quinta-feira, 16 de julho de 2009

"A Quo"

Não valorizes o corpo
Não sublimes o corpo
este atado de boas ligações
jungido de coisas diminutas

Não inflames o corpo
Afrodisíaco Apolíneo
É breve
Encapuza coisas mais

Não vanglories o corpo
No rosto toda a alma se perfaz
As portas de pedra castanha são luz
No rosto há tudo
Tua graça e tua mesquinhez
Tua lágrima e teu nada
Teu bonito tua bruma teu riso

Mas teu corpo
Uma chama tremelica
Um sopro desespírito
mormente corpo vivaz
Que não diz
Somente corpo
Apenasmente corpo
Não lhe traduz
Exposto
Muito pior
Finge

Revelados pormenores
Que cortesia terás?



Imagem: Audrey Tautou

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O Poema ficou Pequeno pra você


O poema ficou pequeno pra você, meu bem.
Nós fazemos em chãos de madeira e redes bem trançadas, pra contar - As mãos brancas com todas as regalias e a dissolução de todas as nossas cores não dão conta. Exigem-me pausas, preciso afastar-me e conter. E dizer fazer - é fazer que se pode? Fazemos? Agimos?
Sua língua exasperada em pêlos de negrume perfumoso. A reação caudalosa com a baba. Escorrer persistente de gozo estarrecido. Derramar nossos pedaços pra recolhermos tão vivamente renascidos. Fizemos?
Todos os fluidos nos foram purificados...
Ou palavra suave, ou palavra sem alma, não serve, você as esmaga, meu bem, não vê? Organizem orquestras, lambuzem maçãs, modelem os metais, nada susta, pois estas ramificações estão bem nutridas e não decifram sintonias em receitas baratas.
Que há a dizer, meu bem? Dizer que há nada traduzível. Que tudo foi escrito pobremente manchando nosso nó de
dedicatórias inferiores. Estes signos que sujam as digitais dos seus pés, amor, lavemo-nos!
O nosso riso figura a metonímia do todo desconhecido e inatingível (por vezes exilado). Tão simples, tão simples, entregar-se, desfazer-se, não fingir, não finjas, vos fale! Não deixem trancafiados os teus gemidos!
Reais em demasia, não choram, não se deleitam. Tão pequenos, meu bem, e logo nós, grandiosos, infundados, malucos, sem medo. Sementes douradas espreitam-nos em dimensões futuras. Somos plenos. [lindos e pretensiosos]
Aperta-me mais, amor! Aperta-me até nossos ossos se tocarem. Segura-me! Deixa a dor fragmentar-se. Seremos livres. Multiplicaremo-nos.
Sento-me em minutos travestidos de séculos terríveis. Queixo-me dos seus exageros, mordendo a carne dos beiços ansiosos por pura e obviamente ter amor, "reprofundo", misterioso, egoísta... seu.
Que não há outra vida, não há outra razão, houveram-se ignoradas.
Tecemo-nos em fios inquebráveis...
E seremos livres, amor, multiplicaremo-nos, dançantes e leves como plumas rosáceas...

Imagem: O Beijo (Klimt)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Fabular


"O homem é um animal reincidente no erro, e que se nutre de metáforas"

