O tempo em que uma criança mama é um tempo de conjugar. Uma transição dolorosa, mas cheia de esplendor. Uma maneira de prolongar cordões rupturados, a forma primeira de amor e enlevo.
Minha mãe amamentou-me por quatro anos. Ela me chamava, eu fazia meu ninho, e chupava os mamilos sem leite, porque era tudo que sabia fazer. Depois eu cantava as músicas da escola - encontrei uma casinha enfeitada de cupim - ela não queria perder o que havia para além do peito. Eu era fácil de ser lida, era calma e sem grandes medos.
Mas um dia, meu pai começou a debochar aquele ritual arrastado, aquela insistência e recusa. Eu me lembro apenas de ouvir palavras meio imodestas, como 'mocinha'. E não poderei precisar se minha atitude foi irrefletida, se eco, se culpa, se tédio, se medo crescendo...
Então, numa tarde, naquele quarto, eu disse não a minha mãe, um não que fez a primeira fresta na nossa casa, a primeira rachadura, a primeira partida. E ela chorou baixinho as antigas lágrimas de mãe, e mostrou sua tristeza apenas para os seus santos rosários.
sábado, 27 de julho de 2013
terça-feira, 23 de julho de 2013
Estrelinha pia-pia
Já tem muitos tempos que os ossos estão fraquinhos. O pulso treme, as células se morrem e nem se vê. Acabou o são cabelo na cabeça, cresceu uma penugem no rosto. Será que é pecado de Deus? Sofrimento é uma palavra vasta que eu acabei de desconhecer. Não sei mais de muita coisa, a gente desaprende muito rápido. Quantas coisas foram feitas para não ser compreendidas?
Agora que o anjo voltou pro céu (que paz mais rosada), vejo gente larga-larga no universo, tem dor, mas tem força. E eu não sei nem chorar.
(dois anos)
Eu rezei por você, nunca saberei se o suficiente, nunca disse o que quer que fosse preciso, eu nunca digo, mas sei que te amo, você está num bom lugar e não sofre mais, eu estou feliz.
Agora que o anjo voltou pro céu (que paz mais rosada), vejo gente larga-larga no universo, tem dor, mas tem força. E eu não sei nem chorar.
(dois anos)
Eu rezei por você, nunca saberei se o suficiente, nunca disse o que quer que fosse preciso, eu nunca digo, mas sei que te amo, você está num bom lugar e não sofre mais, eu estou feliz.
É preciso matar o anjo da casa
Aos cinco anos de idade, eu era verdadeiramente um anjo na casa. As minhas asas atabalhoadas fizeram ir ao chão muitas bonecas de porcelana. Ainda não havia completado um ano e quebrei a vidraça de uma mesinha num só golpe de tornozelo, não me feri e minha mãe achou mesmo que estava feito milagre. Porque eu era um bebê bonito e vi muito rosto admirado, a minha mãe era risonha, maravilhada que logo ela tivesse parido um anjo loiro. Até quebranto tive, mas me rezaram. A enfermeira no hospital fez graça com meu pai, queria me levar. Ele disse que uma coisa tão bem feita não se dá a qualquer um assim. Aí, lá para os sete, eu já podia usar batom, ganhei um kit de aniversário e a casinha completa da Barbie. Depois enjoei daquele quarto todo rosa, a boa verdade é que nunca gostei, não tinha idade pra isso. Com uns dez, minha mãe me botou para lavar pratos, ponto de cruz eu achava coisa de velha, mas ela insistia. Então, entrou um senhor na nossa vendinha e me viu de agulha e pano de prato na mão, achou de fazer a ressalva: 'menina prendada!' Achei uma ofensa! Lembro que fechei muito a cara. E nunca mais cruzei um ponto na vida. Então foi mais ou menos por aí que fui deixando de ser o anjo na casa.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Mas seria muito bonito se dos ovos brotasse flor
Eu só gostaria de saber que tamanho têm as nuvens. A extensão exata das chuvas, que é-me questão de muitos quês. Como, quando criança, descobri que os ovos não cresciam das plantas, já que um dia vi cascas quase inteiras nas pontas de uma babosa. Mas seria muito bonito se dos ovos brotasse flor.
