quinta-feira, 13 de junho de 2013

Mas seria muito bonito se dos ovos brotasse flor

Eu só gostaria de saber que tamanho têm as nuvens. A extensão exata das chuvas, que é-me questão de muitos quês. Como, quando criança, descobri que os ovos não cresciam das plantas, já que um dia vi cascas quase inteiras nas pontas de uma babosa. Mas seria muito bonito se dos ovos brotasse flor. 
Não quero mais ver as coisas pelo olho da ciência. Cansei-me. A ciência não me basta. A ciência pura é uma excrescência. Há sucesso em saber que os abacaxis são alcalinos? A teoria dos humores era uma verdade quase sublime, mas a loucura está soterrada. Se uma criança pede que lhe sirvam uma nuvem em lugar da sopa, deem nuvens às crianças! O maior pecado humano é não alcançar os olhos das crianças para depois dizer-lhes 'basta! Aqui não se come nuvens'. Degenerado é aquele que incompreende a sublevação dos sonhos infantis.
Gostaria de ainda ver que saem luzes cristalinas dos beijos que são beijos. Gostaria muito de ver um ovo florido, de transformar a opacidade da matéria.
Trago um deus que se regozija ao cear nuvens com as crianças, mas emudece diante de um tempo que é sólido demais.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Um dia desses,
desses que não estão perdidos,
Eu disse ao maior amor que tive
que sim.
Quero, enfim, alumiar o sertão,
dar minhas pérolas
e meus pulsos
Se junto d'ele eu estiver.

É a minha fome primeirinha
que nunca mais vou morrer.

Vou criar crianças
pra domadoras do mundo
vou lecionar
nas santas marias
e comer um pão feliz.

Procurei, pois, seu colo
e duas lágrimas
banhavam
serenamente
seu rosto.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Mãe

Hoje acordou um dia manso
Mãe me trouxe um vestido,
vestido de ficar dentro de casa,
branco de flor pintada.

Todo dia,
eu vou aprendendo
a apaziguar uma dor.

Eu me sentei junto d'ela
na mesa pequena da cozinha
- ali não cabe uma fome sequer -
E fui ajudar a fazer biscoito.

Todo dia, uma voz se cria
pr'eu saber dar corpo a ela.

Ali na cozinha
- templo e masmorra da família -
Eu vou conhecendo o que ela não diz.
Vou saber, um dia,
amar uma mãe que não me entende,
lavar a louça e guardar
pra que ela possa dormir feliz.
Fazer coisas sem nenhum sentido
pelo sentido de ter paz.
Vou compreender
profundamente
que meu silêncio
nutre uma culpa
que é só minha
e de niguém mais.
Que uma fúria, se torta,
não presta para fazer nada.

Vou anotar
certas preciosidades.
Que um biscoito,
para ser macio,
é primeiro domar os dragões
e depois pôr menos açúcar.

Um dia, eu alcanço
a velhice pueril
de minha mãe.

Pedir "bença"
todo dia,
sem esquecer
nem desprezar.
Saber que eu sou pequena perto dela.
Saber que o mundo é maior que eu.
Agradecer.

Todo dia
a gente aprende
a apaziguar uma dor.

sábado, 27 de abril de 2013

1.

Se eu te disser o porquê dessas unhas negras, tu não acreditarias. A rígida entrelaçadura das carnes, o corpo enfermo de tanta brasa, estes calos internos, tudo são mistérios a acumular-se nas vigas da casa. Mais quatrocentos ocultamentos para minhas palavras sem nome. Como as cores que os olhos não veem e permanecem, quasevivas, quasemortas, no indizível.
Meus dentes alheios de comunicação vigorosa - os frutos são sempre tardios - insistem nos maços de flores. Mastigo mil pétalas e, ainda precária, deito-me aos pés das roseiras. Intento tocar o corpo da vida que me escapa, correr ao jardim e cavar as madrugadas. As rosas me olham. Quando é que me apartei do mundo? Então atravessa, quase inocente ao negrume da noite, aquela ave soberba, de penas tão impossivelmente escuras que demovem minha melancolia. Aquela ave - penso eu - tem a cor do exato momento em que à noite as mulheres são mais solitárias.

2.

