Que tu sabes, chérie? Que tu sabes dos lírios das falas dos loucos? Dos simulacros perdidos pelas veredas dos livros? Que tu sabes destas unhas cravadas de intertextualidade? Quem és? Que sabes? Esse teu miolo anêmico ainda aventura-se por minhas “cópias”? Oh reencarnação de Platão! Redizer é preciso?
Amigos, amigos! Rebeldes, rebeldes! Vedes quem povoa meus pergaminhos? Surjam cabeças brilhantes! Pois a ignorância está a espreitar os nossos ditos. NIB, oh NIB, caros pseudos, pequenos fajutos, eis que a insânia vem trepar na tinta dos meus papéis.
Sabes que muito te prezo, senhora, senhorita? Teus relógios contam a mais que os dos outros mortais. Ora pois, tantas letras descortinaram-se para inúteis dilações. E tanto ódio gratuito requer longa generosidade.
És um ente? Um humano, um fiscal, um jornaleiro, um asno? És um olho, um olho órfão, pobre olho remelento! Oh, revelais-me! Em que mísero pó reduzi-me após teu feito miraculoso! Ai de mim, ai de mim! Nunca mais meus pés desfilarão pela Academia. Toma-me o repúdio pelos roubos tantos! Tornei-me inseto diante de teu preciosismo de jornalista, muito digno! Os deuses terão-me por ladra? Os deuses salvar-me-ão? Ai de mim, ai de mim! Acolho-me em teus “amplexos” inundada pelos meus prantos gigantescos. Que será desta vã poeira dos pés de Purusha? Vosso título – este cabeçalho de ideias mirabolantes – terás de volta, está entregue, leve-o Minas Gerais!
Depois dessas confissões, farei-me uma alma pura. Nunca mais, nunca mais! Ai de mim! Então, destinatária. Descanse agora tua xícara no pires, arrase essa gana pelos infernos alheios, encerre o aperto neurótico de tuas articulações. Veja quanto júbilo se engrandece em teu moquifo. Envio-te todos os aplausos do Copyright. Quem sabe honra ao mérito. Mas que feito, que feito! Mereces uma chuva de medalhas!
Vejam, caros! Mais alguns minutos de risos: A cortesã de globos curiosos é exaltada por esta réles artesã.
Diga-me, Chérie! Tu sabes o quão doce é o sabor d’um caralho? Tu sabes quão macia a epiderme de um membro em riste? Tu sabes, tu sabes do contato térmico entre o frescor d’uma boca faminta e a brasa aflorada d’uma glande? Ah, mas que “lástima”! A virgem cortesã aflita por carne quente. Digo-te segredamente: enfies uma boa no que teu de mais atesourado, verás tuas vis perseguições afogadas em fluido branco, verás cessarem teus devaneios doentios. Essas rabugices? Ah, um remédio inefável!
Quantos risos, quantos risos! Esconjurado seja Pessoa e seus navegantes! Quantos risos! Mas não censuro-te velha cortesã. Que admirável bolar tão exímio argumento (erguido em galhos de alecrim). Juro-te! Convenci-me de ter efetuado tudo o que julgais em teus relatos. Quantos risos, quantas palmas!
Congratulações à ilusória cortesã dos “alguêns”!
Estimadamente, a boa e velha plagiadora.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Poetar é preciso I
Bitencourt de imbecil não tem dono.
Ainda consigo me impressionar com o tamanho da ignorância e falta de conteúdo de alguns seres humanos, seres que portam pensamento (juram, pelo menos) e partindo dessa premissa, se acham no direito de devassar a intimidade e fantasia alheia. O melhor de tudo é que alguém que se diz escolarizado e conhecedor mínimo de alguma teoria literária põe em cena um dos conceitos mais obsoletos dessa: A originalidade, a autoria. Autoria? Poetar é preciso? Acho que já vi algo parecido antes, e, com certeza, não foi em blogs mineiros.