Murilo Mendes - A Idade do Serrote



Cortarei os fios da vaidade


Para o plantio de hibiscos


Cultivar-los-ei pernoitemente


E quando florescerem


Terei todos os homens do mundo


Pois a beleza salvará o mundo


O belo, o bem


Salvarão o mundo


Os brotos de begônia cristalizados


Erguerão elefantes


E terei todos


Serei tudo


Pois a beleza salvará o mundo


Terei-lhes por debaixo


De meus cabelos de narciso


Terei todos os homens do mundo


Altivos, sedosos


Meu cesto de hibiscos


Arrastarei por sobre a terra


Pois a beleza salvará o mundo


O belo, o bem


Salvarão o mundo


Pueril ou etérea


Ou crédula e parva


Mastigarei todo verde


Enormes vezes por segundo


A seiva de minhas folhas


Prolificará urzes benfazejas


Pois a beleza salvará o mundo


O belo, o bem


Salvarão o mundo


E açoitada ou estéril ou cega


Rasgarei em meus lábios


Sorrisos encarnados


Pois a beleza salvará o mundo


Cometerei vastos poemas


Desposarei todos os amantes


Terei cansados os meus anelares


Abandonarei pegadas profundas


Repousarei em campos diáfanos


E pelas metáforas e fábulas


Salvarei todos os homens do mundo

domingo, 7 de junho de 2009

Virgens Corolas


Graciosa, tu vinhas

Tu chegavas amanhecida

Teu vestido cor-de-laranja

Tua pele crispada e florida

Harmoniosa, tu vinhas

Teu peito vermelho elevado

Continha-se num abraço

Num bálsamo

E ofegavas por entre as mordidas

Deitavas-te lânguida, serena

De corpo em penugem suada

Chamava-me tua nudez vestida

Teu ardor de virgindade anunciada

Cálida, tu vinhas

Com teus pelos cor-de-verão

Dilacerar as fibras d’alma minha

Desvanecer-me em amplidão

Morna, tu vinhas

Semente suave sobre meu rosto

Clamando-me pausas arrependidas

Ao deflorar os botões de teu dorso

Estremecida ficavas

As saias derramavam-se perdidas

Sussurravas quereres tão torpes

E relutavas com pernas indecisas

Mas tão distante mergulhavas

Que o querer mais alto gritava

E te descompunha o rasgo dos lábios

E ouviam-se pedidos ávidos

Então, de pungente, calavas

Apertavam-me tuas mãos pequeninas

E num espasmo assustado ficavas

Saboreando os quereres ainda

E cerravas os olhos molhados

Ao cessar teu mar de lamúrias

És, agora, um ninho umedecido

De corolas derretidas e púrpuras



Tema: Palavras quentes







sexta-feira, 22 de maio de 2009

Pêssego



Me chame Buendía
De pulcra boca adocicada
Tenho lábios úmidos d'um cítrico luzidio
E dentes encharcados de macia frutose
Rasgo os gomos suaves de teu pomo alaranjado

Os folículos de minha língua de sede regozijam

E o veludo líquido transborda pelas clavículas...








P.s.: Aula de Criação Literária. Tema: Café da manhã



Imagem: (Dante Gabriel Rossetti)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pérolas Frias

Cansei-me deste lençol de gelo
a cobrir-me as faces
Este invólucro não derretido
a roubar-me o real.
Aqueço-me de alma e de corpo
e vejo caídas as pérolas frias.
Bordo com fios estreitos
a burca que pende aos cílios

E vejo-me astigmata outra vez

sábado, 2 de maio de 2009

Tenho seios desalmados



Tenho seios desalmados, assim
Tristonhos de veias roxas
Seio cru, profanado, mordido
Tenho seios desalmados
Umbigo sujo, é
Profundo meu nó
Dos deuses mitológicos
Joelhos rebeldes
Pelas farpas
Marcados
Não é colorido
Meu pelo
As panturrilhas
São tímidas
Pestanas e têmporas
Dentes unívocos forrados
De resina
No cabelo não há cá
Tinta

Meus dedos dão as mãos
Em volta dos tornozelos
Elos torno-os
Os glúteos são
Livres, são
Oleosamente
Dançantes
As mãos e a cútis são
Amantes
Sorriem nos passeios noturnos
Meu corpo tão mole e leve
paz e seios
Nó em tu
Meu santuário de
Células fugidias
Céu e lulas
E estrelas salgadas
Corpo único envolto
Em gordura
E doce
Meu
E humano
Jaz desfeito em alma
d'insanos
Trapos
Corpo solto d'avesso
Cor pó sol
Desfeito
Tenho seios desalmados