Se eu fosse uma ave, não me aperceberia de mim e talvez não trouxesse rígida a carne, o corpo enfermo, o peso devasso das dúvidas humanas. Chocaria meus ovos de paciência porque assim seria. Não teria de explicar o negro das unhas. O coração é um pedregulho que, longe do diamante, não lapidou-se, sofreu muitos golpes de marreta quando pedra e reduziu-se. Afasto assim as lágrimas pensando no coração-pedregulho; gesto mais sem razão, como sem razão são as aves. Degolei todas aquelas rosas para comê-las. Porque vejo eu razão nas rosas? Afinal, se há coisas sem nome, é que passo muito tempo a imaginá-las. Se não o fizesse, elas não haveriam. Porque me fizestes, Deus, mais pergunta e menos mulher?

3.

Se um dia eu morrer de repente, afundem-me rápido debaixo das roseiras. Fiz da morte de minhas flores um cobertor. Quero ter o corpo morno para sempre.

domingo, 31 de março de 2013

A fibra do coração é a mesma

Os tempos são tristes
para os que buscam
a consistência dos sonhos.
É muito estranho,
sobretudo, aterrador
saber que há gente
a recusar o espetáculo
de amor
dos humanos.
Eu amo
Dois amam
E se alguns carregam os
mesmos órgãos sexuais
são poderes magníficos
da natureza diversa.
A fibra do coração
é a mesma.
Ninguém detém
o pensamento
de Deus.
É sofrimento ver
um animal se debater
contra o curso
poderoso
de um rio.
A suposta ordem natural das coisas
É uma suposta
ordem
natural.
Há sinais
- ininteligíveis para os que não ousam compreender -
de que há metamorfose
no tempo,
Quem não o acompanha
acaba por ser tragado
pela poeira das eras.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013


Doce Jurema, 

Sucedeu-me que mal completos meus primeiros dois meses cá onde estou, espatifei no sofá por puro tédio. (Sim, este sofá é a representação suprema de todo o tédio humano). Por isso recorro ao papel-e-caneta para alumbrar a minha companheira das mais torpes digressões.

Já te disse o quão desconfortável é tudo em minha casa? A mistura extraordinária do maior número de variações decorativas que uma mãe é capaz de fazer; as ondas constantes de poeira que adentram portas e janelas; a secura que racha-nos narizes e bocas e o pior (sim, o pior!): a ausência total de privacidade. Caso esquisito é que hoje, já consternada, estanquei minha rabugice por tanto apelar minha sábia mãe: “se te derem limão, faça um limoeiro”.

Atrevo-me a externar as causas de minha estadia ter-se tornado mais suportável. Como havia dito, a privacidade em minha casa é um simples mito, não existe de todo. Não há muros entre as casas e dividimos com a vizinha uma de nossas paredes, de modo que tudo que lá se passa nos é audível e vice-versa (este vice-versa é um tanto desinteressante, não?). Neste caso muito pouco inteligente da arquitetura, não há, em verdade, bisbilhoteiros legítimos. Excede-se a minha Mãe Maria (a empregada) quando estaca junto da porta lateral da cozinha. “Tá de butuca, Mãe Maria?” Ela volta a si e finge bater o bolo. É fato que a programação televisiva é deveras chata e a vizinha protagoniza verdadeiros Casos de família muito mais instigantes. No mais, estamos isentos de culpa. Temos ouvidos, ora! Se te contar a última, você nem poderá acreditar (se não fossem estes preciosos ouvidos que a terra há de degustar). A trama é cabeluda. A vizinha, de nome Marília, é separada do marido e tem duas filhas quase crianças. Carminha, que não deve ter ainda caídos todos os dentes de leite, e Jussara, a que todos chamam "a diaba", tem treze anos e dá indiscriminadamente aos guris da cidade. Sim, Jurema, não esteja boquiaberta, por estas bandas também se ouve Geni e o Zepelim. Cá entre nós, critério é fanfarrice. Imagino sua cara de "certa é ela" e as nossas gargalhadas de passarinhas bêbadas. O fato é que a mãe está a por os bofes para fora de tanta raiva de Jussara, não é que a doidinha engravidou? Quase todos os dias ouve-se a vizinha maldizer a criança e, logo em seguida, ameaçar escorraçar a filha de casa. As irmãs se uniram contra o desatino da mãe, só conversam entre si, confabulam, Carminha promete apadrinhar a sobrinha e diz que cuida, fala em fuga, Jussara-maluca pensa em tirar, diz que odeia o pai ("aquele minino zé ninguém") e quer ser sozinha, só ela e a irmã. Uma confusão!

