Joana foi quem primeiro me ensinou
que o canto dos pássaros nem sempre quer dizer alguma coisa
Olhava e nada entendia
mas era tudo lindo de morrer
Ela sentenciou-me poeta
Joana tinha mania de cerrar os dentes
E conversar com pombas que não eram Deus
Como pode um cérebro
ser tão cheio de luzes?
Ela tinha seu jeito malévolo
que só é assim descrito
porque gostamos de proparoxítonas
Joana amava-me
Tenho ainda vivas as marcas no coração
Quando ela aqui recostou-se
Um dia, passou-lhe um cavalo de fogo à rua
Perdi-a para a noite
Minha amiga alcoólica
Seu cavalo pisou-me os óculos
Nada pude saber
Pedi perdão para o vento
Parva e desmiolada
Afinal, foram mesmo minhas mãos
que deixaram meus olhos na estrada.
Vai, Joana
Célere, impávida, máxima
Talvez nunca mais retorne.
Adeus, Juju
terça-feira, 16 de abril de 2019
quarta-feira, 6 de março de 2019
domingo, 10 de fevereiro de 2019
Para entender o puerpério
Vá a uma fazenda
em que o gado se cria solto no pasto
Abeire-se do cercado
Aviste a vaca recém-parida
Ela mira tua cara de muito longe
Levante o arame farpado até seu justo limite
Passe por debaixo
Atenção com prováveis cortes
Aproxime-se de peito largo
Nenhuma humildade
Aproxime-se sem escusas e
Eleve sua mão na direção do filhote
Não ligue para a vaca
Eleve sua mão agigantada e tente tocá-lo.
em que o gado se cria solto no pasto
Abeire-se do cercado
Aviste a vaca recém-parida
Ela mira tua cara de muito longe
Levante o arame farpado até seu justo limite
Passe por debaixo
Atenção com prováveis cortes
Aproxime-se de peito largo
Nenhuma humildade
Aproxime-se sem escusas e
Eleve sua mão na direção do filhote
Não ligue para a vaca
Eleve sua mão agigantada e tente tocá-lo.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Todas as mães já falaram
das gotas que escorrem previsíveis
Nenhuma, como eu,
define
a dor de se abrir
Paraíso e
Tempestade
A terra que rachou
em mil labaredas
Para te engolir
Será que um dia a ferida se fecha?
Cada parte do teu filho
é bálsamo e unguentos
Mas a tua mãe,
a mãe da tua mãe
e a mãe do pai
são o sal derramado
A mãe chora a dor do filho
que ainda não entende ter nascido
O filho chora a dor da mãe
que perdeu sua figura no espelho
Ninguém compreende
nem há palavras
mesmo inventadas
para dizer que choramos
no meio do sorriso
Somos duas gotas
num oceano quente
Mãe é ilha de água
para seu bebê navegar
E por mais que tentem
Profanar
Esse nó
Fincado no meio
da polpa viva do seio,
esse nó de cujo ventre
nascem as galáxias
ninguém conseguirá partir.
das gotas que escorrem previsíveis
Nenhuma, como eu,
define
a dor de se abrir
Paraíso e
Tempestade
A terra que rachou
em mil labaredas
Para te engolir
Será que um dia a ferida se fecha?
Cada parte do teu filho
é bálsamo e unguentos
Mas a tua mãe,
a mãe da tua mãe
e a mãe do pai
são o sal derramado
A mãe chora a dor do filho
que ainda não entende ter nascido
O filho chora a dor da mãe
que perdeu sua figura no espelho
Ninguém compreende
nem há palavras
mesmo inventadas
para dizer que choramos
no meio do sorriso
Somos duas gotas
num oceano quente
Mãe é ilha de água
para seu bebê navegar
E por mais que tentem
Profanar
Esse nó
Fincado no meio
da polpa viva do seio,
esse nó de cujo ventre
nascem as galáxias
ninguém conseguirá partir.
domingo, 19 de agosto de 2018
A nuvem quando está carregada
solta raios
Sentimos o peso
das suas curvas
cheias d'água
A nuvem quer nascer
faz pequenas tempestades
redemoinhos sozinhos
vento no mar
Até a nuvem descer
demora coisa de minutos
Ela está prestes.
Esse quase
Ensina a nuvem
a não gotejar
É preciso vir inteira
Quando finalmente chega
ela chora e chora
de encontro à terra
chora tudo
refresca, afoga, floresce
até desanuviar
solta raios
Sentimos o peso
das suas curvas
cheias d'água
A nuvem quer nascer
faz pequenas tempestades
redemoinhos sozinhos
vento no mar
Até a nuvem descer
demora coisa de minutos
Ela está prestes.
