segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Sejamos putas

Eis minha lição 

quero para sempre me tornar

cada vez mais o que eles consideram uma puta 

ser uma puta é tudo o que me apraz

persigo o desejo como um cavalo na praia

quanto mais perto

quanto mais livre

quanto mais viva

mais puta

e quando me tornar a puta das putas

ensinarei a todas elas

voltarei, seguindo o meu rastro

por cima de todos os homens 

cujo coração comi com os dedos

espalharei putas palavras 

perdi o medo 

Sejamos putas 

Morrerei velha

de boca aberta

cabelos grisalhos

ou coloridos

gargalhando

Sejamos putas

É a única forma de viver

neste mundo que nos odeia

Escandalosas putas alegres

Bradando 

Sejamos putas

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Odisseia desvairada

Quando um bebê tem por volta de 3 anos, fala uma frase assim: É a mamãe que vai fazer. É uma frase de premonição. A mamãe faz tudo mesmo, a mamãe fez o bebê, a mamãe alimentou o bebê, a mamãe limpou o bebê, a casa do bebê é o corpo da mãe. Quando chega a vez do papai, o papai até tenta fazer, pobre pai. O bebê se acostumou tanto com a mãe, que aí começou a repetir aquela frase e o papai foi começando a desistir, desde sempre. O papai era como uma sacola plástica, voava ao sabor do vento, muito despreocupadamente leve. O peso fica todo com a mãe. Sacolas plásticas são vazias.

Um pai para ser bom precisa ser uma mãe. Havia tantas coisas que o pai poderia fazer, quando a mãe cuida do bebê, o pai cuida da mãe, o pai cuida da casa, o pai insiste na sua carinhosa presença com o bebê, para que o pequeno finalmente o aceite, o pai deve permanecer, pacientemente, perto do bebê, para que ele se sinta seguro e confiante. Um pai para ser bom precisa ser uma mãe.

Para criar um bebê, é preciso passar pela quase completa anulação de si mesmo. A mãe, a mulher, está habituada. Ao pai, ao homem, ninguém ensinou a grandiosa tarefa de se diluir para que o outro exista. O pai escolhe ir embora, o pai esculpe numa pedra a palavra abandono. O pai jamais irá se interromper, ele é inteiro. Jamais irá se quebrar, ele é fraco. O pai deixa o bebê e diz: ele só quer a mãe. E o pai se lança no mar, amarrando-se ao mastro ao passar pelo vale das sereias. O bebê fica em casa enrolado numa colcha de amor do mais puro, bordada pela mãe. O pai fará outros bebês porque nunca vai aprender qualquer lição. Não há lição para o pai. Tudo lhe é permitido. 

Só a mãe, só a mãe, conhece a vida em segredo. Só a mãe conhece o amor. A mãe e o seu bebê.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Tudo outra vez

Acordo. É uma sexta-feira dos finais de maio. Junto dois ovos, canela, uma banana cortada. É bem simples, pasta de amendoim e mel, café numa caneca charmosa. Marisa canta uma Maria de verdade. Vou comer no quintal, a gata e o cão me acompanham, querem sempre estar ao meu lado, não importa comida. Vejo o quanto a pequeníssima floresta perdeu, sem a sombra da mangueira, tão brutalmente cortada, peço perdão de novo aos guardiões da árvore que viu Serena crescer. Mas ainda o seu tronco está ali, alegro-me. Há sempre um lugar para recomeçar, Gal me diz. A minha mãe, contrária, brada que sem Deus não se vai a lugar nenhum, minha filha. Sinto pena dela, pela milionésima vez. Ela, quem mandou decepar a mangueira. Mas estou muito contente agora em alimentar o cão no meu colo e gentilmente alisar a gata ao pé de mim, enquanto tomo café da manhã. Eles estão tão cheios de deus porque não sabem dele.  O céu é tomado de cães e gatos. Assim, perco até o medo de morrer. Sou feliz e dou graças.


terça-feira, 19 de maio de 2026

Dawnbreaker

A vida tão áspera, tão vária. Odeio os homens e suas convocações. Estou farta, solta, meio amalucada.

