sábado, 23 de outubro de 2010

Sonhei que na minha cabeça havia crescido generosos fios alvos, eu era a copa de um ipê brilhante, exibia altiva a cabeleira de algodão a todos os meus parentes. Eu tinha rugas e os olhos capitulescos. A minha boca cerrada como que guardando o grande mistério do mundo. Eu era uma velha e andava feliz, os jovens beijavam as minhas mãos. No fim do dia eu sorria para as paredes: tenho grandes conhecimentos. Quando acordei, por sobressalto, uma enorme aflição se apossou de mim, eu era ainda um sonho, seus pedaços malucos aturdiam meus sentidos. Mas à porta de minha consciência uma fala arregalada jazia: és velha e não há riquezas, és velha e continuas falando à solidão.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ouça, Amor

Oh, meu Amor, tu não germinas mais consoantes no meu ventre. Mordi a tua boca como se morde poema gordo, no entanto, o que escorreu era ralo e tão vago que cuspi ao chão um crisântemo velho, aquele pegajoso crisântemo inodoro. E senti o útero secar-se...

Porque tu não vais embora ao invés de misturar-se neste ninho de pathos? Ah, maldito Amor ardiloso ascendendo minhas dores sepulcrais.

Deixa, Amor, meu coração ser oco. Deixa ser aborto esse morto, que minha solução é o nada.

Ouça, Amor,
Esquecer é trair

É inútil o imperativo ou a súplica se nada te posso dedicar...





Imagem: (Conrad Roset)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ouve, Rute

Ouve, Rute, apenas ouve e lembra-te do grande olho estriado que pende do teto do mundo – mistério gozoso que inunda grosso o charco do corpo estortegado e retorna incólume ao seu lugar nenhum.  Sede paciente, Rute, e ouve do olho espiralado o silêncio do seu nome que desaba sobre os tetos das casas vazias, inundando pegajoso as telhas para pingar – pouco a pouco a pouco – no chão cru do de dentro. Volve à olaria do teu pai e indaga ao barro marcado, abocanha a consoantes e vogais, enterra em teu ventre todos os sons e ainda assim não vais parir o nome do olho inamovível.
Acalma-te, parva Rute, e ouve tudo o que é inominável – inútil inquietar-se tanto, tu não te moves de ti -, apenas ouve e lembra-te do grande olho.

Joana Castro




Imagem: Capa de P•U•L•S•E - Pink Floyd

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Delgadina

O teu peito é quase doce
De camélias e frutos silvestres
Oh, não te movas, derrames!
Oh, não te movas de mim!
A minha língua goteja flambante
No quente fulgor do carmim.

Quando no leito, sejas
Maduro punhado-cereja
Que o licor ruboresça meus lábios!
E deixa, deixa sangrar madureza,
O sofrer que é deleite e enseja
A louca libido dos sábios.

Delgadina, Delgadina,
Que para seres rubi
Deixa cravejar-te meu falo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Melancor












A tinta é branca
Do branco mais senil...
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Porque o poeta tem gosto natural por tristeza
E a beleza é o que vem depois

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Prelúdio da flor

As faces ainda ruborescem
Os lábios são róseos, sublimes
Os olhos não são de lince
São d'água, de proteção carecem

Queres abocanhar um fruto
Mas não vês que o sumo
há de adstringir-lhe a boca
Tu forças o desabrochar de uma rosa
Só porque lhe parece um tanto tentadora?

Apenas rogo-te que não queiras sentir deste âmbar
Se não forem puras as tuas orações
Te lembres que pétalas tais estão esmuiçadas
Como que resto de alimento a leões...


Escrito em 04/VI/2007

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Deliberados





Não te quero de apetites comedidos, amor

Não sei pecar só

sábado, 10 de julho de 2010

Sinergia (a Anike)

"isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além"
(Paulo Leminski)


Sempre tive medo
de tatuar palavra,
tem-se já tanta
e t e r n i z a ç ã o
E pintura é coisa
mais subjetiva,
combina mais
com esse paradoxo
que é cravar na pele
um sonho

Sempre tive medo
de banalizar,
Então, você sabe,
Teria de ser aquela
que tudo encerra,
a morada dos inefáveis
seres d'além daqui

E não é que você achou
a melhor palavra do mundo?

p.s.: Não te contei ainda
mas sonhei com você

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Relativismo

Temos todos pernas finas
Não vigorou-se a fibra forte
de pernas boas para a vida
Um irmão que esconde a finura
em camadas e camadas adiposas
Uma irmã que finge e se aprimora
para sua vaidade virar músculo

Só meu pai e eu assumimos
essa finura tão dura e recalcada
que contemplamos a nós mesmos
neste não gastar de corpo
que é não dizer,
que é bater de portas

Mas um dia o mundo explode
(Um dia o mundo explodiu)
Mas um dia o mundo explode
Outra vez

...E minha mãe exibe grossas pernas
de carregar casa no lombo

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Tarde inoculta

Mais sabe você do que os que me chegam antes pelos olhos.
E mesmo a pintura que eu mesma produzi tem seus traços a delinear por cima.
E sinto gratidão ou frenesi ou um tanto dos dois, se afinal ainda prevalece a vaidade (de que me leiam), ou do contrário encerraria-me outra vez numa alcova de palavras murchas.
Mais sabem os como você do que os que invadem-me o círculo delicado da pessoalidade, sem que eu consinta, por forças naturais que não as minhas.

Não me deixe desaparecer!
Tendo a escrita como causa maior, não existo porque escrevo, existirei se me lerem...

Não tenhas dúvida da poesia disso tudo.