terça-feira, 27 de agosto de 2019

Herança

Santa Maria é mais que uma foto
esquecida talvez 
nas paredes da memória
A pequena Maria
mora neste instante

Quando um dia supus não retornar
Ainda não vibravam-me os ossos
Com a ternura que precisamos ter 
pelo lugar onde procuramos 
o fim das raízes

É difícil estancar um rio que corre dentro da gente.

Casa é tranquilidade.
Este chão em que piso
é mais que uma simples recordação.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Procuro num poço bem fundo,
nas músicas que achei que diziam tudo,
na palavra doce dos imortais.
Procuro nos cadernos velhos,
cavo a terra, reviro livros, raízes,
subo nas copas mais altas,
não encontro a forma mais precisa de descrever o amor de uma criança.

Problema de gênero

Há tantos homens quebrados
Partindo ossos de mulheres inquebráveis


terça-feira, 16 de abril de 2019

Joana dark

Joana foi quem primeiro me ensinou
que o canto dos pássaros nem sempre quer dizer alguma coisa
Olhava e nada entendia
mas era tudo lindo de morrer
Ela sentenciou-me poeta

Joana tinha mania de cerrar os dentes
E conversar com pombas que não eram Deus
Como pode um cérebro
ser tão cheio de luzes?
Ela tinha seu jeito malévolo
que só é assim descrito
porque gostamos de proparoxítonas

Joana amava-me
Tenho ainda vivas as marcas no coração
Quando ela aqui recostou-se

Um dia, passou-lhe um cavalo de fogo à rua
Perdi-a para a noite
Minha amiga alcoólica

Seu cavalo pisou-me os óculos
Nada pude saber
Pedi perdão para o vento
Parva e desmiolada
Afinal, foram mesmo minhas mãos
que deixaram meus olhos na estrada.

Vai, Joana
Célere, impávida, máxima
Talvez nunca mais retorne.


Adeus, Juju

quarta-feira, 6 de março de 2019

Desde que senti
Pela primeira vez
Uma semente pulsante
Aqui dentro
Comecei a pedir perdão
À minha mãe
Bem baixinho
(me desculpa, me desculpa)
Meu egoísmo de ser pessoa
Nunca soube que ela foi meu primeiro universo

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Para entender o puerpério

Vá a uma fazenda
em que o gado se cria solto no pasto
Abeire-se do cercado
Aviste a vaca recém-parida
Ela mira tua cara de muito longe
Levante o arame farpado até seu justo limite
Passe por debaixo
Atenção com prováveis cortes
Aproxime-se de peito largo
Nenhuma humildade
Aproxime-se sem escusas e
Eleve sua mão na direção do filhote
Não ligue para a vaca
Eleve sua mão agigantada e tente tocá-lo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Escrevo poemas.
Isto não é um anúncio
É, sobretudo, uma crença
Preciso retornar a ela
A cada vinte e duas respirações
Acariciar-me a calma
Para dizer
que eu sempre terei para onde retornar

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Todas as mães já falaram
das gotas que escorrem previsíveis
Nenhuma, como eu,
define
a dor de se abrir
Paraíso e
Tempestade
A terra que rachou
em mil labaredas
Para te engolir

Será que um dia a ferida se fecha?

Cada parte do teu filho
é bálsamo e unguentos
Mas a tua mãe,
a mãe da tua mãe
e a mãe do pai
são o sal derramado

A mãe chora a dor do filho
que ainda não entende ter nascido
O filho chora a dor da mãe
que perdeu sua figura no espelho

Ninguém compreende
nem há palavras
mesmo inventadas
para dizer que choramos
no meio do sorriso

Somos duas gotas
num oceano quente
Mãe é ilha de água
para seu bebê navegar

E por mais que tentem
Profanar
Esse nó
Fincado no meio
da polpa viva do seio,

esse nó de cujo ventre
nascem as galáxias
ninguém conseguirá partir.






domingo, 19 de agosto de 2018

A nuvem quando está carregada
solta raios
Sentimos o peso
das suas curvas
cheias d'água
A nuvem quer nascer
faz pequenas tempestades
redemoinhos sozinhos
vento no mar

Até a nuvem descer
demora coisa de minutos
Ela está prestes.
Esse quase
Ensina a nuvem
a não gotejar
É preciso vir inteira

Quando finalmente chega
ela chora e chora
de encontro à terra
chora tudo
refresca, afoga, floresce
até desanuviar

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Madureza

Guardo no corpo
Um segredo místico
Uma origem
Um laço de eternidade
O princípio
Todas as palavras que conheço
Um instante consagrado
O movimento dos planetas
O rio que corre nas veias da terra