Outro dia, chegando em casa, vejo Mãe Maria gesticulando, quase apavorada, numa conversa de porta com Jussara. A menina revirava os olhos esboçando indiferença. Mariazinha é mesmo abusada. Foi pedir (pois é, quase implorar) para que Jussara não matasse o próprio filho, ouvi coisas como “pobrezinho” e “santo Deus!”. Eu via a hora da "diaba" soltar uns bons desaforos na cara da enxerida, mas Jussara, tão avoada, só bocejava. Entrei sem palpites, seria demais. Depois de curto tempo, ela voltou lacrimosa e fui perguntar o que havia acontecido. Ela disse que a menina era sem coração de verdade, ao invés de ouvir o que aconselha o Nosso Pai, disse ao final que Mãe Maria procurasse uma boa caceta (!!!). "Jesus seja louvado!". Mãe Maria e seu olho esbugalhado. Segurei meu riso com muita destreza. Difícil, Jurema, difícil! 'De geniosa a genial: uma história de Jussara.' pode ser um título de meu livro.                                                                                                                                
Todos aqui em casa estamos apreensivos na expectativa desta novela. Correm rumores de que o pai da criança - um meninote ajudante de mercado - quer raptar Jussara para que nenhuma desgraça seja feita. No desenrolar da trama, envio-lhe novidades quaisquer. Enfim, está justificado o meu apaziguamento? Tenho material suficiente para trabalhos antropológicos. Esteja bem, querida.

Saudades,
Ellenalva.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

É um tomar osadia...


“Mas essa cidade ao menos vive, tem cor e tem barulho. Não se reduz à mornidão d’um chão vermelho e seco como o do Distrito.” Ouve-me repetir acalorada o turista insatisfeito. Aponta-me tantos defeitos e precariedades que fica difícil manter meu apelo à poesia. Mas sim – insisto – há um brilho que sobrevive e respira solene por sobre os ares fétidos da cidade. Um perfeito caos de vagamundos. Quem não conhece a beleza no contraste sequer será capaz de reconhecer plenamente a beleza na perfeição.
Confesso: não foi tão simples me acostumar. Salvador é mais afetuosa, digamos assim. É raro alguém não puxar conversa numa longa viagem de ônibus, seja por tédio ou força do hábito, um motorista que deseja bom dia e boa sorte, a baiana que te chama ‘linda meu amô’. É um “tomar osadia” constante, que não significa propriamente invasão, nem recai no clichê da hospitalidade baiana. É mais um comunicar-se espontaneamente, para além do automatismo de uma metrópole. As pessoas se encontram, e as pessoas se misturam.
 Seria talvez trabalhoso (ou ainda, perverso) fazer alguém que com nada se encantou neste lugar perceber a vida circundante que tento descrever. “Não, você não precisa me lembrar quem está fora das cordas no carnaval, quantos casarões aos pedaços, o trânsito ignóbil, a família Magalhães.” A paixão por uma terra nunca é cega. Quanto mais afeição, mais profunda a consciência, afinal estar num lugar é fazer parte dele. Tramita-se por suas veias, tem-se lúcidos todos os sentidos. E principalmente: “Não é disso que falo… Não quero um visitante consternado ao meu lado. Entenda”.
 A conversa era banhada com goles de cerveja, que, entusiasmados, esquecíamos de beber. Um amigo fastioso das minhas elucubrações e da resistência do brasiliense pergunta se queremos criar peixes. A essa altura, o fiel combatente me chamava Policarpo ao mesmo tempo em que se perguntava por que diabos a fila do acarajé parecia não sair do lugar, eu retruquei indagando se acaso ele já havia provado o acarajé da falecida Dinha. “Essa agora é realmente instigante, uma defunta baiana ou uma baiana defunta?” “Ora, digo, pois, que o amigo não perca a oportunidade de comer um acarajé feito nos céus”.
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Crônica produzida especialmente para Torcicolo do caboclo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Exercícios Pérfidos II - O melindroso

