sexta-feira, 11 de junho de 2010

Bucólicas

"I feel your racing heart
My liquid silver arms extended
These waves aren't far apart
Black gold in clawfoot tubs unchanging
I am fire, where's my form?
Whisper crimson I intrude
There's light beneath your eyes
New overtones in view
Endless form, endless time"
(MGMT-4th Dimensional Transition)

      








Corríamos nus, flutuantes por árcade colina, quase a pisar a relva, contornávamos horizontes em movimentos de bicho-preguiça, languidecidos, não tínhamos músculos. A nossa carne era polpa branca das pitombas, nosso sangue seiva verde, pulsando em finas veias doiradas, corriam pelas costas cabeleiras de melgaças raízes.
      Corríamos envelhecendo invertidos, o suco dos olhos rejuvenecia-se, apequenenávamo-nos a cada passo, mas tínhamos os dedos meus nos seus nascidos gêmeos siameses.
      Meus mamilos ardiam ao sol e sua saliva amainava a brasa. Era um ciclo bonito passar meus dedos livres dentro de seus lábios para recolher meu alívio, ou de encontro à sua boca calidecente meu seio tombar e se umedecer. Você era um refúgio tecido de frescas begônias.
      Ao sermos arfantes, repousávamos nos grandes lagos que escorriam do útero das árvores. Dois seres pequeninos e luminosos afundados na doce gelatina arbórea. E era ali, entre as folhas e penugens, que nossa membrana rompia-se fazendo-nos aglutinados e, livres da matéria, éramos mais intensos, éramos eu, você e lago num único tempo. Depois dessa pequena morte, compunha-nos de novo para seguir jornada, um quase voo ébrio; e para a nossa visão a floresta abria-se em cores outrora desconhecidas, os pássaros acima tinham fortes tons azuis que demoravam-se roxos, grenás até desaguarem no vermelho mais vivo. As copas balançavam-se salpicando todas as tintas, nós ríamos, devaneados, da música colorida a inebriar a selva. E bailávamos, correndo sempre, menores e menores a cada salto, tanto diminuídos que, de baixo, acenávamos aos insetos, tudo agigantava-se num piscar que chegamos à pergunta de que sumiríamos n'alguma poça oceânica; e nos concluímos felizes.
      Ao nos depararmos com uma lagoa rosa-azulada vinda dos anéis de duas árvores imponentes, decidimos nela desaparecer. Mergulhamos os pés, em harmonia, que derreteram-se em contato com a água. Nós dois nascidos ligados, a soçobrar os corpos como se descasca fruta.
     Misturamo-nos polpa carne seiva cabelos e veias; e morremos infinitos.   


Imagem: Across The Universe - Julie Taymor


sábado, 29 de maio de 2010

História obliterada da mulher que é mulher ou Apelo Discursivo

Quem come sou eu!

                                        




                                                 ("I have the pussy, so I make the rules")

sábado, 15 de maio de 2010

Puedo escribir los versos más tristes esta noche*

1.
Foi na banheira, essa coisa nada cotidiana, dava tempo pra refletir, ás vezes sobre o dia, ás vezes sobre filosofia, ás vezes sobre a própria vida, é quando se chega a todas as conclusões mais fundamentais, na banheira quase esquecida, essa coisa de luxo ou de livros, imerso nos vapores adocicados, com as pontas dos cabelos boiando na espuma, vagueando. Foi assim, não se pode dizer que de repente, que constatou sobre os vários cafés oferecidos a ela, alguns textos anônimos tão amargamente dedicados, o tempo embaraçoso, o dizer que de tão meticuloso foi-se parco. Tudo em que ela estava perto, era uma pontadazinha aguda que saltava sem querer, agora sabe. Pousou a mão no rosto, compenetrado. E o que se faz agora quando se sabe? Só o sofrer que ganha algumas gotas de consciência. E olhou no espelho sua forma míope, passou os dedos na superfície pra que se fizesse nítido. E pra que quis desembaçar aquela figura tão feia? Desejou não ter aquele velho espelho, nem espelho nenhum no mundo.

