhos doentes no mundo
(o mundo hoje é muito depois das mariposas)
e parece-me que as graças estão todas convalescentes.
Meu pai acha meu olhar com loucuras
de quem mal adentrou uma vida de verdade
Contudo, o imprescindível é não estar ajustado.

Pouso meus olhos fatigados de notícias que não o são
na imensa devastação que já se fez,
sinto nojo de caminhar entre homens
a perceber que são carne de minha carne.
Havia um deus delirioso que se deixou emprenhar
e assim viemos.

Dai aos trabalhadores os louros
por desperdiçar suas vidas
como escravos assalariados
(Uma bota pressiona vossos pescoços para sempre contra um muro, é visto!).

Aninhai as crianças famintas
que neste momento sonham
com bonecas de pão de mel.

Mas!
Parai agora tudo que esteja acontecendo.
Há um caso a mais para se destacar.

Num espetáculo de bombas de gás lacrimogêneo,
vosso frágil sonho sangra deitado no asfalto,
Uns senhores de muito poder
(tanto que não é-lhes possível enxergar as próprias mãos)
falam coisas estapafúrdias na tv,
à noite riem, de dentes escancarados,
afundando, em seguida, suas enormes cabeças
em travesseiros macios.

Volto meus olhos sem procedentes de cura
para um mundo ainda mais difícil.
Basta-me muito pouco para pensar
que, em breve, seremos apenas
um ferimento bastante suave
no dorso maculado do universo.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Acabo de atentar contra uma de suas criaturas e espero que possas me desculpar.
(Também sequer acredito vigorosamente no sentido disto que acabo de dizer, mas nunca me foi apresentada outra forma de expressão, o que farei com minha dubiedade?)
Precisei trocar a água dos cães e derramei-a então pelo tanque sem perceber: um brilho rodopiou no ralo e pensei se tratar de um pedaço de laminado qualquer. Qual foi meu espanto quando, ao entornar mais uma vez, a luz acendeu novamente e caiu para sempre na infinita sabedoria de ninguém mais, desceu por aquele abismo afogando-se um vaga-lume. Como se aquela luzinha suspirasse pela última vez antes da morte, soltou tamanha fosforescência para que meus olhos míopes descobrissem, de súbito, o crime. Não pôde saber de nada aquele simples e milagroso organismo.
Sou uma pessoa torpe como qualquer outra pessoa torpe. Sei, com a certeza contundente e irrefutável, que eu não voltaria meu olhos se tivera sido uma mosca comum. É cruel aprendermos a amar apenas as coisas que brilham. É cruel que eu me permita aprender este modo. A morte das moscas negras não comove a ninguém. Apenas os animais que irão desaparecer comovem, pois não podemos suportar a ideia de um mundo menos vasto. Um hibisco vive por apenas vinte e quatro horas. Não posso ter a arrogância de arrancá-lo para decidir, eu mesma, quantas horas a menos a flor será bela. Todos estes ornamentos são fúteis.
Que eu tenha destreza, que seja sobretudo amável, para com todas as criaturas doces e gentis e todas as criaturas não doces e não gentis. Que a iniquidade deles não encontre termo sobre aquelas que deixaram de ser bravias. Toda a prova de bondade humana pode reduzir-se a isso. Pensei quase resignada e fui deitar a repetir para sempre: animais não são coisas, animais não são coisas. Aprenda a não amar as coisas e estenda seu amor por toda a miraculosidade do universo.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O que assusta ou entristece

Um mundo prolixo para dizer bobagens.
Ou muito breve para o que é profundo.


