sábado, 7 de abril de 2012

Mar imenso

"(...)

ó, a minha vontade é a minha liberdade!

diz-me, cala minha boca
com teus gritos em planos superiores, quero-os
como todo o pecado
com que me abençoa
como tuas páginas brancas de desespero
faça-me, para minha liberdade
tua.

(...)"



Quero que saibas que amo-te doida e desvairada. Fodam-se místicos, rituais, comedimento, circunstância, apelo, sombra de dúvida, casaco de pele. Amo-te como Olga, filhote de urso, bola de cristal, vestido de flor. Quero-te para sangrar minha carne cingida. Quero-te morder os olhos que me castigam e beber tua febre em cálice santo. Vou cantar um gozo liberto, medir-lhe as feridas, brindar e morrer. Amo-te no meio do peito. Vou fazer-te um colar de búzios para que me deites sobre. E tecer cantigas idílias. E mostrar como um corpo ama. Quero-te doida e desvairada porque há muito espero Dionísio. Sofro de amores, quero que saibas. Vou rasgar meus cabelos e me pôr nua na praça. Uma Vênus ensandecida está cá dentro a pulsar, escalavrando-me o ventre, rogo-lhe desaflição. Mas Amo-te, amo-te quente e de ranhuras em salmoura! Mergulhei no mar imenso sem tapar meus olhos e tudo arde por ti. Quero espalhar no vento minha oração de amor. Adeus aos céus. Vem deitar-se comigo no sofá buarquiano. Vamos morrer como Sierva María. Sorvendo-nos.
Amo-te. Amo-te doida. Amo-te doída. Amo-te ainda.

Imagem: de Conrad Roset

quinta-feira, 22 de março de 2012

Eos

Meu Amor,
Estão tuas consoantes a murchar
Têm um líquido triste
Lavemo-nos
Uma vez mais...

Aquele pássaro prisioneiro 
Teima em cantar.
Perdoe-me, amor
Por não assassiná-lo.

Porque o sol se apagara,
Não culpemos a aurora.

Minha falta de luz
é minha travessia.

E nada mais...

terça-feira, 20 de março de 2012

Silêncios














(Sugiro que olhes direto nos olhos da moça a coser.
 Tantas mais palavras lá estão a fervilhar.)

terça-feira, 13 de março de 2012

Santa Maria da Vitória - Ba  
   25/XII/10

O regresso ao interior tanto pode nos causar ânsia quanto, num depois, frustração. É o que me sucede. Mal completo meu terceiro dia cá onde estou. Ei-las! Minhas palavras de luz e fumaça. Começo a pensar em 'ser louco é bom' e outras tantas bobagens. Sinto faltas. Sinto minhas ludicidades lá fora. Quero ter os braços mais amplos. Quero louvar minha brejeirice. E sei que posso te trazer alguns paradoxos anunciados. Posso te dizer, por exemplo, como eu acho estranho frutas empacotadas, como se tivessem sido fabricadas, ou ainda a coisa mais absurda no mundo que é comer e não lamber-se. Eu posso dizer Você pode me entender? com muita precisão? Isso é uma pergunta mesmo, responda-a!
Aqui o tempo cochila nos olhos dos sapos. Ao lado de minha casa passa um riacho quando chove e se forma um coral de coaxos. Daí eu me sentir n'outra dimensão. É uma cidade pequena como outra qualquer,  e neste pedaço de rua há este "erro" de civilidade que me parece tão sublime e tão irônico. Quero abandonar e quero sentir. 
Mas ainda posso afagar meus cães durante horas e olhar naqueles olhos castanhos, melódicos olhos castanhos de bicho. Pentear os cabelos brancos do meu pai e ouvir os cd's de McCartney. Ainda posso salvar minha vida.
Sei que logo o tédio vai ser como o riacho. Por isso, no tempo propício, eu vou buscar ar na superfície e te escrevo. Ah, sim! Você tá bem?