Mas, já que a intolerância (ou seria ignorância?) literária se faz presente aqui, devo listar um série de autores que devem URGENTEMENTE serem condenados ao ostracismo literários. Vou começar com o grande escritor Guimarães Rosa, um fraude, acusado pela ditadura do péssimo senso de ser um grande plagiador da obra de James Joyce, tem também as inúmeras intertextualidades do Poeta Gauche, que “pegando emprestadas” inúmeras referências clássicas, abrilhantou ainda mais a sua obra, e o que seria Oswald de Andrade e suas paródias? Digno de guilhotina não? Eu poderia passar a eternidade listando uma série desses autores “dignos de pena”, mas contrariando e plagiando os blogs alheios: Viver é preciso, aprender, mais ainda.
Ellen, minha queridíssima e fantástica arquiteta das palavras, a sua poesia vai além de qualquer conceito falho e clichê, a sua bagagem literária não tem espaço para ordinárias cópias de blogs alheios. E se a qualidade de um blog deve ser medida por determinados selos (Blogueiros de plantão, cuidado com as fraudes!), eu te dou o meu selo: ESSE BLOG É IMUNE À IMBECILIDADE ALHEIA, ele sustenta-se só e apoiado em um enorme bonde cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas, jamais pernas tortas.
Navegue sempre, minha doce e fabulosa escritora de 19 anos, mesmo que os ventos da burrice queiram soprar seu barquinho na direção contrária. Você é maior que isso.
N.M.
Ainda consigo me impressionar com o tamanho da ignorância e falta de conteúdo de alguns seres humanos, seres que portam pensamento (juram, pelo menos) e partindo dessa premissa, se acham no direito de devassar a intimidade e fantasia alheia. O melhor de tudo é que alguém que se diz escolarizado e conhecedor mínimo de alguma teoria literária põe em cena um dos conceitos mais obsoletos dessa: A originalidade, a autoria. Autoria? Poetar é preciso? Acho que já vi algo parecido antes, e, com certeza, não foi em blogs mineiros.
Mas, já que a intolerância (ou seria ignorância?) literária se faz presente aqui, devo listar um série de autores que devem URGENTEMENTE serem condenados ao ostracismo literários. Vou começar com o grande escritor Guimarães Rosa, um fraude, acusado pela ditadura do péssimo senso de ser um grande plagiador da obra de James Joyce, tem também as inúmeras intertextualidades do Poeta Gauche, que “pegando emprestadas” inúmeras referências clássicas, abrilhantou ainda mais a sua obra, e o que seria Oswald de Andrade e suas paródias? Digno de guilhotina não? Eu poderia passar a eternidade listando uma série desses autores “dignos de pena”, mas contrariando e plagiando os blogs alheios: Viver é preciso, aprender, mais ainda.
Ellen, minha queridíssima e fantástica arquiteta das palavras, a sua poesia vai além de qualquer conceito falho e clichê, a sua bagagem literária não tem espaço para ordinárias cópias de blogs alheios. E se a qualidade de um blog deve ser medida por determinados selos (Blogueiros de plantão, cuidado com as fraudes!), eu te dou o meu selo: ESSE BLOG É IMUNE À IMBECILIDADE ALHEIA, ele sustenta-se só e apoiado em um enorme bonde cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas, jamais pernas tortas.
Navegue sempre, minha doce e fabulosa escritora de 19 anos, mesmo que os ventos da burrice queiram soprar seu barquinho na direção contrária. Você é maior que isso.
N.M.
domingo, 5 de abril de 2009
Sacramento
... e conversamos sobre plenitude como quem descobre pérola dentro de concha. Porque tens esse hálito e a cumplicidade desanuvia minhas horas, já somos e não sou mais. Por esta dor firme de ter em mãos um esboço árduo, que nem sequer reproduz um Nós, sou-te e és-me.
