quarta-feira, 22 de janeiro de 2025
segunda-feira, 23 de dezembro de 2024
Fevereiro, 2023
Escrevo este exercício para me ajudar a não retroceder
Eu estou tentando sair de um relacionamento abusivo porque
Eu não sou a mulher que ele quis me fazer acreditar que sou
Nenhum homem deve tentar alterar ou moldar a percepção que temos sobre nós mesmas
Eu estava anulando minha individualidade
Eu não me sentia plenamente livre
Eu fui desrespeitada muitas vezes
Eu jamais soube dos meus limites
Por isso eles foram tantas e tantas vezes atravessados por todos
Eu me sentia profundamente sozinha
Eu naturalizei a violência que sofro
Ele usa a minha vulnerabilidade contra mim
Ele me enxerga como uma criança desamparada
Ele usa tratamento de gelo ou hostilidade como punição por comportamentos meus
Ele gosta de estar no controle e de sentir que tem poder sobre mim
Ele me acusa de praticar os abusos que ele faz
Ele invadiu minha privacidade mais de uma vez
Eu estou ansiosa em todo esse processo
Ansiosa e confusa, insegura, nervosa, machucada, raivosa, triste
Sem saber como não deixar que ele me acesse
Como se isso fosse impossível
domingo, 22 de dezembro de 2024
Moro num país de terras quentes. Cresci entre o cerrado e a lonjura do mar, na mágica Bahia. Anuncia-se hoje a chegada do verão e as pessoas procuram se despir da dura casca que lhes oprimia os desejos. O verão é um convite para uma vida mais vermelha. Mas eu não posso fazer parte disso. Não posso agora rir de uma vida desgraçada que se arrastou pelo ano, porque não a tive. Não posso finalmente retirar o sutiã para respirar, porque, esse ano, nada me prendeu. Eu não posso me despedir de uma dureza que não esteve comigo. Eu fui verão o ano todo.
Dizem que os bons sentimentos não produzem bons poemas. E eu lhes digo que cada poema estará impregnado do sumo da alma de cada poeta, todos têm seu sabor. Essa é a beleza. Eu só posso entregar-lhes poemas doces, morangos pelos campos, pêssegos aveludados, mangueiras carregadas, maçãs banhadas de luz, é assim que me sinto. No meu país, não anseio pela chegada do verão, porque fiz do meu coração um sol. Quando chove, fico a olhar o arco-íris.
terça-feira, 3 de dezembro de 2024
Hoje, cheguei em casa, joguei as chaves, sentei-me para afagar o cachorro. Veio minha filha, ela comia uma espiga de milho cozido. Olhei-a. Um lado de seu cabelo pendia suavemente atrás da orelha, ela estava ocupada a comer, grão por grão, distraída, tem seis anos de mundo apenas e já tanta destreza. Meus olhos encheram-se de uma emoção incontinente. E meus pensamentos voaram pela plenitude do amor por aquela criança. Toda declaração que me veio à boca parou ali e eu emudeci. Nada seria o bastante.
Tomara que ela nunca se perca de mim, que eu não me perca dela, que eu não me perca de mim tentando não me perder dela, tomara que ela nunca se perca de si.
Fui imensamente feliz naquele momento, brincando com o cachorro, uma espiga e minha filha. Apareceu, então, uma breve melancolia ao olhar para meu passado, vendo-me nela, uma menina adorável e inteligente, grande e linda. Refiz o percurso como quem perde um brinco no parque, procurei-me. Tentei saber em que ponto eu deixei de ser uma criança amada para me transformar numa mulher. Na medida em que eu deixei de ser uma sombra, meus pais ficaram para trás, sem saber como lidar comigo. Cada vez mais, e mais, até me desconhecerem, até se tornarem estranhos.
O que posso eu fazer para que minha filha nunca precise pagar este preço?
Não há garantias. Posso amá-la ferozmente e devotar toda a minha alma em seu crescimento. Não há garantias. Por isso, cada hora ao seu lado é dourada.
domingo, 10 de novembro de 2024
Triste, louca ou má (Feliz, sã e boa)
Estou escandalosamente feliz
A única coisa que agora se difere
das outras épocas da minha vida é a minha liberdade
Estive comendo apenas as bordas
Era doce
Contentava-me
Hoje, não
A única coisa que agora se difere
das outras épocas da minha vida
é que não tenho um homem
Ou melhor
Nenhum homem me tem
Os homens retiravam a minha vitalidade
Ocupando-se largos nos meus espaços
Sugavam toda a energia do meu coração
para depois clamarem:
Nossa, como você está vazia!
Preciso levar às mais jovens essa babilônica desmistificação
É bastante improvável que um casamento lhe traga qualquer porção de satisfação consigo mesma.
Não queira ser escolhida
Escolha!
Não queira apenas servir
Faça da tua vida um banquete!
É preciso reger o próprio destino
É preciso reivindicar seu corpo como seu território
É preciso pertencer a si mesma
É preciso saber as suas querências
para, então, persegui-las.
É preciso decidir
Conhecer-se, profundamente e em cada dia
E traçar um mapa,
com seus limites bem demarcados
Para que ninguém os atravesse
É preciso saber quem se é
Longe dos outros
Estes casamentos romântico-monogâmicos,
Minha querida,
São gaiolas
Repletas de plumas, almofadas e diamantes
falsos
Tão confortáveis gaiolas
Não se esqueça para que servem.
segunda-feira, 21 de outubro de 2024
Quando estamos com o outro, inevitavelmente, nos distraímos de nós mesmas
É fundamental entender esse advérbio enfaticamente destacado.