Não quero mais ver as coisas pelo olho da ciência. Cansei-me. A ciência não me basta. A ciência pura é uma excrescência. Há sucesso em saber que os abacaxis são alcalinos? A teoria dos humores era uma verdade quase sublime, mas a loucura está soterrada. Se uma criança pede que lhe sirvam uma nuvem em lugar da sopa, deem nuvens às crianças! O maior pecado humano é não alcançar os olhos das crianças para depois dizer-lhes 'basta! Aqui não se come nuvens'. Degenerado é aquele que incompreende a sublevação dos sonhos infantis.
Gostaria de ainda ver que saem luzes cristalinas dos beijos que são beijos. Gostaria muito de ver um ovo florido, de transformar a opacidade da matéria.
Trago um deus que se regozija ao cear nuvens com as crianças, mas emudece diante de um tempo que é sólido demais.
Não quero mais ver as coisas pelo olho da ciência. Cansei-me. A ciência não me basta. A ciência pura é uma excrescência. Há sucesso em saber que os abacaxis são alcalinos? A teoria dos humores era uma verdade quase sublime, mas a loucura está soterrada. Se uma criança pede que lhe sirvam uma nuvem em lugar da sopa, deem nuvens às crianças! O maior pecado humano é não alcançar os olhos das crianças para depois dizer-lhes 'basta! Aqui não se come nuvens'. Degenerado é aquele que incompreende a sublevação dos sonhos infantis.
Gostaria de ainda ver que saem luzes cristalinas dos beijos que são beijos. Gostaria muito de ver um ovo florido, de transformar a opacidade da matéria.
Trago um deus que se regozija ao cear nuvens com as crianças, mas emudece diante de um tempo que é sólido demais.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Um dia desses,
desses que não estão perdidos,
Eu disse ao maior amor que tive
que sim.
Quero, enfim, alumiar o sertão,
dar minhas pérolas
e meus pulsos
Se junto d'ele eu estiver.
É a minha fome primeirinha
que nunca mais vou morrer.
Vou criar crianças
pra domadoras do mundo
vou lecionar
nas santas marias
e comer um pão feliz.
Procurei, pois, seu colo
e duas lágrimas
banhavam
serenamente
seu rosto.
desses que não estão perdidos,
Eu disse ao maior amor que tive
que sim.
Quero, enfim, alumiar o sertão,
dar minhas pérolas
e meus pulsos
Se junto d'ele eu estiver.
É a minha fome primeirinha
que nunca mais vou morrer.
Vou criar crianças
pra domadoras do mundo
vou lecionar
nas santas marias
e comer um pão feliz.
Procurei, pois, seu colo
e duas lágrimas
banhavam
serenamente
seu rosto.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Mãe
Hoje acordou um dia manso
Mãe me trouxe um vestido,
vestido de ficar dentro de casa,
branco de flor pintada.
Todo dia,
eu vou aprendendo
a apaziguar uma dor.
Eu me sentei junto d'ela
na mesa pequena da cozinha
- ali não cabe uma fome sequer -
E fui ajudar a fazer biscoito.
Todo dia, uma voz se cria
pr'eu saber dar corpo a ela.
Ali na cozinha
- templo e masmorra da família -
Eu vou conhecendo o que ela não diz.
Vou saber, um dia,
amar uma mãe que não me entende,
lavar a louça e guardar
pra que ela possa dormir feliz.
Fazer coisas sem nenhum sentido
pelo sentido de ter paz.
Vou compreender
profundamente
que meu silêncio
nutre uma culpa
que é só minha
e de niguém mais.
Que uma fúria, se torta,
não presta para fazer nada.
Vou anotar
certas preciosidades.
Que um biscoito,
para ser macio,
é primeiro domar os dragões
e depois pôr menos açúcar.
Um dia, eu alcanço
a velhice pueril
de minha mãe.
Pedir "bença"
todo dia,
sem esquecer
nem desprezar.
Saber que eu sou pequena perto dela.
Saber que o mundo é maior que eu.
Agradecer.
Todo dia
a gente aprende
a apaziguar uma dor.
Mãe me trouxe um vestido,
vestido de ficar dentro de casa,
branco de flor pintada.
Todo dia,
eu vou aprendendo
a apaziguar uma dor.
Eu me sentei junto d'ela
na mesa pequena da cozinha
- ali não cabe uma fome sequer -
E fui ajudar a fazer biscoito.
Todo dia, uma voz se cria
pr'eu saber dar corpo a ela.
Ali na cozinha
- templo e masmorra da família -
Eu vou conhecendo o que ela não diz.
Vou saber, um dia,
amar uma mãe que não me entende,
lavar a louça e guardar
pra que ela possa dormir feliz.
