terça-feira, 17 de maio de 2022

Se eu digo, entenda,

Eu sou

Se faço minha voz atravessar o ar,

Está posto.


Meu desejo 

Sou eu

O meu gosto

Sou eu

O que toco

O que vejo

O que sinto

O que falo

Sou eu 

As minhas mãos, as minhas pernas, os meus olhos, os meus cabelos, o meu cheiro, o meu sangue

Minha percepção

Meu juízo

Meu acontecer no mundo


Ninguém ditará meu percurso 


Não queira me tirar de mim 

Eu sou minha

domingo, 20 de março de 2022

Queimar todas as referências ao amor romântico

Banir dos livros, dos filmes

Criar outros livros e filmes

Queimar a monogamia

Deixá-la arder

Queimar o patriarcado

Queimar a cultura

Nenhum deus

nenhum falso amor

nenhum lar

Nada deve resplandecer no centro da clareira

Apenas você

Você

Soberana

Você

Com os pés fincados nas pedras

Contra a correnteza 


Deve crescer 

A chama que a tudo consome

Crescer

Ruir muros, levar destroços 

para, então, reflorestar 

quinta-feira, 17 de março de 2022

 O verdadeiro poder é

não ter poder em nenhuma relação

Afastar o poder

Matar o poder com as unhas

Deixar o poder sangrar

Eu não posso com você

Você não pode comigo

Poder é posse

e nós somos potência

domingo, 13 de março de 2022

Agora 

que não há nenhum homem

roubando-me espaços da alma

Sinto-me como se grávida

Suculenta de vida

a molhar toda a casa


Onde quer que me deite

deixo uma água cálida

Meus lençóis,

oceanos de leite,

À noite sou toda imersa




quarta-feira, 9 de março de 2022

Quando você decidir se erguer e caminhar de volta para si

Quando você lentamente mover o corpo e dançar seu desejo em meio à chuva

Quando você escolher retomar a vida, o ar e o amanhecer

Eles dirão louca, puta, bêbada, escória,

Como ousa?

E eu responderei

Eu sou a porra de um guepardo

Eu sou indomável


Umas mãos pesadas, masculinas,

Repousam-lhe nas pernas

A boca que roça a orelha, concluo,

é também de seu pai

Num bar qualquer, à meia-noite

Uma criança, no colo, 

talvez nove anos

Sentada, em família


Dedos grossos alisam suas coxas

Como o mais natural dos gestos

E ninguém percebe este escândalo


Amavelmente, este homem de cabelos brancos

Há poucos metros

Ensina à sua pequena

O que é o corpo da mulher no mundo

Uma propriedade para ser

Sutilmente devassada

Como bem quer o homem

Mesmo que pai

E eu, apenas eu, não evito olhar 

Por que sei, com meus olhos de fogo,

Que este homem de cabelos brancos

Tem que queimar


quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Rapunzel

Preciso ficar com você

E meus olhos teimam em fechar-se.

Dormi enquanto contava

Que a bruxa roubou um bebê

Não sabia que era possível

Dormir e falar ao mesmo tempo

Preciso ficar com você

Porque tantas vezes sou a única.

Procuro qualquer alternativa

que me ajude a ser menos pior

Preciso ficar com você

E permanecer boa o suficiente

É impossível

Preciso dormir e estou de pé

Jogando tranças de Rapunzel

Presa na torre 

Presa na torre

Presa na torre

Não consigo ser quem sou

Quando estou tão exausta

De compensar a ausência

Até o menor dos gestos

Toma-me as energias

Estou fraca

Ninguém virá me salvar

Que ideia cruel e estúpida

É preciso nomear

E não esquecer

O patriarcado

É a máquina de moer

As nossas almas





sexta-feira, 23 de julho de 2021

Indomável

Tenho a boca seca de terra aberta para o grito
Sou o animal ferido na floresta
A morte invade minhas pelejas
Seja no salto ou no risco
Seja no desejo de salvar o mundo
Sem antes salvar a mim mesma

A morte dançou comigo
Quando pari um sol pelas pernas
Abri-me feito vulcão
Enlouqueci para sempre
Fugi e voltei

Sou mãe
Tenho o poder de deus
E recrio, em casa, um milhão de universos

Sou profeta
Anuncio o dilúvio
Ensino e partilho
Um pão feito de lua

Sou poeta
Meu olhar transforma o horizonte
Choro condoída
E danço no fogo

Sou sexo
Desenho com sombras
Mergulho no lago
E nado com os monstros

Mas paraliso
Constantemente
Diante do portal em chamas

Sou um leão de circo
Desprendido de sua natureza

Quem sou eu?
Eu sou eu?
Eu preciso ser eu
Eu preciso ser minha
Eu preciso ser só
Eu sou
Eu decido ser

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Tenho pensado no que tenho feito dos poemas que sei
Será que as crianças criarão ojeriza
Como já elas próprias têm
desta mesma palavra que
propositadamente colhi
das mangas da camisa?

Tenho receio de
na ânsia de fazer vingar
Flores ultra vermelhas
nos cactos ontem nascidos
Deixar que eles só vejam pedra
onde há pedra
E só


domingo, 9 de maio de 2021

Que toda vez que meu peito sangrar 

eu me lembre que amor é cura

Que o perdão venha livre de resignação

Que não seja submisso

Que não seja aniquilador

Que toda vez que minha raiva crescer

Eu me lembre da primeira casa que habitei

Uma casa de águas cálidas

Onde me nutri de proteção

Se hoje posso me desdobrar 

Foi por ter recebido nas mãos

Estas pérolas