Que esta prece, restos do mais profundo impossível, não permaneça de linhas fugidias. Que a minha súplica enlace ouvido intercessor e que este santo se afeiçoe aos meus bobos padecimentos, porque são os únicos que tenho e sobre os quais posso discorrer.
Senhor, faça brotar em mim o afã dos bons humanos. Que a minha vontade não teime em ser temporária, não seja tão nuvem faceira, tão inconstante, para que a mão não canse e eu possa dizer que obtive a glória das conquistas.
Que a lágrima escorra necessária, não tão inútil, dramática em demasia, para que eu possa ver que dentro são vazias as tempestades. E que lave, que passe, que seja rara a lágrima avermelhada.Que lástima não encontre casa em meus olhos, que lamúria não apeteça minha boca. Alveja, Senhor, minha alma. Que se tornem amigos os ínvios caminhos. Permita que eu tenha morada, se outro não há.
Tira-me este pudor de escolher, tira-me esta fraqueza diante dos meus. Traga-me o doce da paz-ciência.
Que eu não me feche para a caridade, que eu guarde em mim o dom dos animais. Não atine que eu caia apavorada diante do mal, nem que eu hesite perante o niilismo, porque uma quase descrença já é sofrer de mais. Que eu resista diante do poço que a tudo consome chamado tristeza. Que o belo não seja minha pior armadilha, se até mesmo a consciência não suprime seu perigo.
Desfaz-me das mortalhas.
Exila-me as vontades frustradas. Que eu não seja cão preso e que me atire no baile sem pressa. Que eu aconteça.
Que eu não me esqueça de contemplar tudo que é vívido e tudo que brilha.
Que ao meu lado, um anjo, também de joelhos, capture no ar as palavras que me saltam e ao afagá-las retire do sumo os balbucios ralinhos.
Vê-me? Preciso tornar-me o que sou e nunca fui. Não tão assombrada de parecer sozinha no mundo. Força.
Em hora da vida que me resta, deixa eu acreditar que família é baluarte.
E, em hora de minha morte, deixa eu me lembrar que posso segurar suas mãos.
E por favor, Senhor, exista outra vez!
Eu preciso te orar muito mais.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Querido vampiro,
"Há três dias, afeiçoada à velhinha, não foge a mosca por entre as grades da janela."
Dalton Trevisan
Você poderia contar-me
um cessar de solidão
Da minha
Ajude esta confusão
Diga-me!
Como ser um
sem estar só?
(pensamento)
Ou quem sabe, vampiro
Juntamo-nos depois
Podemos inventar uma solidão
Pra cabermos nós dois
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Tô de mudança
(As mudanças interiores são bem mais lentas do que o curso dos rios e tanto mais rápidas do que nossa apreensão. Quando nos apercebemos dos seus primeiros sinais, há muito lá estão alojadas, em processo fecundatório. O tempo anda a lhes dar as mãos. E ao meio-dia de uma idade humana, creio já ser possível colher algumas delas.)
Hoje eu mudei só por respirar.
E você?
Tem casa no mundo?
Pra você
Dependurado na barra da minha saia de papel
Ele procurou pontos de seguimento
no labirinto-do-que-eu-não-disse.
Gritei, discordei.
Ele chamou "entrelinha".
- Ora! Invenção também existe.
- Mas que bobagem, Inácio!
Leite de pedra é tão amargo.
Ele procurou pontos de seguimento
no labirinto-do-que-eu-não-disse.
Gritei, discordei.
Ele chamou "entrelinha".
- Ora! Invenção também existe.
- Mas que bobagem, Inácio!
Leite de pedra é tão amargo.
sábado, 6 de novembro de 2010
O que querem os homens
Cansei disso!
Dessa esqualidez, dessa magreza quase sem exceção, dessa abundância estratégica de carne. Mas que pulsos e calcanhares mais rebeldes! Acabarei com os dois, dias roliços me hão de chegar!
Cansei dessa hipocrisia, mãe! Quero uma robustez não condizente com meus ancestrais, quero os doces prazeres da futilidade estética.
São os homens, mãe. Os homens não desejam minha cabeça, eles não podem comer meus poemas, porque poema não se come, entendeu? Pobre de um poema diante de uma bunda.
Vou correr ao prato de feijão que você me preparou.