Fazer coisas sem nenhum sentido
pelo sentido de ter paz.
Vou compreender
profundamente
que meu silêncio
nutre uma culpa
que é só minha
e de niguém mais.
Que uma fúria, se torta,
não presta para fazer nada.
Vou anotar
certas preciosidades.
Que um biscoito,
para ser macio,
é primeiro domar os dragões
e depois pôr menos açúcar.
Um dia, eu alcanço
a velhice pueril
de minha mãe.
Pedir "bença"
todo dia,
sem esquecer
nem desprezar.
Saber que eu sou pequena perto dela.
Saber que o mundo é maior que eu.
Agradecer.
Todo dia
a gente aprende
a apaziguar uma dor.
sábado, 27 de abril de 2013
1.
Se eu te disser o porquê dessas unhas negras, tu não acreditarias. A rígida entrelaçadura das carnes, o corpo enfermo de tanta brasa, estes calos internos, tudo são mistérios a acumular-se nas vigas da casa. Mais quatrocentos ocultamentos para minhas palavras sem nome. Como as cores que os olhos não veem e permanecem, quasevivas, quasemortas, no indizível.
Meus dentes alheios de comunicação vigorosa - os frutos são sempre tardios - insistem nos maços de flores. Mastigo mil pétalas e, ainda precária, deito-me aos pés das roseiras. Intento tocar o corpo da vida que me escapa, correr ao jardim e cavar as madrugadas. As rosas me olham. Quando é que me apartei do mundo? Então atravessa, quase inocente ao negrume da noite, aquela ave soberba, de penas tão impossivelmente escuras que demovem minha melancolia. Aquela ave - penso eu - tem a cor do exato momento em que à noite as mulheres são mais solitárias.
2.
Se eu fosse uma ave, não me aperceberia de mim e talvez não trouxesse rígida a carne, o corpo enfermo, o peso devasso das dúvidas humanas. Chocaria meus ovos de paciência porque assim seria. Não teria de explicar o negro das unhas. O coração é um pedregulho que, longe do diamante, não lapidou-se, sofreu muitos golpes de marreta quando pedra e reduziu-se. Afasto assim as lágrimas pensando no coração-pedregulho; gesto mais sem razão, como sem razão são as aves. Degolei todas aquelas rosas para comê-las. Porque vejo eu razão nas rosas? Afinal, se há coisas sem nome, é que passo muito tempo a imaginá-las. Se não o fizesse, elas não haveriam. Porque me fizestes, Deus, mais pergunta e menos mulher?
3.
Se um dia eu morrer de repente, afundem-me rápido debaixo das roseiras. Fiz da morte de minhas flores um cobertor. Quero ter o corpo morno para sempre.
Se eu te disser o porquê dessas unhas negras, tu não acreditarias. A rígida entrelaçadura das carnes, o corpo enfermo de tanta brasa, estes calos internos, tudo são mistérios a acumular-se nas vigas da casa. Mais quatrocentos ocultamentos para minhas palavras sem nome. Como as cores que os olhos não veem e permanecem, quasevivas, quasemortas, no indizível.
Meus dentes alheios de comunicação vigorosa - os frutos são sempre tardios - insistem nos maços de flores. Mastigo mil pétalas e, ainda precária, deito-me aos pés das roseiras. Intento tocar o corpo da vida que me escapa, correr ao jardim e cavar as madrugadas. As rosas me olham. Quando é que me apartei do mundo? Então atravessa, quase inocente ao negrume da noite, aquela ave soberba, de penas tão impossivelmente escuras que demovem minha melancolia. Aquela ave - penso eu - tem a cor do exato momento em que à noite as mulheres são mais solitárias.
2.
Se eu fosse uma ave, não me aperceberia de mim e talvez não trouxesse rígida a carne, o corpo enfermo, o peso devasso das dúvidas humanas. Chocaria meus ovos de paciência porque assim seria. Não teria de explicar o negro das unhas. O coração é um pedregulho que, longe do diamante, não lapidou-se, sofreu muitos golpes de marreta quando pedra e reduziu-se. Afasto assim as lágrimas pensando no coração-pedregulho; gesto mais sem razão, como sem razão são as aves. Degolei todas aquelas rosas para comê-las. Porque vejo eu razão nas rosas? Afinal, se há coisas sem nome, é que passo muito tempo a imaginá-las. Se não o fizesse, elas não haveriam. Porque me fizestes, Deus, mais pergunta e menos mulher?
3.
