Preciso que a cor rosa
Fosse feita apenas para o céu
Mas já puseram-na às roupas
Revolto-me
O ser humano não havia nunca
De alcançar as cores que só na natureza.
Então num milagre olharíamos
O céu roxeado amarelo
E iríamos todos chorar
As boas aventuranças
Intento que há o fúcsia carmim colorado
que ninguém jamais tocará
está no útero de uma concha profundíssima
Dentro do navio
Do mais antigo naufrágio
Amanhã
Um velho pescador terá de volta na rede enroscadas conchas
Para abri-las com muito cuidado
Embora
Perceba que mais uma vez
Não pescara o segredo
A cor daquilo que não tem nome.
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Nunca mais produzi depois que se me deu
esta coisa chamada trabalho
Nunca mais uma estrela
ou palavra bravia
Todas as palavras estão mansas
Eu também
Acordo e um gosto amargo na boca
Não há tempo
Tudo diluiu-se na concretude
Tudo dissipou-se e é dureza
A vida é maquinal
O tempo, este é surdo
Não cabe o teu anseio,
teu anseio é fraco e pequeno
e triste o destino das horas
A mulher cansada
O homem cansado
As pessoas cansadas voltam
e não fazem amor
Um senhor morreu esfaqueado
A tragédia alimenta as famílias do país
É preciso extrair do homem
todas as suas únicas forças
E dar-lhe sangue alheio
dar-lhe vida pela morte do outro
Os homens são infelizes
e odeiam as segundas-feiras
Nunca mais viveremos
depois deste fardo
Pisaram na flor nascida na calçada
Ninguém a notou
Como é triste morrer deste modo.
esta coisa chamada trabalho
Nunca mais uma estrela
ou palavra bravia
Todas as palavras estão mansas
Eu também
Acordo e um gosto amargo na boca
Não há tempo
Tudo diluiu-se na concretude
Tudo dissipou-se e é dureza
A vida é maquinal
O tempo, este é surdo
Não cabe o teu anseio,
teu anseio é fraco e pequeno
e triste o destino das horas
A mulher cansada
O homem cansado
As pessoas cansadas voltam
e não fazem amor
Um senhor morreu esfaqueado
A tragédia alimenta as famílias do país
É preciso extrair do homem
todas as suas únicas forças
E dar-lhe sangue alheio
dar-lhe vida pela morte do outro
Os homens são infelizes
e odeiam as segundas-feiras
Nunca mais viveremos
depois deste fardo
Pisaram na flor nascida na calçada
Ninguém a notou
Como é triste morrer deste modo.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Vinicius e eu
Mas é claro que te amo
e a vida é doce e infinda,
A morte não existe
vamos viver nas luminárias
dois pirilampos febris.
É claro que o amor é tudo
e tem cheiro de tangerina,
estamos predestinados
e a alma de Zeus
respira suave
em tudo quanto existe.
É claro que te amo
e sou tudo,
Mas acontece que eu sou feminista.
e a vida é doce e infinda,
A morte não existe
vamos viver nas luminárias
dois pirilampos febris.
É claro que o amor é tudo
e tem cheiro de tangerina,
estamos predestinados
e a alma de Zeus
respira suave
em tudo quanto existe.
É claro que te amo
e sou tudo,
Mas acontece que eu sou feminista.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Aos poetas que conheço, pois é difícil acreditar.
Um único fanatismo é cabível, que é o fanatismo da poesia. Não se pode ser cego de tua luz, nem desamparado por tua lacuna, se ela não há. Pode-se dormir nos silêncios do poema, descansar-se. Mas então, quando o silêncio fica prenhe, como eles disseram, a origem da vida se desprende mais uma vez da poesia. Cada célula, acordada, retoma seu fardo de produzir milagres.
Tudo é criado porque vive o poeta. Tudo que está, tudo que é além. Tudo renasce e remorre pela palavra. As palavras que correm na seiva mais remota, que estão, ainda puras, no sangue das flores. Tudo isso que permanecerá adiante da morte do último sopro de vida é a poesia. A junção dos tempos e dos mistérios, a casa dos seres arcaicos, a Fonte, o vértice. Uma criança está sendo nutrida no ventre da eternidade, chamam-na criança primordial.
Enquanto isso, num pequeno planeta perdido na maestria do espaço, um poeta chora amargamente diante de uma tela fria. Está cansado de uma vida de desistências, sua alma lhe diz que deus relegou-lhe o mais impossível dos impossíveis. Existe uma coisa chamada dinheiro que vai destruindo tudo que se ama. Seu desejo é serenidade e imensidão, no entanto, uma verdade secreta diz que há os que nascem unicamente para chorar. Pensa em cortar os pulsos e entregar-se ao mar. Como é triste perceber, meu deus. As lágrimas dos poetas dão movimento a todo o universo.
sábado, 19 de outubro de 2013
Poema - O Pagador de Promessas
Uma promessa foi feita
para a vida de um burro salvar
por um homem simples e ingênuo
com uma cruz a carregar.