Que tudo o que os homens querem é a superficialidade do amor.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Esmorecer
Não, não pôde mais meu coração
Viver assim dilacerado
__________________________
Eu poderia morrer
Eu juro
Ouvi-la cantar assim
É já um princípio
Não que eu mate a mim
Não há cá vocação,
Mas se acaso a morte resolve
deitar seus olhos funâmbulos
- Mansos e terríveis - sobre mim
Eu me entregaria num sorriso triste
Não te orgulhes desse cantar, Elis
Trazes a morte nele enredada
____________________________
A derramar melancolia em mim
poesia em mim
Elis e Tom - Modinha: http://www.youtube.com/watch?v=-NdnPv_frPw
Viver assim dilacerado
__________________________
Eu poderia morrer
Eu juro
Ouvi-la cantar assim
É já um princípio
Não que eu mate a mim
Não há cá vocação,
Mas se acaso a morte resolve
deitar seus olhos funâmbulos
- Mansos e terríveis - sobre mim
Eu me entregaria num sorriso triste
Não te orgulhes desse cantar, Elis
Trazes a morte nele enredada
____________________________
A derramar melancolia em mim
poesia em mim
Elis e Tom - Modinha: http://www.youtube.com/watch?v=-NdnPv_frPw
sábado, 23 de outubro de 2010
Sonhei que na minha cabeça havia crescido generosos fios alvos, eu era a copa de um ipê brilhante, exibia altiva a cabeleira de algodão a todos os meus parentes. Eu tinha rugas e os olhos capitulescos. A minha boca cerrada como que guardando o grande mistério do mundo. Eu era uma velha e andava feliz, os jovens beijavam as minhas mãos. No fim do dia eu sorria para as paredes: tenho grandes conhecimentos. Quando acordei, por sobressalto, uma enorme aflição se apossou de mim, eu era ainda um sonho, seus pedaços malucos aturdiam meus sentidos. Mas à porta de minha consciência uma fala arregalada jazia: és velha e não há riquezas, és velha e continuas falando à solidão.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Ouça, Amor
Oh, meu Amor, tu não germinas mais consoantes no meu ventre. Mordi a tua boca como se morde poema gordo, no entanto, o que escorreu era ralo e tão vago que cuspi ao chão um crisântemo velho, aquele pegajoso crisântemo inodoro. E senti o útero secar-se...
Porque tu não vais embora ao invés de misturar-se neste ninho de pathos? Ah, maldito Amor ardiloso ascendendo minhas dores sepulcrais.
Deixa, Amor, meu coração ser oco. Deixa ser aborto esse morto, que minha solução é o nada.
Ouça, Amor,
Esquecer é trair
É inútil o imperativo ou a súplica se nada te posso dedicar...
Imagem: (Conrad Roset)
Porque tu não vais embora ao invés de misturar-se neste ninho de pathos? Ah, maldito Amor ardiloso ascendendo minhas dores sepulcrais.
Deixa, Amor, meu coração ser oco. Deixa ser aborto esse morto, que minha solução é o nada.
Ouça, Amor,
Esquecer é trair
É inútil o imperativo ou a súplica se nada te posso dedicar...
Imagem: (Conrad Roset)
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Ouve, Rute
Ouve, Rute, apenas ouve e lembra-te do grande olho estriado que pende do teto do mundo – mistério gozoso que inunda grosso o charco do corpo estortegado e retorna incólume ao seu lugar nenhum. Sede paciente, Rute, e ouve do olho espiralado o silêncio do seu nome que desaba sobre os tetos das casas vazias, inundando pegajoso as telhas para pingar – pouco a pouco a pouco – no chão cru do de dentro. Volve à olaria do teu pai e indaga ao barro marcado, abocanha a consoantes e vogais, enterra em teu ventre todos os sons e ainda assim não vais parir o nome do olho inamovível.
Acalma-te, parva Rute, e ouve tudo o que é inominável – inútil inquietar-se tanto, tu não te moves de ti -, apenas ouve e lembra-te do grande olho.
Joana Castro
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Delgadina
O teu peito é quase doce
De camélias e frutos silvestres
Oh, não te movas, derrames!
Oh, não te movas de mim!
A minha língua goteja flambante
No quente fulgor do carmim.
Quando no leito, sejas
Maduro punhado-cereja
Que o licor ruboresça meus lábios!
E deixa, deixa sangrar madureza,
O sofrer que é deleite e enseja
A louca libido dos sábios.
Delgadina, Delgadina,
Que para seres rubi
Deixa cravejar-te meu falo.
De camélias e frutos silvestres
Oh, não te movas, derrames!
Oh, não te movas de mim!
A minha língua goteja flambante
No quente fulgor do carmim.
Quando no leito, sejas
Maduro punhado-cereja
Que o licor ruboresça meus lábios!
E deixa, deixa sangrar madureza,
O sofrer que é deleite e enseja
A louca libido dos sábios.
Delgadina, Delgadina,
Que para seres rubi
Deixa cravejar-te meu falo.
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