O mundo é dos inúteis.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Temo dizer coisas intangíveis, coisas que são muito além de seu simples entendimento. Toda palavra será um calo. A liberdade tem muitas distâncias quando se está quase só. Temo ferir a infância dum casulo com minhas desproporções. Se nada puder regenerar, o tempo ainda cuida. Se acaso a milionésima vez for de novo apenas um vazio, lembra que o amor é também improferível. Se eu não puder amar por palavras, não blasfeme, por isso, meu silêncio.
Eu irei porque já não encontro a minha casa. Vou para longe porque há muito tempo não pertenço mais. Espero que você tenha sentido essa mesma certeza terna quando seu corpo tornou-se sua vontade. Espere. Ele se tornou?
Terei agora um corpo inteiramente meu (como poderei explicar o infinito significado deste minuto?). É tudo que mais importa agora: o meu encontro comigo. Meu corpo não se vergará ao peso das obrigações. Que o seu deus se apiede para fazê-la entender. Se meu corpo não verga, não é egoísmo, sou mulher que corre com os lobos, apenas.
O anjo da casa está morto. Na verdade, isso é tão necessário quanto feliz, embora ele tenha agonizado algumas horas. Também não pedi para acender uma vela. Não é preciso. Existe a luz das nossas lágrimas. Perdoa eu não poder explicar todas as minhas ideias atravessadas. No escuro somos todos cegos. Na luz extrema também.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Os olhos dos cães

Todo cão
tem aquele olhar acalmado
de princesa Daiana

Olhos de cão são para dizer

Poucos ouvidos cabem suas palavras
Senão os deles mesmos

Isso é uma pena

Muita alma passará para quem puder entendê-los

Qualquer pessoa respira mais serenidade

Penso que seja muito certo
que deus tenha posto
nos olhos dos animais
algum segredo do mundo.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Há um rasgo difícil de estancar na alma,
difícil como um quase impossível.
Essa ferida que dói em todo espaço,
tão dolorosa que, parece, não existe.

A alma vai sangrando tudo que antes havia.
Difícil estancar este rasgo, difícil alcançar e medir.
O espírito vai a triturar-se.
Um silêncio pesado guia a multidão
e suas flores brancas.
As pessoas hoje são tácitas.
A ausência tem palavras impossíveis de proferir.

Uma bala atravessou o coração de uma criança
(naquele segundo, o coração mais vivo em todo o universo)
Diga-me o que é preciso fazer!
É preciso correr à rua!
É preciso gritar! (A alma não é estanque)
É preciso implorar a deus!

Mas toda vez que a morte arranca uma flor de seus jardins,
deus tapa seus próprios ouvidos santos
a fim de que não enlouqueça.

Um anjo puro dorme nos céus
Perdoem-me, perdoem-me!
Não havia palavra que bastasse,
Não houvera nada a ser feito,
Não existe sequer um gesto.
Há apenas morte em toda e qualquer existência.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Arco de prata

Um dos sentimentos menores
talvez seja este turbilhão
que não se deixa escrever.
Alguns dias de algumas semanas
Lembro-me de meu duro exercício
A existência.

A palavra assume a forma do abismo.

Dentro das profundas águas escuras
daquela caverna
posto os meus olhos sem brilho.
O anzol circunscreve
o único movimento
quase sem distância.
Muito de vez em quando
vem à superfície
um corpo luzidio.
Sinto o coração tremular.
Um peixe me olha
com seu secular desprezo,
desenha um arco de prata
e retorna ao nada.
Sinto-me ainda mais só
na escuridão de repente mais escura.

Passo a recolher vagarosa
o anzol mais leve
que a leve pluma rosada.
Demoro muito a recolher,
parecia alcançar
o caminho para o outro lado do mundo.

Procurarei outra caverna?

Por trás do pretume de suas paredes
Há uma certeza de diamantes.

Mas quem me contou
eu nunca saberei.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Cinquenta anos

Quedo-me agora a me imaginar
aos cinquenta anos de idade,
Uns cabelos mais ralos,
Os olhos infantis
cobertos de pálpebras antigas.
Uma escrita talvez madura,
Talvez o prelúdio de um livro:
Um filho novo
de poemas muito velhos.
Penso primeiro em meu rosto.
Porque?

Tenho então dois lírios brancos nas mãos, dois lírios não terríveis.
Uma casa que é minha e um amor
que são praticamente a mesma coisa.
Ele prepara o jantar
Eu preparo o jantar, pois temos uma horta
E dormimos abraçados.
A memória deste futuro mostra-me também um arquejo
A vida é um eterno cansar-se e descansar-se
E vai o peso dos anos fazendo o descanso mais breve.
Tenho cinquenta anos e estou a olhar as pombas na beira de um lago
como quem olha o filho dormir.