2.
No primeiro dia achou estranho. Quis estar (e fugir sofregamente quando estivesse) com ela. E se a perdia de vista, a procurava debilmente pra depois se afastar. Como um louco, pensou. Repudiou cada colega que se aproximava da mesa dela, pedir uma caneta? Um pedaço de papel? Queriam todos comê-la! Arrancar os botões de sua camisa. Animais! Ele enojava-se. E impregnava de mais e mais claridade a imagem da maior singeleza que lhe tinha: ela era uma aura branca, ela tinha o corpo mancebo, jamais tocado por homem algum. Estava adormecida, eterna e eterna, no alto da maior montanha da Terra. Durante todos os seus gestos ele a estava a observar, a adivinhar onde tocaria seu braço e qual o desenho que fariam os dedos ao discar o telefone. Não trabalhou, estava feliz - apesar de apesar - por tê-la de amor. Amor, essa palavra misteriosa, que guarda todo tipo de simpatia ou paixão e, solerte, segreda toda dor.

3.
No sétimo dia se enfureceu. Tenho tudo dentro de mim a procurar por ela, tudo grita endoidecido de não ser escutado! Como não se pode fazer, ao menos, tangível? Achável, que seja! Uma pequena disposição, nem que brusca, de estar para ouvir, permitir que possa haver! Todas as pessoas tão egoístas, mas eu estou aqui, sem nada que seja meu sem que tenha dela. Como seria possível tamanha forma de se dar? Cabível maneira de existir?

4.
No trigésimo dia sentiu... não se sabe o que. Era tanto saber que já amava, e amava só, que pensou ser a única criatura viva que se sufocava nesse mar que não conhecia, um mar que tem muito de solidão e um muito tanto de crueldade, se não se sabe se está fundo ou na beira, se o mar é um mar amarelo ou anil. Ou se ela também navegava, se poderia... Decidiu sair à rua, caminhar, ver gente. Mas é justo nesses dias que parecemos estar numa novela. Só encontramos casais, moças e velhinhos felizes, românticos. As mãos dadas num cúmplice dizer, que esta é a extensão do que sou, olhe: achei outro de mim, meu agora e de sempre. E parecem apontar-lhe com os olhos a sua exclusiva infelicidade. Irritou-se, voltou às pressas. Encheu um banho muito quente pra repensar. E teve pena de si mesmo.

5.
No quinto ano, seu sofrimento já era há muito uma parte fixa. Já nem chamava assim, com essa palavra boba e seca. Não tanto um sofrer, senão uma bala metálica introduzida no corpo por um disparo vagaroso. Convivia-se muito bem. Só ás vezes era preciso mudar de posição se a bala doía um pouco. Nas vezes em que o final de semana era ausente dela, digo, forçosamente ausente, se se tornava tão atordoante pensar os cortejos prováveis, os cafés que ela tomava que não eram pagos por ele. Mas não ligava, fingia.

6.
No sexto ano quis mexer com a introspecção repentinamente. Oferecer um bolo, convidá-la a sentar-se. Ela não o morderia. Talvez fosse influência daquela cena do filme, não se sabe. Nesse dia tudo nele era êxtase, tudo pulava numa alegria infantil, nostálgica. Ele começara a falar (falar, meu Deus!) sobre mais que o dia tedioso na empresa ou o clima. Arriscou-se a traduzir um pouco de como a beleza dela irradiava, sem mostrar-se um vil. Ela confessou sua surpresa com um sorriso isento de hostilidade. E tudo nele era música e uma dança natural. Em outros dias conversaram, cada vez mais sobre um e outro e menos sobre "o que" ou "como". Meses. Até ele sentir - algo que não pôde explicar - que a pontada aguda, aquela coisa misteriosa, que era uma incrível forma de se dar, aquele mar que sufocava cheio de palavras bobas e secas, tudo precisava ser dito. E com algum pesar (mãos trêmulas e coração diminuído) o fez, de voz quase sumida. Mas... mas? Mas ela não poderia navegar. (É, o Walter, sabe? Nosso colega, já tem algumas semanas, pois é.)

