sábado, 11 de dezembro de 2010

Fulana Outra


Imagino tua fulana
Imagino tua pra me doer

Não sei se ela nua
Inunda molhada tua barca
Invento fulana seca

Não sei se grita e vibra
no meio da tua cabeça
Invento fulana muda

Não sei se tem flor no cabelo
Invento fulana calva

Não sei o sabor
Da cor do seu cheiro
Amarga fulana, amarga

Fulana, pra mim,
é uma Macabéa triste
É uma Teresa desesperada
Ainda mato fulana afogada
Na lágrima que eu inventei

Essa fulana bem-amada
Ai que dor, que dor mordida!
Praga à fulana, praga
À tua fulana rica!
Nenhuma fulana merece tua dádiva

Eu fiz tua casa
Sou pobre Penélope
Sou o teu desejo
Sonho que mato fulana
Na cama do nosso leito

Imagino tua fulana
Imagino tua pra não morrer



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Joãoubaldorribeiro*

Você tem cara de que tem carne doce
Periculosidade
Se ao menos você se livrasse
Desse par de óculos escuros

Você tem cara de quem sabe
Mas só cara não resolve

Se eu quisesse um dia
Você seria muito eloquente
Eu sei
Você me ensinaria a fumar
E a ler poesia hermética
Mas só isso
Não adianta
Aliás, eu preciso?

Você derramaria tanto discurso
Alcoólico político
Que eu me enfastiaria
Na nossa conversa de corpo
Você seria rei

Oh, me desculpem
Eu não queria ser
Hétero-normativa
Mas vocês sabem do que eu gosto
Vocês sabem do que eu gosto mais





sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Hilda

Meu nome é Hilda. Não é de guerra, não há guerra. Dou-me assim desde menina. É por amor. Amor, ele mesmo. Eu gosto de ver o gozo no sorriso dos meninos, das moças. As viúvas vêm se despedir do luto comigo, eu lhes abro os braços de volta para as cores, você quer lindeza maior? Os que se acham cornos, esses são tão ressentidos, choram tanto depois, pensando macular o leito amado, mas eles sempre voltam porque precisam; e eu sei que os faço felizes. Os velhos, então. Tão delicados. Toda a gente os desacredita, só eu sei o segredo que traz o sangue deles. Quando corre forte, regozijo! Eles também podem ser vigorosos, mesmo os desaprendidos. E os loucos, tão mansinhos, gostam muito de me lamber, ficam assim quietos e suaves me vendo gemer, bastante admirados, pensando-me doida, talvez. Os iniciantes, ah, que delícia é o broto da flor! Eu vou guiando, vou dizendo, enfiando, quase choro de ver-lhes o riso da maturidade. Aos órfãos, dou as tetas, só assim pra suprir-lhes a carência, que é muito grande. Os afeminados sempre preferem o rabo, eu me rolo de rir. Às internas do colégio das freiras, faço bastantes regalias, pobrezinhas, me chegam assustadas, achando pecado, é difícil despudorá-las, desfazê-las, mas quando enfim levanto as saias, dificilmente vejo calcinha, é um alívio.
Um dia me veio um padre. Bem, com padre eu não mexo. Me ofereceu até vintém, não tinha sabido que eu não sou puta, expliquei. Pagando é na rua dos Miranda, o que eu dou é amor e nisso dinheiro não entra, o senhor não jurou seu celibato? Se jurou mal jurado, isso é lá com os seus santos. Fez-se de birra, ficou bravo, mas saiu pisando fino, do jeito que entrou. Até meio me arrependi, tanto tempo que esse pobre não vê boceta, não é? Como é que vai ver o amor? Mas logo o motivo ressaltou. É culpa grande desse padre se todo esse povo me procura. Os lascivos mesmo são poucos. Daí me gasto enormemente pra limpar a sujeira que esse padre faz. Nas rezas, nas pregações, exaltam uma virgem. Veja lá se isso é felicidade. É ele de lá fazendo prisão e eu cá me desdobrando, inventando as chaves. Mas, pensando calma, bem que eu devo um bocadinho a esse homem. Que seria da minha vocação de ajudar essa gente? Do coitado do amor, que seria?
Bom é viver com um doce pudor pra deflorar.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Senhor,

Que esta prece, restos do mais profundo impossível, não permaneça de linhas fugidias. Que a minha súplica enlace ouvido intercessor e que este santo se afeiçoe aos meus bobos padecimentos, porque são os únicos que tenho e sobre os quais posso discorrer.

Senhor, faça brotar em mim o afã dos bons humanos. Que a minha vontade não teime em ser temporária, não seja tão nuvem faceira, tão inconstante, para que a mão não canse e eu possa dizer que obtive a glória das conquistas.