Esse quase
Ensina a nuvem
a não gotejar
É preciso vir inteira
Quando finalmente chega
ela chora e chora
de encontro à terra
chora tudo
refresca, afoga, floresce
até desanuviar
sexta-feira, 6 de julho de 2018
Madureza
Guardo no corpo
Um segredo místico
Uma origem
Um laço de eternidade
O princípio
Todas as palavras que conheço
Um instante consagrado
O movimento dos planetas
O rio que corre nas veias da terra
Um segredo místico
Uma origem
Um laço de eternidade
O princípio
Todas as palavras que conheço
Um instante consagrado
O movimento dos planetas
O rio que corre nas veias da terra
sábado, 3 de março de 2018
Li coisas que escrevi em cartas e diários e senti algo que lembra saudade. Era assim: escrever é como abrir buracos negros. Depois de um tempo irei revisitar uma época acabada apenas para reencontrar-me. A escrita é a agulha que uso para a inserção no tempo. Achei preciso.
Então pensei no que eu queria mesmo, que era criar uma vaca. Ter uma casa dentro de um sítio apenas para comportá-la. Uma vaca resgatada, a única que escapou de estar prestes a incorrer no pecado de sentir as angústias da hora da morte. Imagino-a entrando pela sala, branca, gorda, primorosa, uma exímia filha de deus. O que eu queria mesmo era ser Adélia, mas nasci Helena, consolo-me.
Pronto, outro salto temporal. Estou refletindo ser breve, dar fluxo ao pensamento. O mais importante hoje é descrever o jeito como os nossos olhos se movimentam sobre as frivolidades. Então é isso, o futuro é uma vaca descansando sua mansuetude no sofá da minha casa.
Então pensei no que eu queria mesmo, que era criar uma vaca. Ter uma casa dentro de um sítio apenas para comportá-la. Uma vaca resgatada, a única que escapou de estar prestes a incorrer no pecado de sentir as angústias da hora da morte. Imagino-a entrando pela sala, branca, gorda, primorosa, uma exímia filha de deus. O que eu queria mesmo era ser Adélia, mas nasci Helena, consolo-me.
Pronto, outro salto temporal. Estou refletindo ser breve, dar fluxo ao pensamento. O mais importante hoje é descrever o jeito como os nossos olhos se movimentam sobre as frivolidades. Então é isso, o futuro é uma vaca descansando sua mansuetude no sofá da minha casa.
sábado, 2 de dezembro de 2017
Parque 2
Para Neldo
E havia Nestor, a quem minhas letras tímidas tentam se redimir. Diante de tanta força, de tanta grandeza e memória, acredito em mim porque acredito nele. Porque qualquer voz é capaz de atravessar paredes. Porque nascemos no tempo da bondade e ele gosta de decorar os versos que eu finjo saber também. Margarina, piscina, gasolina, Carolina. De repente fico boquiaberta por vê-lo tão crescido. Nestor segura a minha mão e sabe entender, mostra-me os poemas que me fazem chorar pela dor de existir. Gostaria de dar-lhe horas de sono se sono pudesse ser embalado em papel de presente. Dorme um pouquinho, Nestor. Come um pouquinho, também. Feito uma mãe besta. Invés disso, saímos notívagos para dançar até acabar os sapatos.
Tenho medo de que o mundo te quebre, sim. E que eu não saiba sustentar seus ombros erguidos. Tenho medo de dizer tudo errado, talvez eu esteja dizendo. Por favor, não se quebre. Ou me deixe saber de um modo muito objetivo caso qualquer furacão esteja passando. Estale seus dedos na frente do meu rosto, faz uma banda tocar e põe um outdoor na frente da minha casa. Te amo muito, Nestor. Espiei debaixo da tua máscara, me perdoe, fiquei extremamente emocionada de novo. Você é tão lindo e eu tenho tanto orgulho. Tudo que eu mais gostaria é te retribuir ao menos uma parte do que você é. O que você faz em mim não tem nem palavra.
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
Crianças dormem em creches
sobre lençóis dispostos no chão
nenhuma indignação jamais será capaz
de mudar o fato de que
crianças dormem em creches
por cima da desumanidade
Você é uma formiga que apaga pequenos incêndios
cheia de várias rebeldias
que precisam ser sufocadas
É melhor carregar teu grão de açúcar
mirando as antenas sempre para baixo
para não perceber que
crianças em creches
almoçam bolacha Maria
Você é uma centelha pairando sobre a cratera
o teu labor insignificante
não irá mudar
absolutamente nada
As crianças sorriem e te abraçam
porque ainda não sabem dizer a palavra futuro
sobre lençóis dispostos no chão
nenhuma indignação jamais será capaz
de mudar o fato de que
crianças dormem em creches
por cima da desumanidade
Você é uma formiga que apaga pequenos incêndios
cheia de várias rebeldias
que precisam ser sufocadas
É melhor carregar teu grão de açúcar
mirando as antenas sempre para baixo
para não perceber que
crianças em creches
almoçam bolacha Maria
Você é uma centelha pairando sobre a cratera
o teu labor insignificante
não irá mudar
absolutamente nada
As crianças sorriem e te abraçam
porque ainda não sabem dizer a palavra futuro
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