Ser sempre gentil com todas as pessoas não significa ter nos eixos o senso do correto. Gentileza é, antes de tudo, um recurso de boa convivência, o gentil pode ser o bondoso como pode ser o pérfido à procura de atingir seus fins. A simpatia e a gentileza são graças se assim forem gestos sem meios, sem culpa, sem finalidades ocultas. Seja gentil diante do possível.
A caridade não necessita alimentar-se a partir de vínculo profundo com a religião.
Ter a verdade como impulsionador, não como objeto de domínio. A verdade não pertence. De cada uma de suas frestas espia um par de olhos, há 7 bilhões de frestas conhecíveis na casa da verdade.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Para que eu possa verdadeiramente escrever
devo imaginar tudo diluir-se pelo universo
toda a poesia desprendida do útero
sem chance de retornar
a ir-se
Os olhos comedores de tudo
em cima dos meus escritos
revirando as esquinas do meu corpo
Porque escrever já é mais que estar
simplesmente despida
Escrever é como ser puta.
devo imaginar tudo diluir-se pelo universo
toda a poesia desprendida do útero
sem chance de retornar
a ir-se
Os olhos comedores de tudo
em cima dos meus escritos
revirando as esquinas do meu corpo
Porque escrever já é mais que estar
simplesmente despida
Escrever é como ser puta.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
O amor não é temeroso
Mas há noites em que estremeço.
Tampouco duvida, se acaso fizer-se escuro
um dia muito claro
Mas eu sou um barco que só transporta perguntas
O que me põe comovida não é o amor
de que sinto
talvez uma parcela.
É a minha humanidade
Estas pequenas e enormes incapacidades
de sentir sem pensar.
O paraíso não é deste mundo.
Mas há noites em que estremeço.
Tampouco duvida, se acaso fizer-se escuro
um dia muito claro
Mas eu sou um barco que só transporta perguntas
O que me põe comovida não é o amor
de que sinto
talvez uma parcela.
É a minha humanidade
Estas pequenas e enormes incapacidades
de sentir sem pensar.
O paraíso não é deste mundo.
sábado, 5 de dezembro de 2015
2+2= cinco
Já não há mais
paciência, falta, sentimento,
coisa alguma
Andamos os amigos apartados,
cansados de ver, tocar, unir,
através dos destroços de corpos pretos
e rios de sangue grossos mas invisíveis.
O meu irmão que foi embora e nunca mais retornará...
Não sinto medo, nem raiva,
a revolta partiu-se em quatrocentos pedaços de alma
Não sinto nada.
Quero fazer um poema escuro como a ausência
para não ver as crianças dependuradas,
os camburões que passam apinhados,
o percurso de cento e onze balas
estilhaçarem uma carne barata
O pensamento tomba como duas mil correntes
sobre o corpo que já não pode aquietar-se
Cada grito descomedido que ecoa
na padaria, no táxi, na fila, nas redes, nas casas
produz um reduto fascista.
Num mundo fascista, as coisas desacontecem.
Tiram-nos a morte das mãos
A morte e a violência não são assuntos para a nossa civilidade
São ditames para o poder, são armas exclusivas para o estado.
A quem, por injúria ou desatino, anda de olhos escancarados
não resta sequer a dormência, a inércia, a pausa.
paciência, falta, sentimento,
coisa alguma
Andamos os amigos apartados,
cansados de ver, tocar, unir,
através dos destroços de corpos pretos
e rios de sangue grossos mas invisíveis.
O meu irmão que foi embora e nunca mais retornará...
Não sinto medo, nem raiva,
a revolta partiu-se em quatrocentos pedaços de alma
Não sinto nada.
Quero fazer um poema escuro como a ausência
para não ver as crianças dependuradas,
os camburões que passam apinhados,
o percurso de cento e onze balas
estilhaçarem uma carne barata
O pensamento tomba como duas mil correntes
sobre o corpo que já não pode aquietar-se
Cada grito descomedido que ecoa
na padaria, no táxi, na fila, nas redes, nas casas
produz um reduto fascista.
Num mundo fascista, as coisas desacontecem.
Tiram-nos a morte das mãos
A morte e a violência não são assuntos para a nossa civilidade
São ditames para o poder, são armas exclusivas para o estado.