Por jamais outro ser... por transformado em mel... Pelo pêssego e pela mão e pelo peito estamos acima do que nomeiam paixão. E pelo desnorteio que essa infinitude causa, a condição pequena de humanidade e defeitos, quase loucos ficamos, porque não somos deuses. Somos duas perguntas. Nosso pecado é a bondade.
A ausência de ar não mais sufoca. Imersa numa profundidão, já não busco a superfície, em minhas vias circula tua água serenada. Meu dia lhe tem sem teres meu dia, pois este templo não se mais pode desvencilhar dos olhos teus. Temos o tempo enlaçado aos nossos dedos. A que provações nos segredaram os espíritos?
sábado, 28 de março de 2009
Uma mulher que passa
Meu Deus, porque esta mulher que passa
De dorso frívolo e expressão vazia
Sem cor nos cabelos
Chamou-me os olhos?
Será teu semblante?
Um nada...
Tua boca pendida
E o lábio inerte?
Será Deus, minha busca?
Confundindo tais passos na relva
Com o adeus dos pássaros ocultos?
Meu Deus, porque esta mulher que passa
Não suscita-me um verso eloquente?
E insiste meu dedo em persegui-la?
Pô-la em lugar que não merece?
Será teu andar que não diz?
Será teu braço dependurado?
Será Deus, minha busca
Pelo nada transfigurado?
Meu Deus, instigai-me pela mulher que passa!
P.s.: Aula de Criação Literária (Captura de um instante)
De dorso frívolo e expressão vazia
Sem cor nos cabelos
Chamou-me os olhos?
Será teu semblante?
Um nada...
Tua boca pendida
E o lábio inerte?
Será Deus, minha busca?
Confundindo tais passos na relva
Com o adeus dos pássaros ocultos?
Meu Deus, porque esta mulher que passa
Não suscita-me um verso eloquente?
E insiste meu dedo em persegui-la?
Pô-la em lugar que não merece?
Será teu andar que não diz?
Será teu braço dependurado?
Será Deus, minha busca
Pelo nada transfigurado?
Meu Deus, instigai-me pela mulher que passa!
P.s.: Aula de Criação Literária (Captura de um instante)
sexta-feira, 13 de março de 2009
Ao Pai: Açucena
E depois que todos os poemas desenham teu nome
Tu vens metrificar a brancura da luz da pérola
E contar os grãos do corpo
Esquentar os pães dormidos
Sufocar-me de novo
Não compreendes o limo que escorre de meu útero
Nem os copos de vinho entornados de manhã
Os copos descartáveis de vinho entornados de manhã
Os copos necessários de vinho entornados amanhã
A sangria de que não me quero alimentar
Que tu comes lambuzando os beiços
E a engoma das tuas golas das roupas
A engoma gritante das calças curtas
Clamando-me que lhes arranque as bordas feitas, alinhavadas...
Dize
Que não me devo abusar do mesmo sexo
Mundanas coisas, materiais apenas
Se, contudo, vede!
Já beijei a açucena
Favo quente que não amargo como sêmen
Pétala de leite
Que não trazes em corpo teu
Não trago
Como tragas o universo
Pois tudo que for inútil
Cabe arrastado nos meus (in)versos
Tudo que não te diz
Diz tudo em palavra minha
A efemeridade da flor cravada em minhas ancas
Que tu não foste capaz de colher
Não percebes as estações do ano
Não te comoves com as crias dos animais
Não te sabes o que é um horizonte
Não te existe o abstrato nas folhas do tempo
Nem ramos de amor
No teu vento
Atiras-me ao ridículo
Do teu miolo inconsistente
Afeiçoastes, sou alimento
Tragam-me gesso pra este pobre coração mole!
