domingo, 31 de março de 2013

A fibra do coração é a mesma

Os tempos são tristes
para os que buscam
a consistência dos sonhos.
É muito estranho,
sobretudo, aterrador
saber que há gente
a recusar o espetáculo
de amor
dos humanos.
Eu amo
Dois amam
E se alguns carregam os
mesmos órgãos sexuais
são poderes magníficos
da natureza diversa.
A fibra do coração
é a mesma.
Ninguém detém
o pensamento
de Deus.
É sofrimento ver
um animal se debater
contra o curso
poderoso
de um rio.
A suposta ordem natural das coisas
É uma suposta
ordem
natural.
Há sinais
- ininteligíveis para os que não ousam compreender -
de que há metamorfose
no tempo,
Quem não o acompanha
acaba por ser tragado
pela poeira das eras.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013


Doce Jurema, 

Sucedeu-me que mal completos meus primeiros dois meses cá onde estou, espatifei no sofá por puro tédio. (Sim, este sofá é a representação suprema de todo o tédio humano). Por isso recorro ao papel-e-caneta para alumbrar a minha companheira das mais torpes digressões.

Já te disse o quão desconfortável é tudo em minha casa? A mistura extraordinária do maior número de variações decorativas que uma mãe é capaz de fazer; as ondas constantes de poeira que adentram portas e janelas; a secura que racha-nos narizes e bocas e o pior (sim, o pior!): a ausência total de privacidade. Caso esquisito é que hoje, já consternada, estanquei minha rabugice por tanto apelar minha sábia mãe: “se te derem limão, faça um limoeiro”.

Atrevo-me a externar as causas de minha estadia ter-se tornado mais suportável. Como havia dito, a privacidade em minha casa é um simples mito, não existe de todo. Não há muros entre as casas e dividimos com a vizinha uma de nossas paredes, de modo que tudo que lá se passa nos é audível e vice-versa (este vice-versa é um tanto desinteressante, não?). Neste caso muito pouco inteligente da arquitetura, não há, em verdade, bisbilhoteiros legítimos. Excede-se a minha Mãe Maria (a empregada) quando estaca junto da porta lateral da cozinha. “Tá de butuca, Mãe Maria?” Ela volta a si e finge bater o bolo. É fato que a programação televisiva é deveras chata e a vizinha protagoniza verdadeiros Casos de família muito mais instigantes. No mais, estamos isentos de culpa. Temos ouvidos, ora! Se te contar a última, você nem poderá acreditar (se não fossem estes preciosos ouvidos que a terra há de degustar). A trama é cabeluda. A vizinha, de nome Marília, é separada do marido e tem duas filhas quase crianças. Carminha, que não deve ter ainda caídos todos os dentes de leite, e Jussara, a que todos chamam "a diaba", tem treze anos e dá indiscriminadamente aos guris da cidade. Sim, Jurema, não esteja boquiaberta, por estas bandas também se ouve Geni e o Zepelim. Cá entre nós, critério é fanfarrice. Imagino sua cara de "certa é ela" e as nossas gargalhadas de passarinhas bêbadas. O fato é que a mãe está a por os bofes para fora de tanta raiva de Jussara, não é que a doidinha engravidou? Quase todos os dias ouve-se a vizinha maldizer a criança e, logo em seguida, ameaçar escorraçar a filha de casa. As irmãs se uniram contra o desatino da mãe, só conversam entre si, confabulam, Carminha promete apadrinhar a sobrinha e diz que cuida, fala em fuga, Jussara-maluca pensa em tirar, diz que odeia o pai ("aquele minino zé ninguém") e quer ser sozinha, só ela e a irmã. Uma confusão!

Outro dia, chegando em casa, vejo Mãe Maria gesticulando, quase apavorada, numa conversa de porta com Jussara. A menina revirava os olhos esboçando indiferença. Mariazinha é mesmo abusada. Foi pedir (pois é, quase implorar) para que Jussara não matasse o próprio filho, ouvi coisas como “pobrezinho” e “santo Deus!”. Eu via a hora da "diaba" soltar uns bons desaforos na cara da enxerida, mas Jussara, tão avoada, só bocejava. Entrei sem palpites, seria demais. Depois de curto tempo, ela voltou lacrimosa e fui perguntar o que havia acontecido. Ela disse que a menina era sem coração de verdade, ao invés de ouvir o que aconselha o Nosso Pai, disse ao final que Mãe Maria procurasse uma boa caceta (!!!). "Jesus seja louvado!". Mãe Maria e seu olho esbugalhado. Segurei meu riso com muita destreza. Difícil, Jurema, difícil! 'De geniosa a genial: uma história de Jussara.' pode ser um título de meu livro.                                                                                                                                
Todos aqui em casa estamos apreensivos na expectativa desta novela. Correm rumores de que o pai da criança - um meninote ajudante de mercado - quer raptar Jussara para que nenhuma desgraça seja feita. No desenrolar da trama, envio-lhe novidades quaisquer. Enfim, está justificado o meu apaziguamento? Tenho material suficiente para trabalhos antropológicos. Esteja bem, querida.

