Ontem vi a foto de uma mulher política
Com cabelos cortados, coberta de tinta
Suja, humilhada, reduzida
Uma mulher latino-americana
Repito, uma mulher política
Nenhum poema pode me dar
A exaltação das minhas retinas
Uma mulher boliviana
Forçada a se submeter
Uma corja de homens
Homens apenas homens
Firmavam o corredor do abate
O ano é dois mil e dezenove
Uma mulher humana
Desfila sobre a escória
Uma nação queima
O povo armado desce dos morros
E a pergunta ressoa inadiável
Posso, com palavras, rebelar-me?
Uma mulher esquerda
Uma mulher indócil
Uma mulher imunda e vermelha
Não anda
Dança
No centro da matilha
terça-feira, 12 de novembro de 2019
terça-feira, 27 de agosto de 2019
Herança
Santa Maria é mais que uma foto
esquecida talvez
esquecida talvez
nas paredes da memória
A pequena Maria
mora neste instante
Quando um dia supus não retornar
Ainda não vibravam-me os ossos
Com a ternura que precisamos ter
A pequena Maria
mora neste instante
Quando um dia supus não retornar
Ainda não vibravam-me os ossos
Com a ternura que precisamos ter
pelo lugar onde procuramos
o fim das raízes
É difícil estancar um rio que corre dentro da gente.
Casa é tranquilidade.
Este chão em que piso
é mais que uma simples recordação.
É difícil estancar um rio que corre dentro da gente.
Casa é tranquilidade.
Este chão em que piso
é mais que uma simples recordação.
sexta-feira, 31 de maio de 2019
terça-feira, 16 de abril de 2019
Joana dark
Joana foi quem primeiro me ensinou
que o canto dos pássaros nem sempre quer dizer alguma coisa
Olhava e nada entendia
mas era tudo lindo de morrer
Ela sentenciou-me poeta
Joana tinha mania de cerrar os dentes
E conversar com pombas que não eram Deus
Como pode um cérebro
ser tão cheio de luzes?
Ela tinha seu jeito malévolo
que só é assim descrito
porque gostamos de proparoxítonas
Joana amava-me
Tenho ainda vivas as marcas no coração
Quando ela aqui recostou-se
Um dia, passou-lhe um cavalo de fogo à rua
Perdi-a para a noite
Minha amiga alcoólica
Seu cavalo pisou-me os óculos
Nada pude saber
Pedi perdão para o vento
Parva e desmiolada
Afinal, foram mesmo minhas mãos
que deixaram meus olhos na estrada.
Vai, Joana
Célere, impávida, máxima
Talvez nunca mais retorne.
Adeus, Juju
que o canto dos pássaros nem sempre quer dizer alguma coisa
Olhava e nada entendia
mas era tudo lindo de morrer
Ela sentenciou-me poeta
Joana tinha mania de cerrar os dentes
E conversar com pombas que não eram Deus
Como pode um cérebro
ser tão cheio de luzes?
Ela tinha seu jeito malévolo
que só é assim descrito
porque gostamos de proparoxítonas
Joana amava-me
Tenho ainda vivas as marcas no coração
Quando ela aqui recostou-se
Um dia, passou-lhe um cavalo de fogo à rua
Perdi-a para a noite
Minha amiga alcoólica
Seu cavalo pisou-me os óculos
Nada pude saber
Pedi perdão para o vento
Parva e desmiolada
Afinal, foram mesmo minhas mãos
que deixaram meus olhos na estrada.
Vai, Joana
Célere, impávida, máxima
Talvez nunca mais retorne.
Adeus, Juju
quarta-feira, 6 de março de 2019
domingo, 10 de fevereiro de 2019
Para entender o puerpério
Vá a uma fazenda
em que o gado se cria solto no pasto
Abeire-se do cercado
Aviste a vaca recém-parida
Ela mira tua cara de muito longe
Levante o arame farpado até seu justo limite
Passe por debaixo
Atenção com prováveis cortes
Aproxime-se de peito largo
Nenhuma humildade
Aproxime-se sem escusas e
Eleve sua mão na direção do filhote
Não ligue para a vaca
Eleve sua mão agigantada e tente tocá-lo.
em que o gado se cria solto no pasto
Abeire-se do cercado
Aviste a vaca recém-parida
Ela mira tua cara de muito longe
Levante o arame farpado até seu justo limite
Passe por debaixo
Atenção com prováveis cortes
Aproxime-se de peito largo
Nenhuma humildade
Aproxime-se sem escusas e
Eleve sua mão na direção do filhote
Não ligue para a vaca
Eleve sua mão agigantada e tente tocá-lo.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Todas as mães já falaram
das gotas que escorrem previsíveis
Nenhuma, como eu,
define
a dor de se abrir
Paraíso e
Tempestade
A terra que rachou
em mil labaredas
Para te engolir
Será que um dia a ferida se fecha?
Cada parte do teu filho
é bálsamo e unguentos
Mas a tua mãe,
a mãe da tua mãe
e a mãe do pai
são o sal derramado
A mãe chora a dor do filho
que ainda não entende ter nascido
O filho chora a dor da mãe
que perdeu sua figura no espelho
Ninguém compreende
nem há palavras
mesmo inventadas
para dizer que choramos
no meio do sorriso
Somos duas gotas
num oceano quente
Mãe é ilha de água
para seu bebê navegar
E por mais que tentem
Profanar
Esse nó
Fincado no meio
da polpa viva do seio,
esse nó de cujo ventre
nascem as galáxias
ninguém conseguirá partir.
das gotas que escorrem previsíveis
Nenhuma, como eu,
define
a dor de se abrir
Paraíso e
Tempestade
A terra que rachou
em mil labaredas
Para te engolir
Será que um dia a ferida se fecha?
Cada parte do teu filho
é bálsamo e unguentos
Mas a tua mãe,
a mãe da tua mãe
e a mãe do pai
são o sal derramado
A mãe chora a dor do filho
que ainda não entende ter nascido
O filho chora a dor da mãe
que perdeu sua figura no espelho
Ninguém compreende
nem há palavras
mesmo inventadas
para dizer que choramos
no meio do sorriso
Somos duas gotas
num oceano quente
Mãe é ilha de água
para seu bebê navegar
E por mais que tentem
Profanar
Esse nó
Fincado no meio
da polpa viva do seio,
esse nó de cujo ventre
nascem as galáxias
ninguém conseguirá partir.
domingo, 19 de agosto de 2018
A nuvem quando está carregada
solta raios
Sentimos o peso
das suas curvas
cheias d'água
A nuvem quer nascer
faz pequenas tempestades
redemoinhos sozinhos
vento no mar
Até a nuvem descer
demora coisa de minutos
Ela está prestes.
Esse quase
Ensina a nuvem
a não gotejar
É preciso vir inteira
Quando finalmente chega
ela chora e chora
de encontro à terra
chora tudo
refresca, afoga, floresce
até desanuviar
solta raios
Sentimos o peso
das suas curvas
cheias d'água
A nuvem quer nascer
faz pequenas tempestades
redemoinhos sozinhos
vento no mar
Até a nuvem descer
demora coisa de minutos
Ela está prestes.
Esse quase
Ensina a nuvem
a não gotejar
É preciso vir inteira
Quando finalmente chega
ela chora e chora
de encontro à terra
chora tudo
refresca, afoga, floresce
até desanuviar
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