E mesmo assim paro comigo boquiaberta. Eu acabo de me apaixonar, elevo a mão ao centro de mim, está quente. Começo a gostar da voz, do tamanho dos cílios, dos caninos de vampiro que me mordem sem sangrar. Já sou outra e não me dei. Será grave? 

Vejo o feitiço chegar, estou de costas, sentada. Ele pousa ao meu lado. Já sei o que vai acontecer. Você vai entrar em mim, não é? Ele diz que já está. Sinto um tremor, não é quase calafrio. Fico ali olhando o feitiço nos olhos, não consigo parar. O feitiço tem os olhos do universo. 

Foi tão duro saber estar sozinha. Quando finalmente, me aparece. Assusto-me. Custa estar atenta e vulnerável. Quantas marcas precisei para me ser de volta? Mas a vida no es solo trabajar. Hay que brincar e rir, rir até dormir abraçada, perdidamente.

Lembrar que é tempo de ladrilhar os caminhos com estrelas, sim. 


sábado, 25 de abril de 2026

Dandelion

A nuvem cobria o sol das 16, esperei. Ficaria mais bonito com os feixes. Havia nascido um dente-de-leão. Que rico o meu dente-de-leão do quintal, branquinho, de pontas ainda fechadas amarelas. Fiquei a olhar o percurso dos raios através das folhas, fiz um story. Quero que ele veja o que eu vejo, me interessa que ele saiba para onde eu volto meus olhos. Estou enamorada pelo Dandelion. Existe já uma palavra no meio de outra palavra. Mas não sou tão boa com trocadilhos. 

Você sabia que soprar o rosto de uma criança quando ela está de calundu faz um pouco da alma passar pela boca? O sopro dissipa as sombras. Imaginei Poseidon soprando o rosto do mar, apaziguando tempestades. 

O destino do dente-de-leão é dançar com o vento. Fiquei emocionada com essa imagem, acho que vou chorar. Mas ainda não chego. Fiquei a olhar cada particulazinha se desprender, voluteando, muito leves, meninas num parque, pequenas faíscas douradas. Não posso lhes traçar um final, mas sequer penso nisso, só penso na liberdade, diria, apenas inspiro tudo o que meus pulmões comportam e lanço um longo sopro no ar. 


terça-feira, 17 de março de 2026

Um dia eu soube

Um dia não 

Numa transição 

Olhei para trás várias vezes 

Tive medo de nunca mais encontrar ninguém 

Por isso olhava tanto para trás 

Sabia que olhar para trás fazia parte

Eu tinha estudado tudo


Um dia eu soube

Numa manhã, numa tarde, 

numa noite cheia de horas

Eu soube

Amparada nas conversas com as minhas amigas

- Nunca deixe de conversar com as suas amigas -


Vi um vídeo específico no YouTube 

que foi como epifania

E me alertou que eu ainda iria olhar para trás

Fiz de tudo por mim

Demorei, mas fiz

O que é demorar?