Imagem: (Gustav Klimt)

domingo, 26 de abril de 2009

Poetar é preciso IV

Relato de uma jornalista em decadência

“Desculpe, eu sou medíocre! Demorei muito tempo pra conseguir assumir, mas olha aí, parece que a terapia ta fazendo efeito. Hum, já que comecei falando de mim, espera, tenho mais revelações a fazer; meu excêntrico mundo egocêntrico me impede de ver além dos limites da viseira que roubei de minha adorada égua Jurema; tomei um choque quando era adolescente, por volta dos 19 ou 20 anos, que me impede de realizar as sinapses como as pessoas normais e tenho um horrível (e por que não dizer insuportável?) complexo de inferioridade, trauma de infância sabe? Fui uma criança sempre só, nenhuma outra queria brincar comigo, diziam que eu era feia, chata e burra, aí desenvolvi um hobby que me acompanha até hoje, passei a dedicar meu tempo a fazer críticas à vida dos outros; já que tenho tantos defeitos, outras pessoas hão de ter também; e vasculho mesmo, pra se ter idéia, fiz disso minha profissão, a internet passou a ser meu maior instrumento, afinal, diversas pessoas expõe publicamente suas vidas... confesso que tenho um apreço especial por criticar jovens talentos. Como conseguem esses jovens ser tão melhores que eu que tenho tanta experiência? E realizar combinações de palavras que eu jamais poderia um dia pensar que fossem possíveis? Não resisto, tenho que demonstrar publicamente meu desafeto por essas criaturas, e para isso, eu procuro qualquer motivo, critico o corte de cabelo, suas unhas esbitocadas, a maconha que fumou aos 13 anos de idade, a bala que roubou aos 5, as interpretações e trocadilhos que fez ao ler um poema de um poeta qualquer... sinto-me na obrigação de, como jornalista muito conceituada e renomada, denunciar esses crimes hediondos, é meu dever alertar nossa sociedade contra a existência de pessoas assim, não posso deixar que elas permaneçam impunes e continuem a escrever textos brilhantes e se tornem maiores do que o que minha capacidade tenta conter, tenho que difamá-las enquanto há tempo, enquanto são jovens e posso ferir-lhes com isso como sendo uma doença, pobre de mim que perdi a juventude e quero agora apenas atingir os que a tem. Eu sou uma vítima... por favor, eu imploro, tenham pena de mim!
Ass.: como é mesmo meu nome? (esqueci de contar, tenho um pequeno problema de amnésia, esqueço e me atrapalho muito quando se diz respeito a datas e nomes, às vezes até o meu).”

Ívylla Almeida

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Muitíssimo Obrigada, pessoas que se dispuseram a ler, se empolgar e escrever algo em resposta a "Desocupada Nível Máximo Ativar"; Nunca mais, óh, nunca mais (que pesar!), ao que parece, ela nos dará as fuças.

Grata, Ellen Joyce

sábado, 25 de abril de 2009

Poetar é preciso III

Adaptando a mensagem a todos os níveis intelectuais presentes:



Oi amiguinhos e amiguinhas!!!

Hoje, vou contar uma historinha muito esclarecedora, sem usar nenhuma palavra difícil ou conceito literário!! Olha só que legal!!! Finalmente todos poderão entender!!!



Era uma vez uma menina chamada Autora Mineira Desconhecida.

Um dia, ela leu um poeminha muito meia-boca de um carinha de óculos e bigode, e pensou:

"- Nossa! Que lindo! Chorei litros! Adoro poesia! Sou uma pessoa inteiramente mudada após essa leitura! Vou guardar esse sentimento para todo o sempre em meu coração juvenil!".



Quando nossa querida amiguinha Autora Mineira Desconhecida cresceu e descobriu como usar a internet e o maravilhoso e mágico mundo dos blogs, ela pensou:

"-Huuum, e agora? Como irei nomear meu novo espaço virtual para difusão de idéias literárias (ou não) pelo mundo? Já sei!" –

Pausa dramática para surgimento de uma lâmpada acesa no alto da cabeça da Autora Mineira Desconhecida –

"- Que tal se eu me inspirar em um poeminha meia-boca que guardei para sempre em meu coração juvenil? Meu Deus!!! Que idéia genial e inédita!!! Aposto que NINGUÉM MAIS NO MUNDO teria a OUSADA E BRILHANTE idéia de usar a corruptela de um poeminha meia-boca que guardou para sempre em seu coração juvenil para nomear seu espaço virtual para difusão de idéias literárias (ou não) pelo mundo!!!!"



Enquanto isso...

(Musiquinha de mudança de local)



Era uma vez uma menina chamada Ellen.

Um dia, ela leu um poeminha muito meia-boca de um carinha de óculos e bigode, e pensou:



Etc. Aposto que aí vocês pegaram o espírito da coisa, não?