Que a lágrima escorra necessária, não tão inútil, dramática em demasia, para que eu possa ver que dentro são vazias as tempestades. E que lave, que passe, que seja rara a lágrima avermelhada.Que lástima não encontre casa em meus olhos, que lamúria não apeteça minha boca. Alveja, Senhor, minha alma. Que se tornem amigos os ínvios caminhos. Permita que eu tenha morada, se outro não há.

Tira-me este pudor de escolher, tira-me esta fraqueza diante dos meus. Traga-me o doce da paz-ciência.
Que eu não me feche para a caridade, que eu guarde em mim o dom dos animais. Não atine que eu caia apavorada diante do mal, nem que eu hesite perante o niilismo, porque uma quase descrença já é sofrer de mais. Que eu resista diante do poço que a tudo consome chamado tristeza. Que o belo não seja minha pior armadilha, se até mesmo a consciência não suprime seu perigo. 
Desfaz-me das mortalhas.
Exila-me as vontades frustradas. Que eu não seja cão preso e que me atire no baile sem pressa. Que eu aconteça.
Que eu não me esqueça de contemplar tudo que é vívido e tudo que brilha.
Que ao meu lado, um anjo, também de joelhos, capture no ar as palavras que me saltam e ao afagá-las retire do sumo os balbucios ralinhos.
Vê-me? Preciso tornar-me o que sou e nunca fui. Não tão assombrada de parecer sozinha no mundo. Força. 
Em hora da vida que me resta, deixa eu acreditar que família é baluarte.

E, em hora de minha morte, deixa eu me lembrar que posso segurar suas mãos.
E por favor, Senhor, exista outra vez!
Eu preciso te orar muito mais.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Querido vampiro,


"Há três dias, afeiçoada à velhinha, não foge a mosca por entre as grades da janela."
 Dalton Trevisan

Você poderia contar-me
um cessar de solidão
Da minha
Ajude esta confusão
Diga-me!
Como ser um
sem estar só?

(pensamento)

Ou quem sabe, vampiro
Juntamo-nos depois
Podemos inventar uma solidão
Pra cabermos nós dois





quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Tô de mudança


(As mudanças interiores são bem mais lentas do que o curso dos rios e tanto mais rápidas do que nossa apreensão. Quando nos apercebemos dos seus primeiros sinais, há muito lá estão alojadas, em processo fecundatório. O tempo anda a lhes dar as mãos. E ao meio-dia de uma idade humana, creio já ser possível colher algumas delas.)

Hoje eu mudei só por respirar.

E você?
Tem casa no mundo?

Pra você

Dependurado na barra da minha saia de papel
Ele procurou pontos de seguimento
no labirinto-do-que-eu-não-disse.
Gritei, discordei.
Ele chamou "entrelinha".
- Ora! Invenção também existe.
- Mas que bobagem, Inácio!
Leite de pedra é tão amargo.

sábado, 6 de novembro de 2010

O que querem os homens



Cansei disso!
Dessa esqualidez, dessa magreza quase sem exceção, dessa abundância estratégica de carne. Mas que pulsos e calcanhares mais rebeldes! Acabarei com os dois, dias roliços me hão de chegar!
Cansei dessa hipocrisia, mãe! Quero uma robustez não condizente com meus ancestrais, quero os doces prazeres da futilidade estética.
São os homens, mãe. Os homens não desejam minha cabeça, eles não podem comer meus poemas, porque poema não se come, entendeu? Pobre de um poema diante de uma bunda.
Vou correr ao prato de feijão que você me preparou.
Que tudo o que os homens querem é a superficialidade do amor.




segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Esmorecer

Não, não pôde mais meu coração
Viver assim dilacerado
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Eu poderia morrer
Eu juro
Ouvi-la cantar assim
É já um princípio

Não que eu mate a mim
Não há cá vocação,
Mas se acaso a morte resolve
deitar seus olhos funâmbulos
- Mansos e terríveis - sobre mim
Eu me entregaria num sorriso triste

Não te orgulhes desse cantar, Elis
Trazes a morte nele enredada

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A derramar melancolia em mim
poesia em mim




Elis e Tom - Modinha:  http://www.youtube.com/watch?v=-NdnPv_frPw 

sábado, 23 de outubro de 2010

Sonhei que na minha cabeça havia crescido generosos fios alvos, eu era a copa de um ipê brilhante, exibia altiva a cabeleira de algodão a todos os meus parentes. Eu tinha rugas e os olhos capitulescos. A minha boca cerrada como que guardando o grande mistério do mundo. Eu era uma velha e andava feliz, os jovens beijavam as minhas mãos. No fim do dia eu sorria para as paredes: tenho grandes conhecimentos. Quando acordei, por sobressalto, uma enorme aflição se apossou de mim, eu era ainda um sonho, seus pedaços malucos aturdiam meus sentidos. Mas à porta de minha consciência uma fala arregalada jazia: és velha e não há riquezas, és velha e continuas falando à solidão.