A quem, por injúria ou desatino, anda de olhos escancarados
não resta sequer a dormência, a inércia, a pausa.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Há uma criança na beira da praia
que não me deixa dormir
tem os olhinhos embotados de areia,
o pulmão cheio de água e esperanças devassadas
tem a boca pequena desbotada
e carrega um horror
feito de muitos horrores
ainda assombrados
Viro de um lado a outro
e lá está seu corpinho inerte
engolindo a espuma dos meus lençóis
Fecho os olhos com força
e ela está sem esforço
presa ao lado de dentro das pálpebras
Olho o teto vazio
ele está cheio de crianças afogadas
Busco a janela para a rua
em cada poça há um Aylan
de ombrinhos curvados na superfície
Há uma criança prostrada no meio do nosso sono
revestida de sal, vergonha e culpa
Vejo-a erguer os bracinhos miúdos
pedindo abrigo
Mal entendo seu dizer
e nem quero entendê-lo
Calma, anjinho, já volto
Viro-me para sequer um adeus
Mas as minhas pernas tornaram-se areia
Deixo a criança morrer na praia
Acordo
Mas o desejo é de dormir para sempre.
que não me deixa dormir
tem os olhinhos embotados de areia,
o pulmão cheio de água e esperanças devassadas
tem a boca pequena desbotada
e carrega um horror
feito de muitos horrores
ainda assombrados
Viro de um lado a outro
e lá está seu corpinho inerte
engolindo a espuma dos meus lençóis
Fecho os olhos com força
e ela está sem esforço
presa ao lado de dentro das pálpebras
Olho o teto vazio
ele está cheio de crianças afogadas
Busco a janela para a rua
em cada poça há um Aylan
de ombrinhos curvados na superfície
Há uma criança prostrada no meio do nosso sono
revestida de sal, vergonha e culpa
Vejo-a erguer os bracinhos miúdos
pedindo abrigo
Mal entendo seu dizer
e nem quero entendê-lo
Calma, anjinho, já volto
Viro-me para sequer um adeus
Mas as minhas pernas tornaram-se areia
Deixo a criança morrer na praia
Acordo
Mas o desejo é de dormir para sempre.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Pego o coração com a mão
Há dias em que
pego o coração com a mão
e ele está quase sumindo
Basta que sejam as flores pequenininhas
arrumadas muito singelas
no bolso do terno de algum velhinho
cujas rugas adornam dois cristais ainda ingênuos
Basta que seja a vontade
de uma moça fotógrafa
de olhar novamente para um animal
no caminho do sacrifício
e afagá-lo pela última vez
Basta que seja uma noiva recém abandonada
posta no meio da praça
a catar pedrinhas sem nenhuma importância
e um suspiro de alívio nos lábios
Basta que seja uma canção
que dizemos divina
por faltar palavras bastantes
ecoar de um lugar tão distante
como a própria imaginação
Ou mesmo a luta entre um peixe e um homem
que tem todos os dedos cortados de anzol
e fome
Basta ainda que seja uma criança nascendo
por entre espumas e pétalas de rosas
a olhar, através da água,
o mundo pela primeira vez
Ou - muito menos -
a chuva brilhando um arco-íris
através da luz do dia
Examino com delicadeza
um coração cansado de comover-se
lavo-lhe as mágoas
no rio que corre em nossa casa
Amanhã, outra fibra irá se despetalar
pego o coração com a mão
e ele está quase sumindo
Basta que sejam as flores pequenininhas
arrumadas muito singelas
no bolso do terno de algum velhinho
cujas rugas adornam dois cristais ainda ingênuos
Basta que seja a vontade
de uma moça fotógrafa
de olhar novamente para um animal
no caminho do sacrifício
e afagá-lo pela última vez
Basta que seja uma noiva recém abandonada
posta no meio da praça
a catar pedrinhas sem nenhuma importância
e um suspiro de alívio nos lábios
Basta que seja uma canção
que dizemos divina
por faltar palavras bastantes
ecoar de um lugar tão distante
como a própria imaginação
Ou mesmo a luta entre um peixe e um homem
que tem todos os dedos cortados de anzol
e fome
Basta ainda que seja uma criança nascendo
por entre espumas e pétalas de rosas
a olhar, através da água,
o mundo pela primeira vez
Ou - muito menos -
a chuva brilhando um arco-íris
através da luz do dia
Examino com delicadeza
um coração cansado de comover-se
lavo-lhe as mágoas
no rio que corre em nossa casa
Amanhã, outra fibra irá se despetalar
sábado, 22 de agosto de 2015
Agosto de deus
Todo dia
e não se vê
morre um poema dentro da gente
Cai uma gota para
o pôr-do-sol
É cedo para a morte
porém.
Todo dia
e não se vê
Morre o poema como o sol fenece
Coisa mais besta e triste
é andar por aí cheio de ternura
e quando no papel
vai algo como a chuva e
se sabe,
papel não se pode com água.
Poema, eu te desisto.
E então ele dexiste
Fim
e não se vê
morre um poema dentro da gente
Cai uma gota para
o pôr-do-sol
É cedo para a morte
porém.
Todo dia
e não se vê
Morre o poema como o sol fenece
Coisa mais besta e triste
é andar por aí cheio de ternura
e quando no papel
vai algo como a chuva e
se sabe,
papel não se pode com água.
Poema, eu te desisto.
E então ele dexiste
Fim
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Elogio da tristeza
"Ajusto-me a mim, não ao mundo."
