sexta-feira, 28 de julho de 2017

Está um vento tão forte lá fora,
nessas horas aprumo os ouvidos
pode ser deus tentando nos dizer.
a minha cachorra no meu colo dormindo
eu invento outro nome que lhe seja mais literário
Cachorra Eulália
Fica como rodinha
enfiando o focinho nas patas
Mas não decifro nada.
o vento derribou a cadeira de palha
lançou no ar a areia do gato
as folhas da mangueira ficaram espreguiçadas
Talvez sejam os olhos de Eulália
Acorda, Eulália
a voz do vento é a voz de deus
e como assusta




terça-feira, 20 de junho de 2017

Quando leio uns poemas
de mil novecentos e setenta e seis,
é como se eles ali me esperassem
até o dado momento
e respiram tranquilos e alegres
- desdobram suas saias,
remontam seus leques -
Que bom que você finalmente veio

Tudo que é poesia
te dá uma certa surra na cara
Por alguns segundos, imóvel,
A alma verde de novo,
Você toca de leve a
pequena mácula no peito
e volta a ler

Agora imagine a imensa tristeza
dum livro que jamais será lido
repousado numa estante
apenas olhando as crianças
que passam correndo

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Maria contou-me hoje que
surgiu um tomateiro em sua horta
sem que ela, no entanto, houvesse plantado
Falava com tanta displicência
e clara falta de observância
que tomates se ouvidos tivessem
certamente ficariam magoados

Eu só pude levar a mão ao coração
e pensar que os milagres caídos na terra
deixam, sem cerimônia,
de ser milagres

Maria matou, sem pressa,
os tomateiros que crescem no meu pensamento.

sábado, 13 de maio de 2017

Apesar de seres assim tão maravilhoso,
Amo-te enormemente.

domingo, 23 de abril de 2017

Os bichos mais legais são

Capivara
Elefante
Cavalo
Coala
Cachorro
Girafa
Urso panda,
polar
Gato
Golfinho
Boi
Foca
Galinha
Porco
Polvo
Pinguim
Santa inês
Preguiça
Beija-flor
Louva-a-deus
Mico leão
Joaninha
e os que roem
os que ruminam
e os filhotes
e as aves prenhes
e os absurdos do fundo do fundo do mar
e os desenhados nas paredes do tempo

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Sonhei que dava aula sobre Borges. Sem muita intimidade, tateando pelas bordas uma linha de pensamento, tentava me firmar pela força da sutileza. Aqueles alunos tão adultos talvez não percebessem minha perplexidade. Eu, professora. De Teoria da Literatura. A brancura das paredes dizia ser uma universidade. Eu caminhava de um lado a outro, como faço verdadeiramente neste lado aqui da realidade. Olhei pela janela e a figura de um senhor curvado, de cabelos cor de nuvem, estava me fitando lá de baixo, eu entendi de imediato que era o próprio Borges, embora fosse outro quem estampava a edição d'O Aleph. Ele, com ares de injustiçado, como se enfim me percebesse por inteiro, soltou palavras de vento que quase não pude compreender. Mas nos sonhos assim tão nítidos há um sentido outro que ultrapassa nossa racionalidade. Colhi no ar algumas advertências sobre como o novo sempre irá depor o velho. O novo e o velho e o tempo. Ele assim me disse para que o mais importante de sua obra eu não negligenciasse. Então, voltei, alumbrada, para o quadro, pronta para transmitir grandes ensinamentos. Para minha completa frustração, meu pincel falhou e a palavra velho nunca pôde ser escrita.

Há um poeta muito famoso na minha cidade. Li seus livros por simples responsabilidade literária. Meu pai, que é de sua geração, queixa-se que é impossível conversar sobre quaisquer coisas com ele. Nenhuma política, nenhum clima, nenhuma lamúria cotidiana, nada desses assuntos mundanos é capaz de vingar na boca do poeta. Apenas a memória distante das casas de chão batido, das portas de madeira pesadas da igreja, da grande enchente de 1989, é digna de habitar suas falas. Monologa sobre fulanos e suas árvores genealógicas a fim de reconstruir quase tudo que já se foi. O poeta temporal está preso ao passado. Talvez seja difícil acordá-lo.

quinta-feira, 23 de março de 2017

"Tenho doença incurável
Sofro de irrealidade"

Líria Porto


As coisas deste mundo quase que não me interessam
(Só filósofos e animais)

O trabalho me aparta
Deus é dinheiro
E eu sou ateu
As contas são monstros difíceis
Nunca fui adestrado, quanto mais

O governo não deixa meu sono dormir
Canalhas, canalhas, canalhas

Cada pessoa tem seu horror

Lembro que neide é feliz e muito interessada
Neide deu veneno ao gato da vizinha
Depois deitou a cabeça e dormiu.
Dentro de mim, o governo e neide se parecem

A vida é indigesta

As coisas deste mundo quase que não me interessam
(Só poetas e desespero)

domingo, 22 de janeiro de 2017

Existe um momento
de lucidez quase obscena
na vida de uma mulher

Os pratos estão limpíssimos
e a dor que lhe atravessa
é inapelavelmente
feminina

Não há tempo para retroagir
Este momento pesa imensamente

Na madrugada de alguma cozinha
uma mulher agora pensa
que há um abismo grande demais
entre ela e o homem
que dorme

A mulher está por um fio
o homem a olha e quase não vê

O homem pensa que
precisa ajudá-la
e só pensa
A mulher percebe então que
embora os braços já estejam dormentes
precisa erguer-se sozinha

Ela ainda não sabe, mas
encontrará outras mulheres
Muito também acordadas
Neste lado de cá do abismo

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Para Nina

Queria muito ser aventureira, doida, forte, desbravadora do mundo

mas o tronco de quase todas as árvores
tem a sinuosidade das cobras

Vênus, entretanto

descreve um destino no espaço:
Escrever é a coragem de ser indigno

Uma coragem apavorada de ser

já é um modo muito pertinente de dizer não

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Há dias procuro uma agenda velha, cheia de manuscritos, nada acontece. Entro em desespero. Tenho pressentimentos terríveis toda vez que penso em seu acabado sumiço. O que havia de mais "valioso" era a lista completa de todos os livros que li, desde a infância. Os tempos verbais me preocupam, como se a perda já fosse certa. O nome desta sensação é pássaro-negro-observa-da-janela. Apanho o caderno da lista de sensações.
Há dias prevejo a tormenta de esquecer o curso de minha história, a que se passa por trás das cortinas. É uma história segunda, mas é igualmente um grande pedaço de tempo que, arrancado, tira o norte de tudo (como se descolam rios que se encontram?). De repente, não sei se guardei quem eu sou na minha memória ou se precisava anotar em listas também. Talvez, as minhas listas guardassem a minha verdade e nunca descobri, até este momento, o verdadeiro propósito infundado de não esquecer. Perder o que sei dos meus livros é como perder o que sei de mim. Porém, penso que se esqueço boa parte dos personagens, se eles se misturam e trocam de lugar mutuamente, se eles riem de mim, devo estar desistindo da história linear da vida aos poucos. Preciso de uma linearidade, mesmo que forjada em anotações cronológicas. Quantos poemas-possibilidades morrem com o desaparecimento de um caderno esgarçado?
A pessoa que olhou aquelas páginas antigas, folheou coisas disparatadas e concluiu que nada valem, atestou, sem saber, que o curso de uma vida não vale uma folha voando no tempo.