Ele me dizia que olhar para trás 

Só podia significar destino, amor, sina

Conversa para boi dormir 

E eu dormia

Muito tempo dormi

Eu era uma vaca mansinha

Ruminando dia e noite 

Marcada a ferro, apeada


Algum dia totalmente perdido

dentro do meu cérebro regenerado, 

eu soube

Estava ouvindo Lauryn Hill

Sentada no chão do banheiro 

De repente

fui invadida por uma realidade 

Que presente maravilhoso é na vida de uma mulher 

nunca mais encontrar ninguém 

Chorei de pura plenitude, de pura paz

Luminosa, segura

Chorei por eu ser finalmente eu

Com ele, nunca havia experimentado


E nunca mais olhei para trás 



domingo, 11 de janeiro de 2026

Eu fico triste sim

Essa é a única resposta possível 

Duas patinhas singelas dispostas num prato

Uma louça branca, chique, lustrosa 

Eles estão sempre prestes a comer 

Eu não posso escapar da visão desse animal vivo

Lindo, libérrimo

uma criatura que não me pertence

Não posso, simplesmente 

não posso deixar de pensar sempre que eles não queriam morrer

Uma vez vi

e uma vez visto,

nunca mais poderei deixar de ver

Constantemente sou a maluca

Constantemente sou a única 

Ninguém quer saber

É desconfortável 

Sou esmagada pelo peso de toda uma cultura

extremamente violenta

Meus pares dançam com as bocas sujas 

de farinha de mandioca

e um palito forrado de seis pequenos corações 

Eles estão distraídos, felizes

Eu vagamente chego a preocupá-los

E sigo pelos anos, sinto-me bem 

Não distingo o cão que resgatei das ruas 

do boi que me lambe através do arame farpado.

Não esqueço que também sou hipócrita

Não penso mal de quem não é como eu

Tenho também minhas sombras

E essa é toda a história.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Ache um grande gostoso

Deixe o gostoso se lambuzar de você 

Lambuze-se do grande gostoso

Vejam o filme de Bob Marley 

com suas pernas em cima do peito dele

Bebam cerveja juntos

naquela atmosfera escarlate na beira do rio

deixe o corpo tremer de tesão 

só por ele tocar a ponta do seu cabelo

Transem até faltar oxigênio no cérebro 

Deixe o grande gostoso pintar Bobbie Goods

Na cozinha da sua casa

Ria com ele

Deixe que ele converse

Sim, ele não para de falar

E ele nem te escuta

Então, quando o grande gostoso chover e não molhar

quando ele ir e vir e for e voltar

Lembre-se de que a grande gostosa é você

Se toca  

Vá dando para trás 

Não assim

Assim

Arranje alguém que goste da sua franja vegana

Pegue seu banquinho 

Recolha seus caquinhos

que você nem quebrou, minha filha

Se saia

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Preciso procurar urgentemente um modo de parar de culpar os meus pais

Eu não sei como parar de culpar os meus pais

O que devo fazer para parar de culpar os meus pais?

Vou chorar-lhes a morte por séculos a fio pelo fracasso amargo de nunca ter parado de culpar os meus pais

Vou morrer triste e afogada em lágrimas por não ter aprendido a parar de culpar os meus pais

Vou esmurrar os túmulos, esfolar os calos até saber o que é preciso para não culpar os meus pais.



quarta-feira, 3 de setembro de 2025

It's never over

ouço nos meus fones sem fio

cansando-me de homens que não me sabem navegar

homens que não duram nem para a literatura

preciso estar no mastro

mais altiva do que apareço nos meus poemas

atada como Ulisses 

no posto do leme

para ouvir e resistir,

resistir ao chamamento do fundo do mar

o mar é lindo, eu sei

olhe esta luz que se deita em sua pele de água 

no entanto,

ninguém pode respirar na morada das sereias

ninguém pode respirar na morada das sereias

eu não quero mais nadar contra a minha correnteza

Oh mother, I can feel the soil falling over my head



segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Há uma mulher em mim que dança 

faça chuva ou faça sol

inverno, tempestade 

para ascender leoas e cobras 

suas ferocidades

serenas fúrias

firmes amenas


Há uma mulher em mim que dança 

na cara do perigo 

no dorso da libélula 

no rabo do foguete

ao som das trombetas


Morfada em bruxa

buscando fadas

dança para além do corpo

além da memória 

para o além 


Há uma mulher em mim que dança 

para o mistério de ser pessoa

carne, chama, movimento

água, sereia e terra

Há uma mulher dançando

A mulher que dança é uma mulher que é.




terça-feira, 17 de junho de 2025

Presságio

Quero um homem:

Que não me queira dominar;

Que entenda que vínculo afetivo pode existir na casualidade;

Maduro o suficiente para comunicar-se com clareza;

Que demonstre constância e permaneça;