Anaïs Nin
Quero chorar
Exijo o direito de chorar incessantemente
Como quem percebe estar para sempre desalinhado
Chorar até que sulcos profundos
marquem a pele de meu rosto
Que eu possa exibir orgulhosa
os estigmas de quem
não desistiu de ser triste
Quero chorar com os olhos sangrados
porque o mundo é um desgraçado
e eu também
Exijo o direito de ser irrecuperável
Posso encher a casa de espelhos
A melancolia receberá sua devida contemplação
Posso quebrar todos os relógios
para suspirar fora dos minutos
A tua razão é falsa
e cheia de egoísmo
Não tentes interromper a valsa
que teus ouvidos não alcançam
A minha dor tem a exuberância
da luz sombria que se desprende do luar
A minha dor dá-me poemas poderosos
A minha dor humilha a tua alegria
Deixa-me só
nos cantos da casa
A minha dor me basta
Quero chorar o insuportável
Deixa-me
Anaïs Nin
Quero chorar
Exijo o direito de chorar incessantemente
Como quem percebe estar para sempre desalinhado
Chorar até que sulcos profundos
marquem a pele de meu rosto
Que eu possa exibir orgulhosa
os estigmas de quem
não desistiu de ser triste
Quero chorar com os olhos sangrados
porque o mundo é um desgraçado
e eu também
Exijo o direito de ser irrecuperável
Posso encher a casa de espelhos
A melancolia receberá sua devida contemplação
Posso quebrar todos os relógios
para suspirar fora dos minutos
A tua razão é falsa
e cheia de egoísmo
Não tentes interromper a valsa
que teus ouvidos não alcançam
A minha dor tem a exuberância
da luz sombria que se desprende do luar
A minha dor dá-me poemas poderosos
A minha dor humilha a tua alegria
Deixa-me só
nos cantos da casa
A minha dor me basta
Quero chorar o insuportável
Deixa-me
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Pouso meus olhos doentes no mundo
(o mundo hoje é muito depois das mariposas)
e parece-me que as graças estão todas convalescentes.
Meu pai acha meu olhar com loucuras
de quem mal adentrou uma vida de verdade
Contudo, o imprescindível é não estar ajustado.
Pouso meus olhos fatigados de notícias que não o são
na imensa devastação que já se fez,
sinto nojo de caminhar entre homens
a perceber que são carne de minha carne.
Havia um deus delirioso que se deixou emprenhar
e assim viemos.
Dai aos trabalhadores os louros
por desperdiçar suas vidas
como escravos assalariados
(Uma bota pressiona vossos pescoços para sempre contra um muro, é visto!).
Aninhai as crianças famintas
que neste momento sonham
com bonecas de pão de mel.
Mas!
Parai agora tudo que esteja acontecendo.
Há um caso a mais para se destacar.
Num espetáculo de bombas de gás lacrimogêneo,
vosso frágil sonho sangra deitado no asfalto,
Uns senhores de muito poder
(tanto que não é-lhes possível enxergar as próprias mãos)
falam coisas estapafúrdias na tv,
à noite riem, de dentes escancarados,
afundando, em seguida, suas enormes cabeças
em travesseiros macios.
Volto meus olhos sem procedentes de cura
para um mundo ainda mais difícil.
Basta-me muito pouco para pensar
que, em breve, seremos apenas
um ferimento bastante suave
no dorso maculado do universo.
(o mundo hoje é muito depois das mariposas)
e parece-me que as graças estão todas convalescentes.
Meu pai acha meu olhar com loucuras
de quem mal adentrou uma vida de verdade
Contudo, o imprescindível é não estar ajustado.
Pouso meus olhos fatigados de notícias que não o são
na imensa devastação que já se fez,
sinto nojo de caminhar entre homens
a perceber que são carne de minha carne.
Havia um deus delirioso que se deixou emprenhar
e assim viemos.
Dai aos trabalhadores os louros
por desperdiçar suas vidas
como escravos assalariados
(Uma bota pressiona vossos pescoços para sempre contra um muro, é visto!).
Aninhai as crianças famintas
que neste momento sonham
com bonecas de pão de mel.
Mas!
Parai agora tudo que esteja acontecendo.
Há um caso a mais para se destacar.
Num espetáculo de bombas de gás lacrimogêneo,
vosso frágil sonho sangra deitado no asfalto,
Uns senhores de muito poder
(tanto que não é-lhes possível enxergar as próprias mãos)
falam coisas estapafúrdias na tv,
à noite riem, de dentes escancarados,
afundando, em seguida, suas enormes cabeças
em travesseiros macios.
Volto meus olhos sem procedentes de cura
para um mundo ainda mais difícil.
Basta-me muito pouco para pensar
que, em breve, seremos apenas
um ferimento bastante suave
no dorso maculado do universo.
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