Ao lado de sua esposa,
caminhou sem descansar
e ao chegarem na Igreja,
enfim, não puderam entrar.
O pobre Zé do Burro,
ao ver seu amigo quase morrer,
viu-se tomado pelo desespero
e a Iansan foi recorrer.
Assim como o Senhor Jesus
em suas costas pôs uma cruz,
Mas como poderia Zé saber
que sua promessa não seria cumprida
que sua fé seria traída
e que a sua espera
estava somente o sofrer?
Fecharam as portas do seu destino tão desejado.
Então, Zé do Burro, incompreendido e revoltado,
decidiu o pé dali não arredar
até que sua cruz estivesse no altar.
O padre, tão rígido e intolerante
acusou Zé de um pecado presunçoso:
"Como um reles viajante
ousa imitar o filho do Todo Poderoso?
Esse tal de Zé
num terreiro de candomblé
diz ter alcançado uma graça.
Ele nada mais é
do que um demônio que se disfarça!"
Surgiram curiosos e aproveitadores
alguns riram, alguns eram defensores
alguns apostavam, outros questionavam,
mas ninguém sabia o que tinham passado
os dois que ali estavam.
Tentaram convencê-lo a não ir adiante,
preocupados com um desfecho pior,
mas a fé de Zé do Burro era tão grande
que nem a esperança o deixou só.
O drama de Zé do Burro
teve rápida repercussão,
vieram jornal, polícia e autoridades.
Estava armada a confusão.
Reinventaram sua história
o acusaram sem motivo e sem perdão.
Zé já não sabia o que fazer,
tentou se defender, mas foi em vão.
Circo armado e cerco fechado
caíram sobre o coitado
ouve-se um tiro dentro da multidão
Zé do Burro tem no ventre as mãos [...]
___________________________________________________
para a vida de um burro salvar
por um homem simples e ingênuo
com uma cruz a carregar.
Ao lado de sua esposa,
caminhou sem descansar
e ao chegarem na Igreja,
enfim, não puderam entrar.
O pobre Zé do Burro,
ao ver seu amigo quase morrer,
viu-se tomado pelo desespero
e a Iansan foi recorrer.
Assim como o Senhor Jesus
em suas costas pôs uma cruz,
Mas como poderia Zé saber
que sua promessa não seria cumprida
que sua fé seria traída
e que a sua espera
estava somente o sofrer?
Fecharam as portas do seu destino tão desejado.
Então, Zé do Burro, incompreendido e revoltado,
decidiu o pé dali não arredar
até que sua cruz estivesse no altar.
O padre, tão rígido e intolerante
acusou Zé de um pecado presunçoso:
"Como um reles viajante
ousa imitar o filho do Todo Poderoso?
Esse tal de Zé
num terreiro de candomblé
diz ter alcançado uma graça.
Ele nada mais é
do que um demônio que se disfarça!"
Surgiram curiosos e aproveitadores
alguns riram, alguns eram defensores
alguns apostavam, outros questionavam,
mas ninguém sabia o que tinham passado
os dois que ali estavam.
Tentaram convencê-lo a não ir adiante,
preocupados com um desfecho pior,
mas a fé de Zé do Burro era tão grande
que nem a esperança o deixou só.
O drama de Zé do Burro
teve rápida repercussão,
vieram jornal, polícia e autoridades.
Estava armada a confusão.
Reinventaram sua história
o acusaram sem motivo e sem perdão.
Zé já não sabia o que fazer,
tentou se defender, mas foi em vão.
Circo armado e cerco fechado
caíram sobre o coitado
ouve-se um tiro dentro da multidão
Zé do Burro tem no ventre as mãos [...]
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quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Não preciso de ti para viver, amor
Não preciso de ti para viver, amor. Se tudo acaba, acabo eu, mas tomo meu pulso e continuo a respirar. Não te preciso, percebi hoje, como o cego permanece mesmo apagados seus dois faróis. Estive tão confusa com as recentes descobertas que quase viro louca e começo a comer lixo. (Quantas ideias desvirtuadas a humanidade nos reservou!) Mas ao fim de certas crises existe uma serenidade de caramujo.
Morrer de amor é bom num livro de Gabo ou no Hypeness. Uma poesia grandiosa é também feita de morte.