Afetivamente disponível e responsável;

Verdadeiramente cuidadoso;

Disposto e ágil;

Que tenha espaço em sua vida ou que os crave realmente largos para eu caber

sem sufocar, sem suprimir, sem anular a nenhum de nós;

Assertivo em suas vontades e intenções;

Extinto de manipulação;

Que não queira me aprisionar em um relacionamento cheio de regras opressoras;

Que não me construa pedestais;

Que não procure em mim uma serva 

nem um objeto de uso pessoal, um fetiche, uma fugacidade qualquer;

Quero um homem fora da lógica social, fora da norma monogâmica;

Corajoso para o amor, mas um outro amor

Um homem anti-romântico

Que não seja tão homem como a categoria social homem, um homem-mulher, um homem-criança;

Não busco fidelidade, compromisso e validação.

Não busco família de comercial de margarina.

Não busco fazer parte de uma coleção.

A minha ordem é a subversão. Uma brincadeira com muita seriedade, uma disciplina que no fim liberta. É leve como a bolha de sabão, é sólida como a perenidade do tempo.

No entanto, simples como a gota de chuva escorrendo no dorso da folha.

Por fim, e esta é uma síntese essencial, quero um homem cujos defeitos não me sejam um risco à  vida, à minha segurança emocional e física, minha individualidade. Estas últimas não são as minhas palavras, roubei-as de Nina, a que mantém meus olhos sempre abertos, pois tenho amigas que são faróis. É bom que o saibam.

sábado, 24 de maio de 2025

As crianças de Gaza

Lembrar das crianças de Gaza tira-me parte da alegria de ver minha filha dançar no quintal de terra com seu vestido de aniversário. Estou aqui debaixo da mangueira e essa melancolia me atravessa os olhos. A mãe de Gaza disse que pede a Deus para morrer, e eu me lembrei que a escravatura atual de Carolina, que perdeu o hábito de sorrir, era a fome, mas a guerra é pior do que a fome. Tudo que vejo sobre as crianças de Gaza tenho vontade de desviar os olhos, e desvio, olho gatinhos e galinhas, bebês e cabras. Quero me desviar da culpa de testemunhar em meu tempo a morte de crianças. Mas sou mãe. Os caminhões que nunca chegam, a ONU, o Hamas, os nomes difíceis e as bombas sem precedentes. Antes eles não atacavam hospitais, antes eles não atacavam escolas. Eu sou professora, devo falar sobre as crianças de Gaza com meus alunos. Mas tenho medo de enlouquecer, tenho medo de odiar o aluno que disser qualquer bobagem sobre as crianças de Gaza, eu posso aturar os absurdos hediondos dos meus alunos todos os dias e dar-lhes sermão, não posso aturar que falem das crianças de Gaza com desprezo. Como explicar que a violência destrói o mundo? Como fazê-los repudiar a violência? Tenho medo de me dilacerar para sempre, irreversivelmente. Amanhã falarei sobre as crianças de Gaza porque perdi o hábito de ser covarde.

domingo, 16 de março de 2025

Uma vez, quis explicar a um homem o útero.

Eu estava ainda com o cheiro do meu sangue nas mãos, breves cólicas e a água em ponto de fervura. Pensei no útero como o segundo coração da mulher, uma sensação descendente me acompanhava por dentro, ainda que não fosse cachoeira ininterrupta, pequena queda d'água. A dor que se me desprende do útero e do coração é a mesma, e mais do que lava - pranteia, alveja e prepara. Quando você se movimenta, ela se dissipa, por isso dançamos. Por isso cobrimos o ventre com panos quentes e, como as nossas avós, não lavamos a cabeça à noite. Precisamos ficar reclusas, quietas com nosso pensamento, tomando chá.

Nosso útero pulsa e sangra e isto é tão poderoso quanto belo. Isso é um milagre.