Teu nome desfez todos os poemas
Tu vens metrificar a brancura da luz da pérola
E contar os grãos do corpo
Esquentar os pães dormidos
Sufocar-me de novo
Não compreendes o limo que escorre de meu útero
Nem os copos de vinho entornados de manhã
Os copos descartáveis de vinho entornados de manhã
Os copos necessários de vinho entornados amanhã
A sangria de que não me quero alimentar
Que tu comes lambuzando os beiços
E a engoma das tuas golas das roupas
A engoma gritante das calças curtas
Clamando-me que lhes arranque as bordas feitas, alinhavadas...
Dize
Que não me devo abusar do mesmo sexo
Mundanas coisas, materiais apenas
Se, contudo, vede!
Já beijei a açucena
Favo quente que não amargo como sêmen
Pétala de leite
Que não trazes em corpo teu
Não trago
Como tragas o universo
Pois tudo que for inútil
Cabe arrastado nos meus (in)versos
Tudo que não te diz
Diz tudo em palavra minha
A efemeridade da flor cravada em minhas ancas
Que tu não foste capaz de colher
Não percebes as estações do ano
Não te comoves com as crias dos animais
Não te sabes o que é um horizonte
Não te existe o abstrato nas folhas do tempo
Nem ramos de amor
No teu vento
Atiras-me ao ridículo
Do teu miolo inconsistente
Afeiçoastes, sou alimento
Tragam-me gesso pra este pobre coração mole!
Teu nome desfez todos os poemas
sábado, 7 de março de 2009
Menina dos olhos

"Deviam os mortais gerar os filhos de outra maneira, e não existir o sexo feminino. E assim não haveria mal para os homens."
(fala de Jasão em "Medeia" - Eurípedes)
Quando nasci, a enfermeira loura pediu-me ao pai: "Eu cuido, doutor, não conto não, fico caladinha! Ah que graça de menina!". Sabia mal o doutor José, quando reproduzia a velha história do deslumbramento da loura, o que lho tinham feito com a pobre criança no tal hospital.
Sete e um, horário do nascimento, a loura enfermeira anotara. "Até que tá sem lua, será que chove?". O médico, indiferente ao comentário, pede-lhe o alicate. Porque sim, foi com alicate que invalidaram minhas cordas vocais, com alicate e injeções. Eu me lembro. Puxaram-me da barriga, arrancaram as entranhas e logo estava na sala do final do corredor. Cirurgia simples, pois! "Outra fêmea com voz? Jamais!"
A mãe não gritou na mesa do parto, sua mesma anestesia me deram pra enclausurar as pontas ácidas do alicate em minha garganta. Eu só chorei, mas me silenciaram. Arregacei os braços pro mundo, o mundo me deu silêncio.
Abri os olhinhos, feridos ficaram. Eu gritava porque tinha medo, quiseram abafar. Supliquei. Porque não os olhos? Eles doem, não minha voz! Mas a bocarra não se mexeu por trás do pano. Meus olhos dariam-me duzentos pares de lágrimas naquela noite. E dois mil pares pra diluírem as palavras pelo resto da vida. "Acordo lógico", pensou, "tiro-lhe a fala, mas não vês que tens um lindo par de citrinos?" Vai-se voz, ficam-se lágrimas. As meninas dos meus olhos...
Não te podes falar, mantenhas-te calada. Mal grado a teu dono se te serves primeiro, se te pores à mesa um passo antes que todos. certas coisas se separam por natureza. Veio Eva para servir, viera Adão para ordenar. Pois tu, diabo em forma de mulher, tens reprimido o falo que te nascerias, tens repartido o vértice das pernas para jorrar sangue impuro e luxúria. És toda um adorno de sedução para que caiam em desgraça todos os homens d'ouro. Por isso, nada mais justo. Cortem-lhe pois, ao nascer, os dois músculos responsavéis pelo diálogo, porque mulheres são dadas como cães, quem de natureza submissa não precisa articular palavra alguma. Sem murmúrios enfeitiçados, dormiremos nós em paz. Se, contudo, as fêmeas se puserem a gesticular por demasiados minutos, agarrem-nas pelos cabelos e as façam calar o teu silêncio. Quando teimosas, raro rebeladas, soquem-lhes as pálpebras, sendo de preferência pelos machos de sua estirpe, de maneira que imobilizem-nas por completo, pois toda cadela comporta-se quando da ausência de linguagem oral.