Também não era morte o que se deu no meu peito quando escolhi partir. Não essa morte cristã cheia de trevas. Nunca a morte de uma estrela, irruptiva e absoluta. Não preciso de ti assim como os gatos podem perder as patas. A incrível felicidade de saber-se inteira, de saber nenhuma precisança. É muito pouco o que verdadeiramente precisamos, e iremos descobrir.
Queimaram todas as fórmulas, no entanto, sinto um caminho muito único dentro de um bilhão de galáxias, que é esse de ser inteira com você. Estou deixando de ser líquida para abraçar as certezas. A certeza recriada. Esqueça os corpos que passaram pelo meu, corpos são poeira. É certo que somos sozinhos no universo, sozinhos de não caber uns nos outros, está aí a razão de procurar cobrir a fenda da solidão humana. O mito é a forma que tenho de suportar a vida. Pensar o nosso umbigo como um nó de separação é o que me salva.
Preciso apenas acreditar numa verdade que não esteja em ruínas. Preciso abandonar o modo maniqueísta em que me puseram. Irei transbordar do meu corpo, é fato. Há vezes em que já não sinto os pés. Minha vontade é sorrir dentro dos teus olhos ao me transformar. E sentir mil explosões que jamais serão morte crescendo irresolutas. E posso divagar sobre a palavra 'sempre' e ter uma firmeza sem par. Nunca mais me senti atordoada. Estou deixando de ser água para poder abraçar deus. A única morte possível será a morte das necessidades.
Não preciso de ti para viver, amor. Apenas tenho a obrigação de destruir os românticos e não perdê-los. Podemos viver no meio das coisas todas recriadas. Numa fé que me redima de todo egoísmo que te fiz. O amor faz doer, mas não será dor puramente. Como íntima ordem de comando, tenho ainda aquela vontade de milagrosamente fazer uma pitanga viva dentro de mim que seja tua. Não te preciso para viver, te preciso para ser amor.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Há um céu só pra você
Não estou, neste momento, comovida por algum sentimento que tenha me arrebatado das causas rotineiras. Apenas te vi pela madrugada em sonho e não pude te proteger, como sempre tencionei. Então, talvez por ter presenciado impune aquela cena, talvez pelo recolhimento forçado, e talvez ainda por aquilo que mortifica e alimenta ao mesmo tempo aqui dentro e todos os dias, eu pretendi dizer, da maneira mais mágica possível, como fui uma menina agraciada por crescer ao seu lado. Sinto que ninguém poderia me dizer todas as coisas preciosíssimas que você me mostrou com a sua peculiar linguagem, a sua linguagem que são os seus olhos, quando curiosos, quando interrogativos no jeito de voltar-se para mim, a linguagem que é seu instinto de ser inteiramente um amor ingênuo.
Eu gostaria de ser como você em tantas e tantas lições. O que é mais inquietante é imaginar que você sofre em cada partida muito mais do que eu pude e poderia. Porque eu posso contar a quantidade de tempo até meu retorno, e você pode apenas esperar. Muito pior, você acredita que eu te abandonei. E duas vezes por ano se dá esta ausência que você vê abandono. Você deixa de comer, mas ninguém percebe. Passar fome é o seu jeito de chorar. Depois de alguns meses, todos se irritam com sua festa exagerada só porque eu estou de volta. Eu entendo porque sua alegria é igual à minha.
Sei que é pedir demais que sua persistência se estenda por mais alguns anos, talvez por isso esteja escrevendo, e também tenho guardadas fotografias para te mostrar aos meus filhos.
Tudo que poderia desejar na vida de agora é conseguir amar como você tem me amado nos últimos dez anos. Preciso acreditar que há um céu só pra você.
Eu gostaria de ser como você em tantas e tantas lições. O que é mais inquietante é imaginar que você sofre em cada partida muito mais do que eu pude e poderia. Porque eu posso contar a quantidade de tempo até meu retorno, e você pode apenas esperar. Muito pior, você acredita que eu te abandonei. E duas vezes por ano se dá esta ausência que você vê abandono. Você deixa de comer, mas ninguém percebe. Passar fome é o seu jeito de chorar. Depois de alguns meses, todos se irritam com sua festa exagerada só porque eu estou de volta. Eu entendo porque sua alegria é igual à minha.
Sei que é pedir demais que sua persistência se estenda por mais alguns anos, talvez por isso esteja escrevendo, e também tenho guardadas fotografias para te mostrar aos meus filhos.
Tudo que poderia desejar na vida de agora é conseguir amar como você tem me amado nos últimos dez anos. Preciso acreditar que há um céu só pra você.
sábado, 27 de julho de 2013
A mãe é uma casa
O tempo em que uma criança mama é um tempo de conjugar. Uma transição dolorosa, mas cheia de esplendor. Uma maneira de prolongar cordões rupturados, a forma primeira de amor e enlevo.