Um dia, um homem me deu uma célula, uma única célula, e eu fiz dela uma criança viva inteira, criei-a com meu corpo, nas minhas cavernas, dando-lhe tudo de mim. Ela se alimentou da minha comida, ficou forte e sadia nadando em minhas águas. E quando chegou o seu tempo, eu rachei a minha terra em mil pedaços e pari, sozinha e com ela, o meu bebê.

Choquei meus ovos de paciência, fui mãe. 

Aquele que me deu a célula deixou-me num abismo.

Segurei nas mãos das mulheres para sair.

Por que quis explicar a um homem o útero?

Agora, água fervida, chá de ervas, bolsa quente, deixo que meu sangue desça, deixo que a corola rubra se abra, encontro as minhas amigas, as minhas irmãs de alma, temos crianças crescidas, estamos em terra firme, nunca mais, nunca mais à deriva, enlaço os braços das mulheres, as crianças brincam, e nós estamos tomando chá.




domingo, 2 de março de 2025

 É festa na minha carne, na carne da cidade. De repente olho pra cima na cara dos orixás que nem entendo, na cara dos orixás por debaixo das contas e não tenho medo. Não sinto mais medo da Salvador que tiraram de mim e eu recuperei. Voltei, minha linda e maltratada, minha suave amiga, nós já fomos pisadas por tantos anos, por esses homens. No entanto, há uma coisa em nós que não se coloniza, aquilo que faz tudo girar, deixa a gira girar, balanço os quadris, mostro a minha pele, me dê a sua mão, pois eles não podem mais nos levar nada, entende? Nós estamos juntas outra vez. Você alimenta o meu espírito no mar, daqui vejo as ondas trazidas pelo navio pirata, não existe nada igual nesse mundo, sabe? De repente olho pra cima, pela janela do carro, e vejo a verdade das árvores centenárias pelas quais sempre passei. Eu só precisava de um ângulo diferente, essa era a grande chave, aquelas árvores gigantescas, bifurcando-se céu acima e terra abaixo, com suas cortinas verdes dançarinas de vento, com sua pele de musgo, aquelas árvores já foram sementes obstinadas pelo sal da vida. Aquelas árvores sabem dizer sem nenhuma palavra, eu só precisava de um outro ângulo, talvez mais custoso de encontrar, leva tempo para enxergar a leveza. Estou aqui, minha cidade tardia, olhando pra cima, ouvindo os tambores também de dentro, sambando meus pés no seu chão, não quero me entorpecer tanto, é festa no meu corpo e eu quero sentir. Todas as cores e brilhos são espelhos d'alma. Visto a minha fantasia, de repente vivo a minha fantasia, uma sereia sagrada que aprendeu a cantar. Te amo, meu carnaval.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Fevereiro, 2023

Escrevo este exercício para me ajudar a não retroceder

Eu estou tentando sair de um relacionamento abusivo porque

Eu não sou a mulher que ele quis me fazer acreditar que sou

Nenhum homem deve tentar alterar ou moldar a percepção que temos sobre nós mesmas

Eu estava anulando minha individualidade 

Eu não me sentia plenamente livre

Eu fui desrespeitada muitas vezes

Eu jamais soube dos meus limites

Por isso eles foram tantas e tantas vezes atravessados por todos

Eu me sentia profundamente sozinha

Eu naturalizei a violência que sofro

Ele usa a minha vulnerabilidade contra mim

Ele me enxerga como uma criança desamparada

Ele usa tratamento de gelo ou hostilidade como punição por comportamentos meus

Ele gosta de estar no controle e de sentir que tem poder sobre mim

Ele me acusa de praticar os abusos que ele faz

Ele invadiu minha privacidade mais de uma vez

Eu estou ansiosa em todo esse processo

Ansiosa e confusa, insegura, nervosa, machucada, raivosa, triste

Sem saber como não deixar que ele me acesse

Como se isso fosse impossível 

domingo, 22 de dezembro de 2024

Moro num país de terras quentes. Cresci entre o cerrado e a lonjura do mar, na mágica Bahia. Anuncia-se hoje a chegada do verão e as pessoas procuram se despir da dura casca que lhes oprimia os desejos. O verão é um convite para uma vida mais vermelha. Mas eu não posso fazer parte disso. Não posso agora rir de uma vida desgraçada que se arrastou pelo ano, porque não a tive. Não posso finalmente retirar o sutiã para respirar, porque, esse ano, nada me prendeu. Eu não posso me despedir de uma dureza que não esteve comigo. Eu fui verão o ano todo. 