Saudades,
Ellenalva.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

É um tomar osadia...


“Mas essa cidade ao menos vive, tem cor e tem barulho. Não se reduz à mornidão d’um chão vermelho e seco como o do Distrito.” Ouve-me repetir acalorada o turista insatisfeito. Aponta-me tantos defeitos e precariedades que fica difícil manter meu apelo à poesia. Mas sim – insisto – há um brilho que sobrevive e respira solene por sobre os ares fétidos da cidade. Um perfeito caos de vagamundos. Quem não conhece a beleza no contraste sequer será capaz de reconhecer plenamente a beleza na perfeição.
Confesso: não foi tão simples me acostumar. Salvador é mais afetuosa, digamos assim. É raro alguém não puxar conversa numa longa viagem de ônibus, seja por tédio ou força do hábito, um motorista que deseja bom dia e boa sorte, a baiana que te chama ‘linda meu amô’. É um “tomar osadia” constante, que não significa propriamente invasão, nem recai no clichê da hospitalidade baiana. É mais um comunicar-se espontaneamente, para além do automatismo de uma metrópole. As pessoas se encontram, e as pessoas se misturam.
 Seria talvez trabalhoso (ou ainda, perverso) fazer alguém que com nada se encantou neste lugar perceber a vida circundante que tento descrever. “Não, você não precisa me lembrar quem está fora das cordas no carnaval, quantos casarões aos pedaços, o trânsito ignóbil, a família Magalhães.” A paixão por uma terra nunca é cega. Quanto mais afeição, mais profunda a consciência, afinal estar num lugar é fazer parte dele. Tramita-se por suas veias, tem-se lúcidos todos os sentidos. E principalmente: “Não é disso que falo… Não quero um visitante consternado ao meu lado. Entenda”.
 A conversa era banhada com goles de cerveja, que, entusiasmados, esquecíamos de beber. Um amigo fastioso das minhas elucubrações e da resistência do brasiliense pergunta se queremos criar peixes. A essa altura, o fiel combatente me chamava Policarpo ao mesmo tempo em que se perguntava por que diabos a fila do acarajé parecia não sair do lugar, eu retruquei indagando se acaso ele já havia provado o acarajé da falecida Dinha. “Essa agora é realmente instigante, uma defunta baiana ou uma baiana defunta?” “Ora, digo, pois, que o amigo não perca a oportunidade de comer um acarajé feito nos céus”.
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Crônica produzida especialmente para Torcicolo do caboclo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Exercícios Pérfidos II - O melindroso