Encapuzaram-me com vários panos perfumados. Só os citrinos cintilavam arregalados. Primeiro pedaço de rua: a saída do hospital. Primeira aparição ao sol: meu único sorriso. Depois um carro muito branco e um talho de uma casa estranha. Chegaram-me. Uma babá novinha aparou-me nos braços finos. "Oi, princesa!" Não respondi. Muitas cores, vários colos, alguns dias.
Mamãe não sabe do meu padecimento? - O médico roubou meu choro! - Foi o que disse, mas ela sorria. Porque? Então gritei com o olhar, nenhum sinal. A babá desconfiou, nunca havia ouvido um ruído, mas ela tinha cuidados maiores que os meus. "Dona Bia que é Dona Bia nunca reclamou."
Os pais nunca ouviram meus soluços, mas também não perguntaram porque.
P.s.: Homenagem ao dia da mulher
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Depois
"O prazer é compreendido a partir da relação da neurose leitora com a forma alucinada do texto"
(Roland Barthes)
Aí eu me intimidei
E os olhos expectativos
Trataram de cortar as asas minhas
A busca vã da rima com 'desejo'
É pobre ou rico
O verso?
Mas nasceu comigo
Vou lamber umas letras
E só
Aí me intimeidei eu
E vou encher aqui
Pra esquecerem o efeito
Vou reavivar um pisco
Que eu sou muito
Sou muito
Muito pouco
E já vou desistindo do texto
(Dizem que é homicida!)
Aí tracejo umas vinte vezes
A imperfeição
Depois eu como um pão
Com os dedos
Aí eu vi comida flutuando no sabão
Então depois...
Depois eu continuo
Não, hoje não sou pernóstico
Sabe, tem muito ar aqui dentro
Atrapalha
E minha falha.
E minha falha?
Juro! Foi sem intenção
Depois eu como um pão
Com os dedos
Não tem uma porra duma bula
Então fica assim mesmo
Depois eu
Como um
Pão com
Os dedos
(Roland Barthes)
Aí eu me intimidei
E os olhos expectativos
Trataram de cortar as asas minhas
A busca vã da rima com 'desejo'
É pobre ou rico
O verso?
Mas nasceu comigo
Vou lamber umas letras
E só
Aí me intimeidei eu
E vou encher aqui
Pra esquecerem o efeito
Vou reavivar um pisco
Que eu sou muito
Sou muito
Muito pouco
E já vou desistindo do texto
(Dizem que é homicida!)
Aí tracejo umas vinte vezes
A imperfeição
Depois eu como um pão
Com os dedos
Aí eu vi comida flutuando no sabão
Então depois...
Depois eu continuo
Não, hoje não sou pernóstico
Sabe, tem muito ar aqui dentro
Atrapalha
E minha falha.
E minha falha?