Minha mãe amamentou-me por quatro anos. Ela me chamava, eu fazia meu ninho, e chupava os mamilos sem leite, porque era tudo que sabia fazer. Depois eu cantava as músicas da escola - encontrei uma casinha enfeitada de cupim - ela não queria perder o que havia para além do peito. Eu era fácil de ser lida, era calma e sem grandes medos.
Mas um dia, meu pai começou a debochar aquele ritual arrastado, aquela insistência e recusa. Eu me lembro apenas de ouvir palavras meio imodestas, como 'mocinha'. E não poderei precisar se minha atitude foi irrefletida, se eco, se culpa, se tédio, se medo crescendo...
Então, numa tarde, naquele quarto, eu disse não a minha mãe, um não que fez a primeira fresta na nossa casa, a primeira rachadura, a primeira partida. E ela chorou baixinho as antigas lágrimas de mãe, e mostrou sua tristeza apenas para os seus santos rosários.
Minha mãe amamentou-me por quatro anos. Ela me chamava, eu fazia meu ninho, e chupava os mamilos sem leite, porque era tudo que sabia fazer. Depois eu cantava as músicas da escola - encontrei uma casinha enfeitada de cupim - ela não queria perder o que havia para além do peito. Eu era fácil de ser lida, era calma e sem grandes medos.
Mas um dia, meu pai começou a debochar aquele ritual arrastado, aquela insistência e recusa. Eu me lembro apenas de ouvir palavras meio imodestas, como 'mocinha'. E não poderei precisar se minha atitude foi irrefletida, se eco, se culpa, se tédio, se medo crescendo...
Então, numa tarde, naquele quarto, eu disse não a minha mãe, um não que fez a primeira fresta na nossa casa, a primeira rachadura, a primeira partida. E ela chorou baixinho as antigas lágrimas de mãe, e mostrou sua tristeza apenas para os seus santos rosários.
terça-feira, 23 de julho de 2013
Estrelinha pia-pia
Já tem muitos tempos que os ossos estão fraquinhos. O pulso treme, as células se morrem e nem se vê. Acabou o são cabelo na cabeça, cresceu uma penugem no rosto. Será que é pecado de Deus? Sofrimento é uma palavra vasta que eu acabei de desconhecer. Não sei mais de muita coisa, a gente desaprende muito rápido. Quantas coisas foram feitas para não ser compreendidas?
Agora que o anjo voltou pro céu (que paz mais rosada), vejo gente larga-larga no universo, tem dor, mas tem força. E eu não sei nem chorar.
(dois anos)
Eu rezei por você, nunca saberei se o suficiente, nunca disse o que quer que fosse preciso, eu nunca digo, mas sei que te amo, você está num bom lugar e não sofre mais, eu estou feliz.
Agora que o anjo voltou pro céu (que paz mais rosada), vejo gente larga-larga no universo, tem dor, mas tem força. E eu não sei nem chorar.
(dois anos)
Eu rezei por você, nunca saberei se o suficiente, nunca disse o que quer que fosse preciso, eu nunca digo, mas sei que te amo, você está num bom lugar e não sofre mais, eu estou feliz.
É preciso matar o anjo da casa
Aos cinco anos de idade, eu era verdadeiramente um anjo na casa. As minhas asas atabalhoadas fizeram ir ao chão muitas bonecas de porcelana. Ainda não havia completado um ano e quebrei a vidraça de uma mesinha num só golpe de tornozelo, não me feri e minha mãe achou mesmo que estava feito milagre. Porque eu era um bebê bonito e vi muito rosto admirado, a minha mãe era risonha, maravilhada que logo ela tivesse parido um anjo loiro. Até quebranto tive, mas me rezaram. A enfermeira no hospital fez graça com meu pai, queria me levar. Ele disse que uma coisa tão bem feita não se dá a qualquer um assim. Aí, lá para os sete, eu já podia usar batom, ganhei um kit de aniversário e a casinha completa da Barbie. Depois enjoei daquele quarto todo rosa, a boa verdade é que nunca gostei, não tinha idade pra isso. Com uns dez, minha mãe me botou para lavar pratos, ponto de cruz eu achava coisa de velha, mas ela insistia. Então, entrou um senhor na nossa vendinha e me viu de agulha e pano de prato na mão, achou de fazer a ressalva: 'menina prendada!' Achei uma ofensa! Lembro que fechei muito a cara. E nunca mais cruzei um ponto na vida. Então foi mais ou menos por aí que fui deixando de ser o anjo na casa.
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