É fundamental, mulher, entender que não te podes perder de vista.
O caminho de volta, marcado outrora com migalhas de pão, deve ser ladrilhado com brilhantes
Não te percas de ti
Retorne sempre e sempre
Recorde
Traga de volta ao coração a verdade:
O respeito pela sua inteireza deve ser maior do que o afã por ser amada.
domingo, 22 de setembro de 2024
Lições de Tudo sobre o amor
Escrevo este poema para deixar registradas as lições de bell hooks sobre o amor.
É isto que me encanta e mais me interessa nessa fase da vida, em que tudo está voltado para me reerguer, em que há o chamamento imperioso de ser eu, é isto a que me dedico, e apuro os ouvidos quando vejo passar: o amor, sua substância, o vértice da felicidade humana.
Amar é fazer, amar é ação, amar é escolha.
Carinho e afeição são outras instâncias, derivados do amor.
Abuso e amor não coexistem.
Ou seja - e isso é de uma dureza quase indizível -
a minha mãe não me amou
Não a ensinaram - amor se aprende -, deturparam seus caminhos, a cultura, seus pais, seu marido.
Amar é deixar que cresça o espírito, em sentidos mais amplos que não os puramente religiosos.
A minha mãe não me amou.
Posso dizê-lo.
E isso não a torna uma mãe terrível. É libertador compreender a inexistência de instinto materno, a ausência da obrigação amorosa de uma mãe para com um filho. Amor se constrói, com vínculo, honestidade e compromisso.
A imprescindível verdade que preciso ter comigo mesma me faz enxergar, pela primeira vez, que minha mãe não tinha obrigação alguma de me amar. Embora tenha tentado de todas as maneiras viáveis.
Preciso da constatação que agora me surge para seguir adiante, não será necessário perseguir aquilo que não obtive na infância. Minha mãe não teve recursos para ir além da curva, suas raízes não encontraram espaço para firmar sombra mais larga. Não. Era impossível, seu pai ordenava que as crianças não chorassem, enquanto a mãe ninava-as no chão duro das noites intermináveis da roça, tapando-lhes a boca para que não acordassem o homem. A minha mãe nunca foi respeitada enquanto pessoa, nada estava a seu favor, ela é como o que sucedeu à minha amiga Joana, apenas o resultado de simples e complexas equações.
Eu não. Eu tenho tudo sobre o amor. Eu pari uma criança em casa, eu me divorciei de um narcisista, eu sou poeta, tenho copa de flores vivas, sombra até bastar, tenho um mar de paciência para Serena se banhar. Eu sou diferente da minha mãe. Não melhor, apenas um tanto diferente. Eu não estou somente fora da curva, eu a desenhei com meus próprios punhos.
domingo, 30 de junho de 2024
Amar e mudar
É um caminho árduo esse de voltar para si mesma, sempre e sempre. E inadiável, na mesma medida. Preciso estar comigo e preencher-me de mim. Preciso ser-me compassiva e justa, preciso me adorar e me respeitar. Para isso, às vezes saio de mim e me observo, por que me comportei em desacordo com aquilo que eu mesma decidi? Por que me deixei desprotegida, entregando vulnerabilidade a quem claramente não merecia? Por que eu ofereci o pescoço para a frieza da lâmina destes homens? O que me fez criatura tão incauta?
E, como um princípio de resposta, acende-se no meu peito o desejo voraz de ser amada. Por que o amor me faz existir. E eu vivi longos anos em escassez. Ser vista, ser ouvida, ser enaltecida, ser cuidada, ser acolhida para então sentir o deleite único de ser amada. Mas o outro não me pode amar se do outro depender a minha existência. O amor não pode ser a total recusa de si mesmo. Então desloco o amor desse lugar, removo, recrio, ressignifico. Então eu me vejo, e com olhos doces, eu me ouço, e com ouvidos mansos, eu me enalteço e cresço, árvore imponente, eu-mãe, olhando no espelho de dentro, cuido de mim-criança, finalmente posso cessar essa busca desesperada. Eu me amo e existo. Sou a deusa do meu mundo. Aqui recomeço meus pequenos grandiosos milagres, amar e mudar.
domingo, 19 de maio de 2024
Devo aos meus pais
os maiores ensinamentos.
Aprendi o que não fazer com minha filha.
Vou conhecer o seu modo de se sentir amada
e persegui-lo até o fim da vida.
Talvez meu amor por ela seja tão forte
porque vem fundamentalmente daquilo que não tive,
Talvez tudo isso que me move
tenha nascido do mais profundo desamparo
sábado, 11 de maio de 2024
Quando vejo um poema muito poderoso, muito vigoroso, que faz meu corpo vibrar por dentro e me devolve a vida, não posso deixar que só meus olhos passeiem por esse poema, preciso trazer aquelas palavras à boca, por isso digo o poema para o mundo, por isso transcrevo esse poema, porque quero tocá-lo com as mãos - estou chorando ao dizer tudo isso em voz alta - e este é o fundamento de toda a minha existência.