7.
Foi na banheira, essa coisa maldita e obscura que é a banheira, que os braços pendiam inamovíveis. No espelho ao lado a rachadura trincava do início ao fim, formava uma bola, olhando daqui parece uma rosa estraçalhada, o miolo é aquela mancha vermelha. Só os braços pendiam e gotejavam ainda, os braços pedintes, rogando um amor que nunca tiveram, um amor tão casto quanto pobre, tão mais puro quanto mais irrealizável, dentro daqueles braços duros de nunca ter havido mulher. E na banheira boiavam textos anônimos, cartas e cartas molhadas, papéis desmanchando-se aquosos, versos embebidos de sangue, todos ali, imersos naquele mar solitário (nem amarelo e muito menos anil) onde seu corpo, frio, inalcançável, perdia-se, afundava-se, cada vez mais, e mais. 


E. J. (14/V/10)


*Verso de "Um poema-canção de amor desesperado" (Vinicius de Moraes)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Breve Consolo aos encantados (prefácio)

- Porque a minha "Literatura" não partilha de nenhuma relevância ou brilho superior. Falar de si mesmo e alcançar o mundo é tarefa de gênios. Mas não tenho, como Nassar, uma horta para me ocupar (ignoro técnicas de plantio). Tenho essa coisa furtiva que a modernidade permitiu, por isso não paro, é só pausadamente que estou a tecer essa linha silenciosa que tu visitas de quando em vez, "meu igual, meu irmão".

domingo, 11 de abril de 2010

Eurídice e Orfeu

"Solidão, que poeira leve"
(Tom Zé)


E você derramou pelos dedos todo aquele fel de quem vai e vem, como um véu azul-límpido.
Eu, Eurídice, lacrimosa e pulsante, você era a música a conduzir-me do Hades.
Você sustentou esses olhos de lástima nos meus, mas é quase insuportável prender por tanto tempo assim, é quase loucura, é quase perdimento. Eu não pude, não pude, juro.
Porque os olhos são sempre feitos de pedra castanha, por vezes tingida de tons coloridos. Suas pedras diziam que me levarias pelo caminho.
O desconsolo daqueles minutos era um deus revoltado dentro de mim. Mas voltei-me para deitar-me em teu sêmen, e no cheiro de outras maçãs apodrecidas recostar o corpo agora só.
Eu emurchecida, a preparar um banho quente, a borrifar novos perfumes (que não me façam lembrar que jamais poderei esquecer-te em tuas partidas).
Você, uma razão maior, um desafio, um pomo que florece em meses primaveris.
Segurou minhas mãos para colher-me,
Acabou por levar minha flor maracujina.
Você artesão, você meu.
Meu ponto de certeza na história,
Você Orfeu.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Parque


Havia Marina. Uma menina de corpo leve e palavras francas. Deixou-se descobrir outros valores. E havia o sonho. Aquele cujas mãos brotavam das costas dela, crescendo sobre seus peitos. Do seu sonho Marina perfurava os olhos para entrar e nunca mais sair. Em cima dele ela cavalgaria eternamente em direção ao paraíso.

Havia Lúcia. Um pedaço rosado do céu. De sua ingenuidade nascera uma pitanga viva chamada Amor Verdadeiro. Ela é a única que sabe cuidar e quem um dia teve o leite empedrado e ardido e, mesmo assim, continuou. Lúcia só sabe dizer verdade.

Havia Ismália. Ela tem todo o céu, mas vai comendo-o em pedaços muito pequenos. Ismália sabe muitas coisas, quando ela diz você pensa: queria tê-lo feito. Até mesmo seus beijos (diários) são estreitosapertados, não se vê passar vento por eles. De mãos no queixo, oferecemos nossas bochechas.

