segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A minha mãe terra. A minha mãe do complexo de agrião. Eu vejo as duras pedras desta árvore tortuosa. Quero chegar a nada destas silenciosas agruras. Teu marido é um bruto e não vês. Carregaste um casulo que te fizeram robustas as pernas. (E a tua cabeça, Maria?)
O sangue amarela no varal e esperas o tempo devido das coisas. O tempo inventado por teu pai (pelos homens que foram homens antes dele). O teu pai que não permitia ordenhares tuas próprias vacas. Apalpastes no escuro as tetas mornas. Esta era a tua grande rebelião.
A minha mãe chã. Levou teu pedaço de roça para uma cidade não muito cidade. Tuas mãos magoadas pelas roseiras, os dedos picados de agulha, não mais. Uma outra mulher, e não da tua tez, cuidou do teu lenço de rendas, teu cinto, teu broche, teu terço de ouro... Puseste os olhos na humildade da tua escrava?
Atinaste ensinar-me o legado e fracassas. Que as verdades são mutáveis nos tempos. O tempo que criei longe da bruteza dos homens. E não vês, minha mãe Eva, cega e petrificada, tenho na carne a grossura de teus corriões. Tenho esta briga vã de mim e do meu lugar. Mas vejo os traços da tua face na minha. E o meu espelho é minha legião de lágrimas.
Maria das Marias, volvei-me estes olhos de paciência infinita. Meu bramir sempre retornará.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

"A vida inteira que podia ter sido e que não foi."






Nestes dias
quero só
chorar
porque preciso
molhar também
os poemas

Nunca mais um arco-íris...
Isso é tão triste
e eu não sei
nem dar palavras
à poesia que há em mim.

Havia de ser perene
e não fui.

Havia de
ajustar-me
sem, para isso,
deixar de ser

Havia Deus
de abrilhantar
a minha cabeça
e esqueceu.

Então deixa-me chorar
as coisas irremediáveis.
Uma dia hei de morar
na Casa do Sol
e adeus.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Amarinhar

Pensa;
o mundo cheio
de oceano e jasmim
ainda pulsa.
Há um céu rosazulado
E o brilho das coisas invisíveis.

Conclui então que não há fórmula mágica.
As coisas de ver são as coisas de sentir.
Sinta;
O meu amor transborda nas ruas
porque agora faz chover.
Este inverno - que há de florir -
é meu desamparo,
Mas durma, amor, o sono dos justos.
Quero tocar-te a alma de flores

Lembra;
Todos os versos que te criei
tiveram sangue e fúria de viver.
Empunho no ar
minhas letras tímidas
para galgar-te no horizonte
sem fim.

Cuida;
- desesperadamente -
cuida que é imenso meu jardim de amor.
Tem árvores afundadas num céu que mal posso ver
Veja;
As andorinhas neste azul infinito
voam longe.
É inverno.
Para abrigá-las
te fiz uma casa
de paz rosada
e ladrilhos.

Amar calmo assim de novo
fará doer.
Silencio.
Resta-me aguardar
que o sol se deite
na água mansa.

Durma, amor,
um sono de nuvens.
Sustento no ar
este universo
Até que os crepúsculos
me ardam nos olhos.

Amanhã
teus búzios,
tuas conchas,
o mundo cheio de oceano
inundará de cristais
a minha vastidão...


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Prenúncio da Canción desesperada

Já hoje se tem três dias feitos
que nunca recebo carta sua
Verti quatrocentas e duras lágrimas
Parece que tenho a mãe morta
Parece que Matilde veio e me disse
que se quebrou meu porquinho australiano
Tenho desejos de matar Matilde
ás vezes

Voltei-me a lavar os pratos
até ter sangue nas mãos
Mas a louça nunca curou
amores de não amar-se
Comecei a quebrar os pratos
pra ver Matilde chorar

Três dias
a minha andorinha longe
Vejo não aguentar
Matilde caçoa minhas dores
Maldita seja Matilde!

Quarto dia
Tenho febre
A Saudade pesa seus sem-sentidos
Tenho urgências semânticas
você nunca chega
Te chamo bastardo!
Matilde...
Matilde se dane

Troquei minha saia puída
(desde o dia em que você partiu)
Pus presilha no cabelo
Bati à porta do Correio
(O silêncio mói meu coração)
O CARTEIRO ESTÁ MORTO?
Glória, senhor!
Tenho vida!

Dê cá minhas cartinhas.




sexta-feira, 1 de junho de 2012

Pelejo fazer um poema grande
Grande e sisudo
Que atravessasse
Que fosse gordo
e tivesse cheiro de chá
Um poema para Thiê

Faz três horas me reviro
Vejo mar, vejo renda
Vejo mel, vejo casa
de morar
Já vi até o
rosto de Benjamim
Sonhei que corria doidalegre
pelas ruas de Recife.