Juro! Foi sem intenção
Depois eu como um pão
Com os dedos
Não tem uma porra duma bula
Então fica assim mesmo
Depois eu
Como um
Pão com
Os dedos
domingo, 28 de setembro de 2008
Feliz Aniversário
Vieram-me saudar
O despertar provocado pela dor óssea, o líquido celular dos intumescidos olhos marejados, a água e suas partículas, bocejos enfadonhentos, excreções desnecessárias, odores fujões, cheiro de bolo doce, risinhos, Cosme e Damião, contatos físicos estranhos, declarações não-forçadas, amido salgado, leite esquálido, pães muchibentos, umas doze vozes cantantes, panos umedecidos, pratos a tilintar, detergentes, espuma, cheiro enjoativo de côco (escorrendo como porra no emaranhado sujo), cinco presentes, quatro ligações, uma supermercado, duas reclamações, alguns juízos desejados, dinheiro, verduras frescas e bem-vindas, gosto de hortelã, votos virtuais, Aurora de róseos dedos, o judicioso Alcínoo, o divino Odisseu, Aquiles, Atena, Apolo, Elatreu, desinfetantes, flanelas, vassouras, pás, paredes, pias, poeira, escovas, esponjas, vidros, tapetes, dimensões terceiras, tédio renitente, distâncias proclamadas e tristes, nó de garganta, embirramento, conclusões espersas, horas, perdas, surpresas falsas, reprovações, impermissões, substantivos pesados, chocolate pegajoso assemelhando-se a excrementos, bolo de água-ardente, engolimentos, sorriso rasgado, literatura fajuta, desenhos de luz solitários, uma festinha de lágrimas.
Tão cabisbaixa que feliz, tão taciturna que feliz, tão não-lugar, tão não-aqui que feliz, de chorar.
Esfarelar-me-ei nas ironias dos melhores dias das décadas incompletas...
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Poema Sujo
Tinha os traços cortados de um rosto imediatamente feroz
E lâminas desperfiladas correndo entre o maxilar varonil
Uma boca determinada no vértice dum crânio vil
E uma fina, escassa e vazia voz
Violentar-nos-íamos em labaredas asquerosas
Cobertos dum amor falso e friável
Era mais por fincar o que nos fosse proibido
Antes me fosse um pouco mais maleável
Teria-me diluído num frasco de absinto
Sem haver de perceber quão odioso o era
Palavras desperdiçadas num ouvido imundo
E uma língua grotesca a relatar fatos sucintos
Sua estranha beleza pérfida
Há muito não povoa, provoca ou pede
Apenas reduz-se a linhas vagas
Esquecidas, ínfimas, se perdem
O inodoro cuspe escorre lancinante numa outra face
E lâminas desperfiladas correndo entre o maxilar varonil
Uma boca determinada no vértice dum crânio vil
E uma fina, escassa e vazia voz
Violentar-nos-íamos em labaredas asquerosas
Cobertos dum amor falso e friável
Era mais por fincar o que nos fosse proibido
Antes me fosse um pouco mais maleável
Teria-me diluído num frasco de absinto
Sem haver de perceber quão odioso o era
Palavras desperdiçadas num ouvido imundo
E uma língua grotesca a relatar fatos sucintos
Sua estranha beleza pérfida
Há muito não povoa, provoca ou pede
Apenas reduz-se a linhas vagas
Esquecidas, ínfimas, se perdem
O inodoro cuspe escorre lancinante numa outra face
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
O Pintor
Tudo começou num desenho
A coxa que subia aveludada
O busto rosado comovente
O pincel correndo suave sem desatentos
Até o pormenor do pêlo crespo contrastante
O rosto memorizando miudezas
Os olhos apalpando a nudez
Ele mira, a boca seca
A moça intacta e sua pele reluzente
Os cabelos mal cobriam-na
Seu lábio duro
Ainda insiste: é arte!
Ele perscruta-a como jamais
A moça irrequieta...
Mais uma pincelada amortece mitigante
Uma pausa, outro olhar
A moça compreende confusa
Solta os lençóis vermelhos
E desce...
A coxa que subia aveludada
O busto rosado comovente
O pincel correndo suave sem desatentos
Até o pormenor do pêlo crespo contrastante
O rosto memorizando miudezas
Os olhos apalpando a nudez
Ele mira, a boca seca
A moça intacta e sua pele reluzente
Os cabelos mal cobriam-na
Seu lábio duro
Ainda insiste: é arte!
Ele perscruta-a como jamais
A moça irrequieta...
Mais uma pincelada amortece mitigante
Uma pausa, outro olhar
A moça compreende confusa
Solta os lençóis vermelhos
E desce...
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