Depois que descobri, pensei na cólera e no silêncio. A cólera é uma loucura breve, então não precisei desperdiçar minha poesia. Decidi não escrever. Passei muito tempo sem compreender porque não conseguia gostar das gaivotas, das âncoras, mas percebi que é tudo muito ruim mesmo. Literatura ruim esfria meu café. Prefiro me ocupar de pintar as unhas. Não tenho problemas. Não carrego um mundo incomunicável e fora dos limites da "normalidade". Meu mundo sou eu. Então pensei no silêncio. Como o tenho saturado! Como é difícil arrancar de meus ossos as verdades que deveriam ser ditas. Ora. Elas deveriam ser ditas? E acaso toda verdade necessita de um propósito? Fato é que não se trata de destilação de veneno. Meu coração apodrece, é simples. Há uma sujidade difícil de ser lavada, preferiria pintar as unhas, mas preciso continuar.
Saulo, preciso te contar uma coisa, uma anunciação a toda a gente (porque é mais perverso ainda saber sozinha). Não há docilidade nenhuma, sim sim, vamos beber absinto, a vida é nada. Não, vamos ficar em casa e rir à toa, já passou, podemos escrever nosso livro sozinhos. Em verdade vos digo, você e essas amoras, a contradição é bem mais embaixo. Não esteja pasmado, é muito mais coerente uma vileza que é mais vileza e menos afabilidade. Há um nítido melindre, você reparou? Podemos chamá-lo de senhor melindroso, além de muitas outras coisas. Um melindre tempestuOso, hiperbÓlico. Há uma agressividade animalesca. Preconceitos terríveis, carnudos, entranhados. A mim, foram absolutamente aniquiladores (eu era gente cega, Saulo, acalma-te). Agora preciso usar palavras que não gosto (isso é tão custoso), mas não encontrei equivalência que bastasse: há hipocrisia e falsidade. Gentileza? Em que parte? Há uma fuga da verdade do corpo que irrita desoladoramente. Há uma infinidade de desenganos que deixam-nos doentes. É preferível pintar as unhas, já disse. Tudo bem, falemos de José. Mas como é possível? Ainda me deparo meio estarrecida com esse como é possível, entende? Então vamos limpar o coração. Camomila, aspargo, doce de caju e chocolate. Escolhi o azul, você gostou?
Depois que descobri, estive doida, porque não há nada aqui que seja feito de ferro. Não tenho vergonha de sentir e dizê-lo. Mas meu mundo estará são dentro de duas semanas, então não precisei desperdiçar meus poemas. Amores nunca serão desperdiçáveis. E as minhas unhas ficaram tão lindas!

domingo, 9 de dezembro de 2012

Exercícios pérfidos I

Estivemos equivocados.
Pouse a destra ampla no dorso
destes animais
E ponha-os calmos.
Dê fim a este endoidecimento.

Uma fonte luminosa
é luz e água,
é água e luz
apenas.
Uma metáfora
é uma metáfora
E não acalanto.

Mitigue esta dor
que nem é força.

A vida é um pouco péssima
E todos nós sabíamos disto


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(III/12)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Carta à Joana

Joana tem razão. Sou paralisada diante de muito pouco, o que há no lugar do estômago não é senão uma pomba. Minha perplexidade é humilde. E essa mania sem ordem e origem de rir-se de todas as coisas. Porque rio eu de todas as coisas? Há um mundo doente e, como débil, rio-me de todas as coisas. Uma parvoíce sem quês, um modo muito besta de não mandar ninguém se foder. A melancolia congênita de quem espera passivamente as fatias do tempo desordenarem-se. Permaneço e não vivo. Sei que muito em breve eles irão apalpar minhas assombrosas tetas e realizar minúcias nos meus olhos míopes. Como fugir? Compreendes? Como desvencilhar-me das palavras bonitas? As palavras bonitas são tudo o que há no mundo. Cinco anos! Cinco anos para perceber mais que uma frase de tua carta. Ainda assim ela é mais bela que triste. Ainda assim eu sou mais bela que triste. Cinco anos para que eu te alcançasse um único verbo. Muitas listas foram necessárias.
Estou ainda num tempo recluso, tu sabes, a matéria não pode sangrar. Não tenho ideia de quantas diabruras ainda me aguardam até que se forme o invólucro. Sinto medo dessa letargia, dessas vísceras ingênuas porque diabólicas. Preciso contar-te, em muito orgulho, as minhas primeiras grosserias, quero dizer, os primeiros atos que podem ser considerados rudes (olhe o contexto!). Quero também acrescentar a palavra 'puta' àquela lista que começa com 'deflorar'.
Joana tem razão. Nunca partilharemos o mesmo universo. Nunca pude dizer adeus ao trema sem usar de cerimônias. Há talvez uma paixão pela mitologia, o apego às metáforas e a filiação acadêmica que possam nos unir. De resto, Joana é a bruta flor trepada aos portais que pode ver as maldades muito além do que meu olho suporta. O que sou? Ainda não frutificou-se a toleima que consiste nesta carta para que lhe possa dizer. Ou talvez, Juju, sejas ainda mais arrazoada, talvez eu seja o próprio rasgo na face de Deus.

domingo, 25 de novembro de 2012

M.

Éramos puros,
éramos limpos
de apuros,
despudorados
límpidos.
Éramos fáceis,
retos e obscenos,
tecidos de claros nós
que nunca se perderam.