Fui desistindo
Desperdicei três horas de pensamento
Tô aqui deitada ao pé da cama
O coração que nem geléia de umbu
E o amor tá comendo tudo!

Essa praga que é a felicidade...



Plumas são pedras

Há tanta verdade na poesia
Que algumas pessoas se espantam.
Há quem desperte pra dentro,
Há quem não leia por certo,
Mas algumas pessoas se fecham.
É curioso.
Não podem sustentar a leveza
de uma terceira realidade.

(Nunca pude compreender
tamanha variança de gente...)

domingo, 29 de abril de 2012

Cariño

Quando tiveres ainda mais sonhos cravados na pele, amarei teu cenho, amarei tuas roupas, amarei ler cálida a palavra amornaremos. Tu livrarás o rancor de meus cabelos. Amansarás três vezes meus temores. Três vezes amar-te-ei para que não te canses. lembrar que é tempo de pêssegos, sim. Tanto mais tempo de ser eternidades...
Tu pousarás em mim mais uma vez. Repartirás meu silêncio e serviremo-nos em paz. Lembrar felicidade, lembrar a candura deste deus que nos criou, este das mãos setembrinas, contumaz deus das coisas pequenas. Porque amamos para o mesmo caminho - paciência, temperança, ternura - e uma coisa devagarzinha tem suas perfeições. 
Se acaso há cansaço, crio-te auroras. Pensar o riso, não pensar a dor. Pensar a sutileza dessa luz. Casar outono e primavera. Há de ser como saberemos... leve...


"Sei que tudo nosso é liberto e cheio de curiosidade do mundo inteiro, mas meu coração é seu."


Sei  

sábado, 14 de abril de 2012

Café de manhã

Tenho aqui as mãos pasmas. temos canções-delicadeza e esta tinta vermelha. e todas estas músicas que cantam você. todas estas músicas que nos conhecem. as minhas mãos pasmas. meu coração calmo. um começo. um todo retornar-se.
Tenho aqui pés flutuantes. temos convites. e vamos dançar até a carne derreter. mascar a grama. abismar-nos. você não tem pressa, eu não tenho medo. e o tempo passa.
Enquanto acordamos (há pássaros dizendo nosso nome). enquanto miramos aquele horizonte. espreguiçarrr. vem a calmaria da manhã cedinha e cheiro doce de boca.
te tenho tanto carinho. dizemos. dizemos carinho e façamos outros. os passarinhos nos espiam. deixa, deixa. Tou fazeno saudade.
Você me olha do alto, você me olha de segredo. mas eu já estou a gritar, amor. já estou a gritar.
Sentemos à beira da mesa.

sábado, 7 de abril de 2012

Mar imenso

"(...)

ó, a minha vontade é a minha liberdade!

diz-me, cala minha boca
com teus gritos em planos superiores, quero-os
como todo o pecado
com que me abençoa
como tuas páginas brancas de desespero
faça-me, para minha liberdade
tua.

(...)"



Quero que saibas que amo-te doida e desvairada. Fodam-se místicos, rituais, comedimento, circunstância, apelo, sombra de dúvida, casaco de pele. Amo-te como Olga, filhote de urso, bola de cristal, vestido de flor. Quero-te para sangrar minha carne cingida. Quero-te morder os olhos que me castigam e beber tua febre em cálice santo. Vou cantar um gozo liberto, medir-lhe as feridas, brindar e morrer. Amo-te no meio do peito. Vou fazer-te um colar de búzios para que me deites sobre. E tecer cantigas idílias. E mostrar como um corpo ama. Quero-te doida e desvairada porque há muito espero Dionísio. Sofro de amores, quero que saibas. Vou rasgar meus cabelos e me pôr nua na praça. Uma Vênus ensandecida está cá dentro a pulsar, escalavrando-me o ventre, rogo-lhe desaflição. Mas Amo-te, amo-te quente e de ranhuras em salmoura! Mergulhei no mar imenso sem tapar meus olhos e tudo arde por ti. Quero espalhar no vento minha oração de amor. Adeus aos céus. Vem deitar-se comigo no sofá buarquiano. Vamos morrer como Sierva María. Sorvendo-nos.
Amo-te. Amo-te doida. Amo-te doída. Amo-te ainda.

Imagem: de Conrad Roset

quinta-feira, 22 de março de 2012

Eos

Meu Amor,
Estão tuas consoantes a murchar
Têm um líquido triste
Lavemo-nos
Uma vez mais...

Aquele pássaro prisioneiro 
Teima em cantar.
Perdoe-me, amor
Por não assassiná-lo.

Porque o sol se apagara,
Não culpemos a aurora.

Minha falta de luz
é minha travessia.

E nada mais...