Então, vamos pular essa parte da história?



(Siiiiim!)

Continuando...



Era uma vez uma menina chamada Desocupada Nível Máximo Ativar.

Um dia, ela estava realmente desocupada, e resolveu comentar com toda sua simpatia e alegria de viver no espaço virtual para difusão de idéias literárias (ou não) de Ellen.

Ninguém entendeu exatamente o que Desocupada Nível Máximo Ativar quis dizer, provavelmente porque somos todos muito burrinhos e não freqüentamos as aulas de Teoria Literária na escolinha. Claro que nenhum de nós tem a inteligência necessária para discordar ou sequer compreender o que a grande e renomada jornalista Desocupada Nível Máximo Ativar disse.

Que pena, não?

Sinceramente, uma lástima.



E então, amiguinhos, chegamos na melhor parte!!!

Que é...

Qual a moral da história???



A) Todos somos muito ingratos, pois Desocupada Nível Máximo Ativar com certeza abdicou de muito tempo de sua atribulada e badalada vida de jornalista para se preocupar em escrever alertando sobre nosso crime hediondo de LER A MESMA POESIA QUE OUTRA PESSOA! Jesus, como permanecemos cegos a isso por tanto tempo??



B)Como o clássico do cinema Bambi já nos ensinavaa nos primórdios de nossa infância: (repitam comigo, amiguinhos!): "Quando não tiver nada inteligente para dizer, fique calado!" (Ou algo parecido com isso.)(O conceito de Licença Poética será explicado mais adiante no curso. Favor adquirir os próximos módulos.)



C)Get a life, bitch.





Escolham sua moral favorita com cuidado!

Afinal, é uma questão muitíssimo importante, crucial, eu diria.



Considerações finais:



As personagens da história infantil acima são meramente fictícias.

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.



(NOT)





Reclamações e intimações judiciais podem ser enviadas para:

vá.tomar.no.cu.antes.que.eu.me.esqueça@gmail.com.





Beijos!

Nina

Poetar é preciso II

À Uma Quadrúpede


Plagiar. 1. – Assinar ou apresentar como seu (obra artística ou científica de outrem) 2. – Imitar (trabalho alheio).



Intertextualidade – o “conceito de intertextualidade” concebido por Julia Kristeva redefiniu as noções de “fonte” e “influência”, a partir da concepção de Bakhtin da “palavra literária”. Para o formalista russo, a unidade mínima de uma estrutura literária não é imóvel, mas constituinte de um cruzamento de superfícies textuais. (Ta acompanhando?). O texto literário é um emaranhado de textos anteriores, uma “escritura-réplica”, pois nasce de um corpus literário pretérito, de acordo com Kristeva. E, para Laurent Jenny, a intertextualidade não é um caos misterioso de influências, mas a assimilação e metamorfose de vários textos presentes em um texto centralizador que guia o sentido. (Quer que eu desenhe?). Dessa forma, vê-se que o cuspido clichê “todo autor é antes de tudo um leitor” tem motivos para existir; é a partir de produções antecedentes que cria-se o novo. Coincidentemente, Fernando Pessoa está presente no passado literário da mineira que está pouco se lixando pra essa discussão imbecil, da mesma forma que está presente no passado da poetisa Ellen Joyce.

Agora, famigerada Luiza Ninguém, você pôs em questionamento o talento de Ellen por ter uma mente tolhida e um espírito belicoso; ninguém se interessa por suas grosseiras e inócuas observações sustentadas por malabarismos argumentativos pseudo-intelectualóides-de-merda. Se você passou, de fato, por uma universidade – ou mesmo pela alfabetização -, deveria ter, no mínimo, um embasamento teórico literário em que se apoiassem suas críticas, pois não há desculpas para um erro tão imbecil.

Concluindo, você é uma burra sem noções de limite, pois atreve-se a criticar uma pessoa desconhecida de talento inequívoco; imagino imensuráveis as asneiras que comete em sua profissão, devido à essa arrogância e ao manifesto retardo intelectual.



Joana Lima de Souza Castro.



P.S.: Muitos blogs têm o endereço diferente do título, você deveria saber disso, já que é uma assídua visitante de sítios alheios; estúpida.