Se um dia eu morrer de repente, afundem-me rápido debaixo das roseiras. Fiz da morte de minhas flores um cobertor. Quero ter o corpo morno para sempre.
domingo, 31 de março de 2013
A fibra do coração é a mesma
Os tempos são tristes
para os que buscam
a consistência dos sonhos.
É muito estranho,
sobretudo, aterrador
saber que há gente
a recusar o espetáculo
de amor
dos humanos.
Eu amo
Dois amam
E se alguns carregam os
mesmos órgãos sexuais
são poderes magníficos
da natureza diversa.
A fibra do coração
é a mesma.
Ninguém detém
o pensamento
de Deus.
É sofrimento ver
um animal se debater
contra o curso
poderoso
de um rio.
A suposta ordem natural das coisas
É uma suposta
ordem
natural.
Há sinais
- ininteligíveis para os que não ousam compreender -
de que há metamorfose
no tempo,
Quem não o acompanha
acaba por ser tragado
pela poeira das eras.
para os que buscam
a consistência dos sonhos.É muito estranho,
sobretudo, aterrador
saber que há gente
a recusar o espetáculo
de amor
dos humanos.
Eu amo
Dois amam
E se alguns carregam os
mesmos órgãos sexuais
são poderes magníficos
da natureza diversa.
A fibra do coração
é a mesma.
Ninguém detém
o pensamento
de Deus.
É sofrimento ver
um animal se debater
contra o curso
poderoso
de um rio.
A suposta ordem natural das coisas
É uma suposta
ordem
natural.
Há sinais
- ininteligíveis para os que não ousam compreender -
de que há metamorfose
no tempo,
Quem não o acompanha
acaba por ser tragado
pela poeira das eras.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Doce Jurema,
Sucedeu-me que mal completos meus
primeiros dois meses cá onde estou, espatifei no sofá por puro tédio. (Sim, este sofá é a representação suprema de todo o tédio humano). Por isso recorro ao papel-e-caneta para alumbrar a minha companheira das mais torpes digressões.
Já te disse o quão desconfortável é tudo em
minha casa? A mistura extraordinária do maior número de variações decorativas
que uma mãe é capaz de fazer; as ondas constantes de poeira que adentram portas
e janelas; a secura que racha-nos narizes e bocas e o pior (sim, o pior!): a
ausência total de privacidade. Caso esquisito é que hoje, já consternada, estanquei
minha rabugice por tanto apelar minha sábia mãe: “se te derem limão, faça um
limoeiro”.
Atrevo-me a externar as causas de minha estadia ter-se tornado mais
suportável. Como havia dito, a privacidade em minha casa é um simples mito, não
existe de todo. Não há muros entre as casas e dividimos com a vizinha uma de
nossas paredes, de modo que tudo que lá se passa nos é audível e vice-versa
(este vice-versa é um tanto desinteressante, não?). Neste caso muito pouco
inteligente da arquitetura, não há, em verdade, bisbilhoteiros legítimos.
Excede-se a minha Mãe Maria (a empregada) quando estaca junto da porta lateral
da cozinha. “Tá de butuca, Mãe Maria?” Ela volta a si e finge bater o bolo. É
fato que a programação televisiva é deveras chata e a vizinha protagoniza
verdadeiros Casos de família muito mais instigantes. No mais, estamos isentos
de culpa. Temos ouvidos, ora! Se te contar a última, você nem poderá acreditar
(se não fossem estes preciosos ouvidos que a terra há de degustar). A trama é
cabeluda. A vizinha, de nome Marília, é separada do marido e tem duas filhas
quase crianças. Carminha, que não deve ter ainda caídos todos os dentes de
leite, e Jussara, a que todos chamam "a diaba", tem treze anos e dá indiscriminadamente aos guris da cidade. Sim, Jurema, não esteja boquiaberta, por estas bandas também se ouve Geni e o Zepelim. Cá entre nós, critério é fanfarrice. Imagino sua cara de "certa é ela" e as nossas gargalhadas de passarinhas bêbadas. O fato é que a mãe está a por os bofes para
fora de tanta raiva de Jussara, não é que a doidinha engravidou? Quase todos os
dias ouve-se a vizinha maldizer a criança e, logo em seguida, ameaçar escorraçar
a filha de casa. As irmãs se uniram contra o desatino da mãe, só conversam
entre si, confabulam, Carminha promete apadrinhar a sobrinha e diz que cuida,
fala em fuga, Jussara-maluca pensa em tirar, diz que odeia o pai ("aquele minino zé ninguém") e quer ser
sozinha, só ela e a irmã. Uma confusão!