Feliz Natal... essas coisas,
e um abraço!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Minhas vontades são as palavras



Minhas vontades são as palavras. Já que não posso, preciso pintá-las. Vou contar-te que o vermelho na minha boca não é puro milagre. Basta que se diga Eu tinha as faces ruborescidas e estava só. Entende-se.
Muito me parece que há pessoas feitas da mesma matéria com que se fazem os sonhos. Se há pessoas adoecidas da doença da palavra presa, aquela que é feita de sonho precisa salvar.
Sofre-se de calores absurdos nesta terra. Vejo o mar da minha janela. Suor e sal.
A deusa verte uma única gota de âmbar para duas bocas que não se beijam. Mas amanhã é domingo, e segunda ninguém saberá.
Minhas vontades são as palavras. Permaneço estupefata pela intensa verdade deste momento. Uma Vênus, muito calma Vênus, mora dentro de mim. Ela tem safiras no umbigo e um seio que freme de tanta alma. Não duvido que entre os cabelos escondem-se efemérides olorosas (como frutos pulsantes). Esta Vênus estava a dançar de vestido liberto e florido, e de súbito...
Aquiesce, coração! Não desesperes.
Minhas vontades são as palavras
aqui postas.
Meu branco sangue, palavra derretida, que é dor e que escorre.
Já que não posso, preciso pintá-las.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ângela Pralini

Os poemas
que me estão a escapulir
são tranquilos
e têm olhos perversos;
Dez anéis de agonia

São borras de sangue,
Meus coágulos de culpa...

Os poemas que nunca farei
são as provas indeléveis
de minha psicopatia.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os Bichos














Não se pode sentar à mesa de bar com os bichos.
Os bichos não são irônicos
Não são ritualísticos

Os bichos andam pelados
Os bichos são políticos
Os bichos não guardam coisas
Os bichos são perfeitos
Os bichos são princípios

Não submetarás os bichos
A loucas delongas humanas.
Os bichos nos falam com os olhos.
A palavra mansa dos bichos
jamais sustentar-nos-á

Aprenda a quietude dos bichos.
Eles têm apenas a calma tácita,
A vasta calma tácita dos bichos

Quando muito, nos lambem feridas
Afagam-nos as mãos
Se deitam e
dormem
alegres.

Peço-te encarecida,
Não prefira-os sempre
para que não cogitem autismo.

Lembres!
Apesar daqueles olhos melódicos,
os bichos nos amam como bichos.
Não macules a asa da borboleta,
Ela nunca compreenderá.

Os bichos ainda são bichos.

Humildes e fáceis, nos são maiores
Não têm orgulho de seus polegares
Eles têm apenas a calma tácita,
A vasta calma tácita dos bichos

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

"Essa menina é um prego torto"

Cansei-me da fala má
da gente odiosa
que habita a minha casa.
Não cansam de pisar
a minha esquerdice.

Ignoram ser o caminho mais difícil?

Olha só!
Prego torto
quanto mais se bate
mais entorta.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Amaria

Maria tem madeixas pretas que me encantam.
Ela deve de ter os cabelos mais longos da cidade
Maria tem cílios de boneca
e malêmolengos de cigana doida
Maria tem a penugem ruiva
do meu pomo preferido

Ora direis falar besteira
Aquela Maria não tem carnes boas,
nem peles de casca de fruta
A boca não chama nem acusa
Nomeias madeixas
aqueles fios engordurados
num coque tosco acima da nuca?

Tresloucado! Me chama
Esta Maria é uma velha manca

Ao diabo!
A minha Maria é tão boa aqui dentro
É vem Maria caxingando tão bonito
Tem a cabeça mole e o coração profundo e macio
Só eu sei como é bom amar Maria
Eu e Maria no mar
Eu e Maria

sábado, 3 de dezembro de 2011

Quasindagação

Minha cabeça dói e meus olhos ardem. Tenho certeza de que isso não vai ser um bom texto. Textos escritos com vaidade - e casacos de pele - não são bons textos. Eu pus o búzio - e não concha - no ouvido porque eu quero ouvir o mar. O mar é imenso - eu sei - e eu não mergulho, eu ouço porque parece que foi feito pra isso. Parece. O mar também tem cheiro. De fora, os sentidos embonitecem. Tenho vontade de dizer O que significa isso? Tenho bastantes vontades exiladas. A minha mãe - que não é sábia - me ensinou que a vida não é um parque. Então não se pode simplesmente ir tocando no ombro e perguntar O que você quis dizer? Isso estraga. E talvez não se goste da resposta. O fato é que é muito fácil cair-se bobo por uma metáfora. Tive muito caso de amor com poema, mas eu sei - embora não saiba - que todo texto é maior que o fazedor. Que importa, Dalton? Todo mundo sabe que dói e mesmo assim cai de amor. Eu sei que cervejas infinitas fazem doer no outro dia, e eu bebo. Existem dores que já estão catalogadas. O negócio é escolher.
É assim que se faz quando se pretende ser direto.
(O mais direto dos poemas é aquele que emudece.)