Havia Júlia. A flor selvagem trepada aos portais. Parece contundente, de pétalas austeras. Sonha ser arrogante quando crescida. Me disse coisas bonitas e me disse coisas feias, mas ela se faz ser mesmo gostada por muita gente.

E há um parque - onde todas as meninas rodopiam carregando bonecas de cores diferentes - num ponto secreto da eternidade.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Dos laços














Não lhes amei cada dia como um sempre
Não beijei-lhes as mãos por pedir proteção
Bem soubessem, este gesto solícito, perdoai
Carece a verdade das palavras vãs

Não me haveria de admirar o tempo antigo
Apequenou-lhes o ver lentamente, de sobejo
Da couraça em que as amarras vos sustentam
                                                        [aflitos
Em riso de dor choroso rastejo

Meus passos castrados
Meu livro em branco
O pranto no claustro
O silêncio do canto
estão todos esparsos

Vejo o mundo por janelas alheias
Desvanecer-se no ar que não respiro
De meu punho as trovas de areia
vão sumindo na praia do suspiro

Laços de sangue são como cegas ataduras
Por isso meus dedos calejados

domingo, 22 de novembro de 2009

"el corazón, déjame libre!"

Quantas vezes quisestes voltar ao animal liberto para invejar-lhe as ancas mais as patas soltas e talvez confessar-lhe não reger sobre teu próprio sexo, e questionar-lhe como se corre, como se vive, como ser dono dos membros todos...

Se pudesse vê-lo nítido - com os olhos das mãos - pra afagar-lhe o pêlo de ouro e dizer-lhe no ouvido que antes fosse ele a razão pela qual vivia que o desejo simples de quebrar as correntes...

Mas as pessoas acobertam-se de razões anacrônicas para tolher a vida de quem ainda não vive...

Um resto de poeira luminosa pousa-lhe nas maçãs gélidas. Eis que avôa uma ave no horizonte sem cor.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Aniversário segundo

Acorde!
Perceba esse dia que vem. Seu dia que envolve, assumindo as janelas. Esse dia, seu.

O Primeiro pequeno pensamento de uma alegria sonolenta é "hoje", e me levanto dos sonhos azuis.

Tome, abra seu presente, hoje te ligarão, apenas hoje será lembrado.

Quando tocados os pés no chão desperto meu livre "serei".

Compramos refrigerantes! Nossa sobrinha te mandou um cartão.

Leio estes recados. Atendo telefones mudos, todos virão.

Venha, acorde, sua festa está pronta, seus convidados, seu bolo.

Minha festa, meus convidados... este copo, o dia é meu?

O barulho de conversas e músicas incomoda as vidraças, apunhá-la as portas. Todos aqui, não os vejo, há ninguém. Nada corre ao meu comando. Procuro cegamente o beija-flor, parado, perdido, na esquina, mas o beija-flor não é meu . Estas pessoas que me desconhecem, este cartão, este bolo patético, não é meu, este dia, não me pertence. Que não há nada de especial aqui, entende?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009


De que consistência se veste o interior de sua boca? Seria como polpa de uva madura, e úmida ou fresca e cálida? Será mordida, ou pura seria, ou será mole e entregue ou pudica?
Que fita borda sua calcinha? Quantos laços amordaçam-lhe o colo? Quais pintas salpicam seu corpo, quantas marcas elevadas na pele?
Quais palavras a fazem ruborecer? E o quão rubro se torna seu rosto? Terá o olhar doce transmutado em lascívia? Cobrirá com as mãos os seus olhos?
Que cheiro se exala dos cachos? Que contornos traçam-lhe a pintura? Será dúbia a cor de suas súplicas? Será terna ao pedir e ofertar? E quando somente em ser convertida, leremos sua verdade nas curvas? Expressa aos montes de orgasmos. Quantos? Diga-me quantos daremos? Qual a sua profundidade? Em tais paredes sanguíneas macias?
Profana-me. [Castiga-me eternamente] Como minha alma lhe profana o recato, como meus olhos lhe profanam as vestes,
sorvendo-te de glóbulos fervorosos...