Outro dia, chegando em casa, vejo Mãe
Maria gesticulando, quase apavorada, numa conversa de porta com Jussara. A menina
revirava os olhos esboçando indiferença. Mariazinha é mesmo abusada. Foi pedir
(pois é, quase implorar) para que Jussara não matasse o próprio filho, ouvi
coisas como “pobrezinho” e “santo Deus!”. Eu via a hora da "diaba" soltar uns
bons desaforos na cara da enxerida, mas Jussara, tão avoada, só bocejava.
Entrei sem palpites, seria demais. Depois de curto tempo, ela voltou
lacrimosa e fui perguntar o que havia acontecido. Ela disse que a menina era
sem coração de verdade, ao invés de ouvir o que aconselha o Nosso Pai, disse ao
final que Mãe Maria procurasse uma boa caceta (!!!). "Jesus seja louvado!". Mãe Maria e seu olho esbugalhado. Segurei meu riso com muita destreza. Difícil, Jurema, difícil! 'De geniosa a genial: uma história de Jussara.' pode ser um título de meu livro.
Todos aqui em casa estamos apreensivos na expectativa desta novela. Correm rumores de que o pai da criança - um meninote ajudante de mercado - quer raptar Jussara para que nenhuma desgraça seja feita. No desenrolar da trama, envio-lhe novidades quaisquer. Enfim, está justificado o meu apaziguamento? Tenho material suficiente para trabalhos antropológicos. Esteja bem, querida.
Todos aqui em casa estamos apreensivos na expectativa desta novela. Correm rumores de que o pai da criança - um meninote ajudante de mercado - quer raptar Jussara para que nenhuma desgraça seja feita. No desenrolar da trama, envio-lhe novidades quaisquer. Enfim, está justificado o meu apaziguamento? Tenho material suficiente para trabalhos antropológicos. Esteja bem, querida.
Saudades,
Ellenalva.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
É um tomar osadia...
“Mas essa cidade ao menos vive, tem cor e tem barulho. Não se reduz à mornidão d’um chão vermelho e seco como o do Distrito.” Ouve-me repetir acalorada o turista insatisfeito. Aponta-me tantos defeitos e precariedades que fica difícil manter meu apelo à poesia. Mas sim – insisto – há um brilho que sobrevive e respira solene por sobre os ares fétidos da cidade. Um perfeito caos de vagamundos. Quem não conhece a beleza no contraste sequer será capaz de reconhecer plenamente a beleza na perfeição.
Confesso: não foi tão simples me acostumar. Salvador é mais afetuosa, digamos assim. É raro alguém não puxar conversa numa longa viagem de ônibus, seja por tédio ou força do hábito, um motorista que deseja bom dia e boa sorte, a baiana que te chama ‘linda meu amô’. É um “tomar osadia” constante, que não significa propriamente invasão, nem recai no clichê da hospitalidade baiana. É mais um comunicar-se espontaneamente, para além do automatismo de uma metrópole. As pessoas se encontram, e as pessoas se misturam.
Seria talvez trabalhoso (ou ainda, perverso) fazer alguém que com nada se encantou neste lugar perceber a vida circundante que tento descrever. “Não, você não precisa me lembrar quem está fora das cordas no carnaval, quantos casarões aos pedaços, o trânsito ignóbil, a família Magalhães.” A paixão por uma terra nunca é cega. Quanto mais afeição, mais profunda a consciência, afinal estar num lugar é fazer parte dele. Tramita-se por suas veias, tem-se lúcidos todos os sentidos. E principalmente: “Não é disso que falo… Não quero um visitante consternado ao meu lado. Entenda”.
A conversa era banhada com goles de cerveja, que, entusiasmados, esquecíamos de beber. Um amigo fastioso das minhas elucubrações e da resistência do brasiliense pergunta se queremos criar peixes. A essa altura, o fiel combatente me chamava Policarpo ao mesmo tempo em que se perguntava por que diabos a fila do acarajé parecia não sair do lugar, eu retruquei indagando se acaso ele já havia provado o acarajé da falecida Dinha. “Essa agora é realmente instigante, uma defunta baiana ou uma baiana defunta?” “Ora, digo, pois, que o amigo não perca a oportunidade de comer um acarajé feito nos céus”.
Crônica produzida especialmente para Torcicolo do caboclo
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