Depois que descobri, pensei na cólera e no silêncio. A cólera é uma loucura breve, então não precisei desperdiçar minha poesia. Decidi não escrever. Passei muito tempo sem compreender porque não conseguia gostar das gaivotas, das âncoras, mas percebi que é tudo muito ruim mesmo. Literatura ruim esfria meu café. Prefiro me ocupar de pintar as unhas. Não tenho problemas. Não carrego um mundo incomunicável e fora dos limites da "normalidade". Meu mundo sou eu. Então pensei no silêncio. Como o tenho saturado! Como é difícil arrancar de meus ossos as verdades que deveriam ser ditas. Ora. Elas deveriam ser ditas? E acaso toda verdade necessita de um propósito? Fato é que não se trata de destilação de veneno. Meu coração apodrece, é simples. Há uma sujidade difícil de ser lavada, preferiria pintar as unhas, mas preciso continuar.
Saulo, preciso te contar uma coisa, uma anunciação a toda a gente (porque é mais perverso ainda saber sozinha). Não há docilidade nenhuma, sim sim, vamos beber absinto, a vida é nada. Não, vamos ficar em casa e rir à toa, já passou, podemos escrever nosso livro sozinhos. Em verdade vos digo, você e essas amoras, a contradição é bem mais embaixo. Não esteja pasmado, é muito mais coerente uma vileza que é mais vileza e menos afabilidade. Há um nítido melindre, você reparou? Podemos chamá-lo de senhor melindroso, além de muitas outras coisas. Um melindre tempestuOso, hiperbÓlico. Há uma agressividade animalesca. Preconceitos terríveis, carnudos, entranhados. A mim, foram absolutamente aniquiladores (eu era gente cega, Saulo, acalma-te). Agora preciso usar palavras que não gosto (isso é tão custoso), mas não encontrei equivalência que bastasse: há hipocrisia e falsidade. Gentileza? Em que parte? Há uma fuga da verdade do corpo que irrita desoladoramente. Há uma infinidade de desenganos que deixam-nos doentes. É preferível pintar as unhas, já disse. Tudo bem, falemos de José. Mas como é possível? Ainda me deparo meio estarrecida com esse como é possível, entende? Então vamos limpar o coração. Camomila, aspargo, doce de caju e chocolate. Escolhi o azul, você gostou?
Depois que descobri, estive doida, porque não há nada aqui que seja feito de ferro. Não tenho vergonha de sentir e dizê-lo. Mas meu mundo estará são dentro de duas semanas, então não precisei desperdiçar meus poemas. Amores nunca serão desperdiçáveis. E as minhas unhas ficaram tão lindas!

domingo, 9 de dezembro de 2012

Exercícios pérfidos I

Estivemos equivocados.
Pouse a destra ampla no dorso
destes animais
E ponha-os calmos.
Dê fim a este endoidecimento.

Uma fonte luminosa
é luz e água,
é água e luz
apenas.
Uma metáfora
é uma metáfora
E não acalanto.

Mitigue esta dor
que nem é força.

A vida é um pouco péssima
E todos nós sabíamos disto


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(III/12)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Carta à Joana

Joana tem razão. Sou paralisada diante de muito pouco, o que há no lugar do estômago não é senão uma pomba. Minha perplexidade é humilde. E essa mania sem ordem e origem de rir-se de todas as coisas. Porque rio eu de todas as coisas? Há um mundo doente e, como débil, rio-me de todas as coisas. Uma parvoíce sem quês, um modo muito besta de não mandar ninguém se foder. A melancolia congênita de quem espera passivamente as fatias do tempo desordenarem-se. Permaneço e não vivo. Sei que muito em breve eles irão apalpar minhas assombrosas tetas e realizar minúcias nos meus olhos míopes. Como fugir? Compreendes? Como desvencilhar-me das palavras bonitas? As palavras bonitas são tudo o que há no mundo. Cinco anos! Cinco anos para perceber mais que uma frase de tua carta. Ainda assim ela é mais bela que triste. Ainda assim eu sou mais bela que triste. Cinco anos para que eu te alcançasse um único verbo. Muitas listas foram necessárias.
Estou ainda num tempo recluso, tu sabes, a matéria não pode sangrar. Não tenho ideia de quantas diabruras ainda me aguardam até que se forme o invólucro. Sinto medo dessa letargia, dessas vísceras ingênuas porque diabólicas. Preciso contar-te, em muito orgulho, as minhas primeiras grosserias, quero dizer, os primeiros atos que podem ser considerados rudes (olhe o contexto!). Quero também acrescentar a palavra 'puta' àquela lista que começa com 'deflorar'.
Joana tem razão. Nunca partilharemos o mesmo universo. Nunca pude dizer adeus ao trema sem usar de cerimônias. Há talvez uma paixão pela mitologia, o apego às metáforas e a filiação acadêmica que possam nos unir. De resto, Joana é a bruta flor trepada aos portais que pode ver as maldades muito além do que meu olho suporta. O que sou? Ainda não frutificou-se a toleima que consiste nesta carta para que lhe possa dizer. Ou talvez, Juju, sejas ainda mais arrazoada, talvez eu seja o próprio rasgo na face de Deus.