Dizem que os bons sentimentos não produzem bons poemas. E eu lhes digo que cada poema estará impregnado do sumo da alma de cada poeta, todos têm seu sabor. Essa é a beleza. Eu só posso entregar-lhes poemas doces, morangos pelos campos, pêssegos aveludados, mangueiras carregadas, maçãs banhadas de luz, é assim que me sinto. No meu país, não anseio pela chegada do verão, porque fiz do meu coração um sol. Quando chove, fico a olhar o arco-íris.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Hoje, cheguei em casa, joguei as chaves, sentei-me para afagar o cachorro. Veio minha filha, ela comia uma espiga de milho cozido. Olhei-a. Um lado de seu cabelo pendia suavemente atrás da orelha, ela estava ocupada a comer, grão por grão, distraída, tem seis anos de mundo apenas e já tanta destreza. Meus olhos encheram-se de uma emoção incontinente. E meus pensamentos voaram pela plenitude do amor por aquela criança. Toda declaração que me veio à boca parou ali e eu emudeci. Nada seria o bastante.

Tomara que ela nunca se perca de mim, que eu não me perca dela, que eu não me perca de mim tentando não me perder dela, tomara que ela nunca se perca de si.

Fui imensamente feliz naquele momento, brincando com o cachorro, uma espiga e minha filha. Apareceu, então, uma breve melancolia ao olhar para meu passado, vendo-me nela, uma menina adorável e inteligente, grande e linda. Refiz o percurso como quem perde um brinco no parque, procurei-me. Tentei saber em que ponto eu deixei de ser uma criança amada para me transformar numa mulher. Na medida em que eu deixei de ser uma sombra, meus pais ficaram para trás, sem saber como lidar comigo. Cada vez mais, e mais, até me desconhecerem, até se tornarem estranhos.

O que posso eu fazer para que minha filha nunca precise pagar este preço?

Não há garantias. Posso amá-la ferozmente e devotar toda a minha alma em seu crescimento. Não há garantias. Por isso, cada hora ao seu lado é dourada. 

domingo, 10 de novembro de 2024

Triste, louca ou má (Feliz, sã e boa)

Estou escandalosamente feliz

A única coisa que agora se difere 

das outras épocas da minha vida é a minha liberdade 

Estive comendo apenas as bordas

Era doce 

Contentava-me

Hoje, não 


A única coisa que agora se difere

das outras épocas da minha vida

é que não tenho um homem

Ou melhor

Nenhum homem me tem

Os homens retiravam a minha vitalidade 

Ocupando-se largos nos meus espaços

Sugavam toda a energia do meu coração 

para depois clamarem:

Nossa, como você está vazia!


Preciso levar às mais jovens essa babilônica desmistificação

É bastante improvável que um casamento lhe traga qualquer porção de satisfação consigo mesma.  

Não queira ser escolhida 

Escolha!

Não queira apenas servir

Faça da tua vida um banquete!

É preciso reger o próprio destino 

É preciso reivindicar seu corpo como seu território 

É preciso pertencer a si mesma

É preciso saber as suas querências

para, então, persegui-las.

É preciso decidir

Conhecer-se, profundamente e em cada dia

E traçar um mapa,

com seus limites bem demarcados

Para que ninguém os atravesse

É preciso saber quem se é 

Longe dos outros 


Estes casamentos romântico-monogâmicos,

Minha querida,

São gaiolas 

Repletas de plumas, almofadas e diamantes

falsos

Tão confortáveis gaiolas

Não se esqueça para que servem.