Éramos ricos
líricos destemidos,
perfeitos impudicos
Dançávamos...
Gastamos as solas,
o sal das lágrimas,
os pulmões, o fígado
Éramos lépidos,
hoje sofridos
tu estás desenganado
eu, mar de martírio.
Nos olhos lascivos
- porque 'inda é chama -
a triste certeza
de que sou o teu vício.

Então, amor, perceba
É o fim do mundo que se aproxima de nós
Procuro tua boca sanguínea
em todas as bocas deste escuro
circunstancial
Temo ansiar-te através do futuro
e morrer sedenta obcecada
Teu beijo é um eterno.
Nosso amor é saudade.

Lembra?


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Mañana

Preciso daquela paz
que não tenho tido
pra te ler, Neruda.
Um quarto róseo azul violáceo
em que minhas rosas não cresçam
desesperadas.
Trago retinas aborrecidas
de apenas tocar
o som de tuas rimas.

Atrapalham-me
meus laços,
matricídios mal propagados.
A mãe lança-se
nas minhas pálpebras
com seu peso de mil grilhões.

Uma corola ruborosa
floresceu no meu umbigo.
As minhas cólicas - suas raízes -
deram-me olhos desleais.

Não posso ler-te.
Perdoe o agravo.

Matilde continua
pão, trigo e lua,
mesmo que eu
não a possa celebrar.

É a minha viagem,
esta transição solitária
de crescer para além do verso.
A falta de afã, a vertigem, a fé
os amores esmorecidos...

Preciso daquela paz
em que eu possa ouvir
os anjos.
Então, dar-te-ei teu sentido.
Teu louvor será maior
que uma plácida campina.

Aguardemos o outono desta rosa sangrenta.
Em segredo, teceremos sonetos matinais
de pura e opaca substância...


sábado, 3 de novembro de 2012

O tempo de amar tem seus findares

Para Taís Soares

Então é isso. Um outro tipo de canção começa a fazer sentido. E todas tocarão no instante mesmo em que pudermos ouvir. Tento confortar o coração de Tai, tão ou mais quebrantado quanto o meu, but everybody knows that a broken heart is blind.
Então você começa a estipular teorias felizes porque no final as coisas vão. Você ainda respira sobre um calor ameno, o que é míngua se derreteu. Você está nova e nua. Há um sopro de ventura pelo caminho. Amar nunca será o erro.
E começa a pensar nas nuances da natureza. Porque você encerrara-se em ditos inaudíveis, mas não! A alma cura-se. O rio estanca. Nem as pedras são eternas. É lícito isso de ir-se desencantando. É livrarmo-nos do resquício. Só se vive inteiro. Preciso ainda fazê-la lembrar as obviedades: seu coração é liberto e tem substância.
Tai ainda me ouve saturar os sentidos, duas inebriadas hiperbólicas que somos. Amor só voa voo alto. Uma parte é cair.
Repito amores futuros. Isso me comeu algumas horas de pensamento. Numa esquina de livraria a gente de repente encontra-reconhece o Será que sempre foi, ou talvez o Deveria-ter-sido. E se não encontrar, ma chérie, não é mistério. Mas, por favor, não se esqueça do valor da intensidade de seus gritos. Nunca se arrepender, faço mantra se quiser. O colorido está em você. Posso vê-lo claramente.
Preciso assumir que um dia cogitei essa já constatada epifania: porque será que ninguém olhou os próprios dedos e se perguntou porque há tanto espaço entre eles? Iremos à praia. Apenas um punhado de areia na sua mão. E então, se você insistir em mantê-la, os grãos vão começar a ferir, as mágoas na pele ignoram qualquer força, a areia um dia escorre. Por entre cada um dos nossos dedos uma mácula de alívio. Fomos criados para o cíclico dos verbos. Pense nas suas mãos como dois pássaros. Se você fechar o olho, então a dança, a pureza, a menina, tudo nasce, como antes. Você pode abrir as suas mãos, Tai! Será um voo livre e perfeitamente inaudito (sim) para onde ainda há encanto.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Quantas coisas foram feitas para não ser compreendidas?

Meu coração roxo.

pingando, pingando,

arfante, cansado.

Se esvai o cheiro
de madrigal.

Um coração tão cheio
de quietude

murmura alguma dor,

um desespero
de será.

Onde o sol das onze horas?

Onde as conchas?

Onde Deus?

Porque não partiu meu cordão umbilical?

Não há dormir,

não há dançar,

orar não pode,

cantar jamais.

A veia lúgubre do desterro arroxeou meu coração.