quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Condição
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Eles
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
São João
Os dias são fotos e gavetas
mãos dadas, pés pequenos
alegria derretida
resumida a botas pretas
Restam as fitas amareladas
Meus pares menores não os tenho
[Sou ímpar]
Os joelhos me saltam das saias festivas
Os rostos recusam as pintas roubadas
Melinda

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quinta-feira, 16 de julho de 2009
"A Quo"
Não sublimes o corpo
este atado de boas ligações
jungido de coisas diminutas
Não inflames o corpo
Afrodisíaco Apolíneo
É breve
Encapuza coisas mais
Não vanglories o corpo
No rosto toda a alma se perfaz
As portas de pedra castanha são luz
No rosto há tudo
Tua graça e tua mesquinhez
Tua lágrima e teu nada
Teu bonito tua bruma teu riso
Mas teu corpo
Uma chama tremelica
Um sopro desespírito
mormente corpo vivaz
Que não diz
Somente corpo
Apenasmente corpo
Não lhe traduz
Exposto
Muito pior
Finge
Revelados pormenores
Que cortesia terás?
Imagem: Audrey Tautou
segunda-feira, 6 de julho de 2009
O Poema ficou Pequeno pra você

O poema ficou pequeno pra você, meu bem.
Nós fazemos em chãos de madeira e redes bem trançadas, pra contar - As mãos brancas com todas as regalias e a dissolução de todas as nossas cores não dão conta. Exigem-me pausas, preciso afastar-me e conter. E dizer fazer - é fazer que se pode? Fazemos? Agimos?
Sua língua exasperada em pêlos de negrume perfumoso. A reação caudalosa com a baba. Escorrer persistente de gozo estarrecido. Derramar nossos pedaços pra recolhermos tão vivamente renascidos. Fizemos?
Todos os fluidos nos foram purificados...
Ou palavra suave, ou palavra sem alma, não serve, você as esmaga, meu bem, não vê? Organizem orquestras, lambuzem maçãs, modelem os metais, nada susta, pois estas ramificações estão bem nutridas e não decifram sintonias em receitas baratas.
Que há a dizer, meu bem? Dizer que há nada traduzível. Que tudo foi escrito pobremente manchando nosso nó de dedicatórias inferiores. Estes signos que sujam as digitais dos seus pés, amor, lavemo-nos!
O nosso riso figura a metonímia do todo desconhecido e inatingível (por vezes exilado). Tão simples, tão simples, entregar-se, desfazer-se, não fingir, não finjas, vos fale! Não deixem trancafiados os teus gemidos!
Reais em demasia, não choram, não se deleitam. Tão pequenos, meu bem, e logo nós, grandiosos, infundados, malucos, sem medo. Sementes douradas espreitam-nos em dimensões futuras. Somos plenos. [lindos e pretensiosos]
Aperta-me mais, amor! Aperta-me até nossos ossos se tocarem. Segura-me! Deixa a dor fragmentar-se. Seremos livres. Multiplicaremo-nos.
Sento-me em minutos travestidos de séculos terríveis. Queixo-me dos seus exageros, mordendo a carne dos beiços ansiosos por pura e obviamente ter amor, "reprofundo", misterioso, egoísta... seu.
Que não há outra vida, não há outra razão, houveram-se ignoradas.
Tecemo-nos em fios inquebráveis...
E seremos livres, amor, multiplicaremo-nos, dançantes e leves como plumas rosáceas...
Imagem: O Beijo (Klimt)
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Fabular

"O homem é um animal reincidente no erro, e que se nutre de metáforas"
Murilo Mendes - A Idade do Serrote
Cortarei os fios da vaidade
Para o plantio de hibiscos
Cultivar-los-ei pernoitemente
E quando florescerem
Terei todos os homens do mundo
Pois a beleza salvará o mundo
O belo, o bem
Salvarão o mundo
Os brotos de begônia cristalizados
Erguerão elefantes
E terei todos
Serei tudo
Pois a beleza salvará o mundo
Terei-lhes por debaixo
De meus cabelos de narciso
Terei todos os homens do mundo
Altivos, sedosos
Meu cesto de hibiscos
Arrastarei por sobre a terra
Pois a beleza salvará o mundo
O belo, o bem
Salvarão o mundo
Pueril ou etérea
Ou crédula e parva
Mastigarei todo verde
Enormes vezes por segundo
A seiva de minhas folhas
Prolificará urzes benfazejas
Pois a beleza salvará o mundo
O belo, o bem
Salvarão o mundo
E açoitada ou estéril ou cega
Rasgarei em meus lábios
Sorrisos encarnados
Pois a beleza salvará o mundo
Cometerei vastos poemas
Desposarei todos os amantes
Terei cansados os meus anelares
Abandonarei pegadas profundas
Repousarei em campos diáfanos
E pelas metáforas e fábulas
Salvarei todos os homens do mundo
domingo, 7 de junho de 2009
Virgens Corolas

Graciosa, tu vinhas
Tu chegavas amanhecida
Teu vestido cor-de-laranja
Tua pele crispada e florida
Harmoniosa, tu vinhas
Teu peito vermelho elevado
Continha-se num abraço
Num bálsamo
E ofegavas por entre as mordidas
Deitavas-te lânguida, serena
De corpo em penugem suada
Chamava-me tua nudez vestida
Teu ardor de virgindade anunciada
Cálida, tu vinhas
Com teus pelos cor-de-verão
Dilacerar as fibras d’alma minha
Desvanecer-me em amplidão
Morna, tu vinhas
Semente suave sobre meu rosto
Clamando-me pausas arrependidas
Ao deflorar os botões de teu dorso
Estremecida ficavas
As saias derramavam-se perdidas
Sussurravas quereres tão torpes
E relutavas com pernas indecisas
Mas tão distante mergulhavas
Que o querer mais alto gritava
E te descompunha o rasgo dos lábios
E ouviam-se pedidos ávidos
Então, de pungente, calavas
Apertavam-me tuas mãos pequeninas
E num espasmo assustado ficavas
Saboreando os quereres ainda
E cerravas os olhos molhados
Ao cessar teu mar de lamúrias
És, agora, um ninho umedecido
De corolas derretidas e púrpuras
Tema: Palavras quentes
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Pêssego
Me chame Buendía
De pulcra boca adocicada
Tenho lábios úmidos d'um cítrico luzidio
E dentes encharcados de macia frutose
Rasgo os gomos suaves de teu pomo alaranjado
Os folículos de minha língua de sede regozijam
E o veludo líquido transborda pelas clavículas...
P.s.: Aula de Criação Literária. Tema: Café da manhã
Imagem: (Dante Gabriel Rossetti)
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Pérolas Frias
a cobrir-me as faces
Este invólucro não derretido
a roubar-me o real.
Aqueço-me de alma e de corpo
e vejo caídas as pérolas frias.
Bordo com fios estreitos
a burca que pende aos cílios
E vejo-me astigmata outra vez

