sexta-feira, 1 de junho de 2012

Plumas são pedras

Há tanta verdade na poesia
Que algumas pessoas se espantam.
Há quem desperte pra dentro,
Há quem não leia por certo,
Mas algumas pessoas se fecham.
É curioso.
Não podem sustentar a leveza
de uma terceira realidade.

(Nunca pude compreender
tamanha variança de gente...)

domingo, 29 de abril de 2012

Cariño

Quando tiveres ainda mais sonhos cravados na pele, amarei teu cenho, amarei tuas roupas, amarei ler cálida a palavra amornaremos. Tu livrarás o rancor de meus cabelos. Amansarás três vezes meus temores. Três vezes amar-te-ei para que não te canses. lembrar que é tempo de pêssegos, sim. Tanto mais tempo de ser eternidades...
Tu pousarás em mim mais uma vez. Repartirás meu silêncio e serviremo-nos em paz. Lembrar felicidade, lembrar a candura deste deus que nos criou, este das mãos setembrinas, contumaz deus das coisas pequenas. Porque amamos para o mesmo caminho - paciência, temperança, ternura - e uma coisa devagarzinha tem suas perfeições. 
Se acaso há cansaço, crio-te auroras. Pensar o riso, não pensar a dor. Pensar a sutileza dessa luz. Casar outono e primavera. Há de ser como saberemos... leve...


"Sei que tudo nosso é liberto e cheio de curiosidade do mundo inteiro, mas meu coração é seu."


Sei  

sábado, 14 de abril de 2012

Café de manhã

Tenho aqui as mãos pasmas. temos canções-delicadeza e esta tinta vermelha. e todas estas músicas que cantam você. todas estas músicas que nos conhecem. as minhas mãos pasmas. meu coração calmo. um começo. um todo retornar-se.
Tenho aqui pés flutuantes. temos convites. e vamos dançar até a carne derreter. mascar a grama. abismar-nos. você não tem pressa, eu não tenho medo. e o tempo passa.
Enquanto acordamos (há pássaros dizendo nosso nome). enquanto miramos aquele horizonte. espreguiçarrr. vem a calmaria da manhã cedinha e cheiro doce de boca.
te tenho tanto carinho. dizemos. dizemos carinho e façamos outros. os passarinhos nos espiam. deixa, deixa. Tou fazeno saudade.
Você me olha do alto, você me olha de segredo. mas eu já estou a gritar, amor. já estou a gritar.
Sentemos à beira da mesa.

sábado, 7 de abril de 2012

Mar imenso

"(...)

ó, a minha vontade é a minha liberdade!

diz-me, cala minha boca
com teus gritos em planos superiores, quero-os
como todo o pecado
com que me abençoa
como tuas páginas brancas de desespero
faça-me, para minha liberdade
tua.

(...)"



Quero que saibas que amo-te doida e desvairada. Fodam-se místicos, rituais, comedimento, circunstância, apelo, sombra de dúvida, casaco de pele. Amo-te como Olga, filhote de urso, bola de cristal, vestido de flor. Quero-te para sangrar minha carne cingida. Quero-te morder os olhos que me castigam e beber tua febre em cálice santo. Vou cantar um gozo liberto, medir-lhe as feridas, brindar e morrer. Amo-te no meio do peito. Vou fazer-te um colar de búzios para que me deites sobre. E tecer cantigas idílias. E mostrar como um corpo ama. Quero-te doida e desvairada porque há muito espero Dionísio. Sofro de amores, quero que saibas. Vou rasgar meus cabelos e me pôr nua na praça. Uma Vênus ensandecida está cá dentro a pulsar, escalavrando-me o ventre, rogo-lhe desaflição. Mas Amo-te, amo-te quente e de ranhuras em salmoura! Mergulhei no mar imenso sem tapar meus olhos e tudo arde por ti. Quero espalhar no vento minha oração de amor. Adeus aos céus. Vem deitar-se comigo no sofá buarquiano. Vamos morrer como Sierva María. Sorvendo-nos.
Amo-te. Amo-te doida. Amo-te doída. Amo-te ainda.

Imagem: de Conrad Roset

quinta-feira, 22 de março de 2012

Eos

Meu Amor,
Estão tuas consoantes a murchar
Têm um líquido triste
Lavemo-nos
Uma vez mais...

Aquele pássaro prisioneiro 
Teima em cantar.
Perdoe-me, amor
Por não assassiná-lo.

Porque o sol se apagara,
Não culpemos a aurora.

Minha falta de luz
é minha travessia.

E nada mais...

terça-feira, 20 de março de 2012

Silêncios














(Sugiro que olhes direto nos olhos da moça a coser.
 Tantas mais palavras lá estão a fervilhar.)

terça-feira, 13 de março de 2012

Santa Maria da Vitória - Ba  
   25/XII/10

O regresso ao interior tanto pode nos causar ânsia quanto, num depois, frustração. É o que me sucede. Mal completo meu terceiro dia cá onde estou. Ei-las! Minhas palavras de luz e fumaça. Começo a pensar em 'ser louco é bom' e outras tantas bobagens. Sinto faltas. Sinto minhas ludicidades lá fora. Quero ter os braços mais amplos. Quero louvar minha brejeirice. E sei que posso te trazer alguns paradoxos anunciados. Posso te dizer, por exemplo, como eu acho estranho frutas empacotadas, como se tivessem sido fabricadas, ou ainda a coisa mais absurda no mundo que é comer e não lamber-se. Eu posso dizer Você pode me entender? com muita precisão? Isso é uma pergunta mesmo, responda-a!
Aqui o tempo cochila nos olhos dos sapos. Ao lado de minha casa passa um riacho quando chove e se forma um coral de coaxos. Daí eu me sentir n'outra dimensão. É uma cidade pequena como outra qualquer,  e neste pedaço de rua há este "erro" de civilidade que me parece tão sublime e tão irônico. Quero abandonar e quero sentir. 
Mas ainda posso afagar meus cães durante horas e olhar naqueles olhos castanhos, melódicos olhos castanhos de bicho. Pentear os cabelos brancos do meu pai e ouvir os cd's de McCartney. Ainda posso salvar minha vida.
Sei que logo o tédio vai ser como o riacho. Por isso, no tempo propício, eu vou buscar ar na superfície e te escrevo. Ah, sim! Você tá bem?

Feliz Natal... essas coisas,
e um abraço!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Minhas vontades são as palavras



Minhas vontades são as palavras. Já que não posso, preciso pintá-las. Vou contar-te que o vermelho na minha boca não é puro milagre. Basta que se diga Eu tinha as faces ruborescidas e estava só. Entende-se.
Muito me parece que há pessoas feitas da mesma matéria com que se fazem os sonhos. Se há pessoas adoecidas da doença da palavra presa, aquela que é feita de sonho precisa salvar.
Sofre-se de calores absurdos nesta terra. Vejo o mar da minha janela. Suor e sal.
A deusa verte uma única gota de âmbar para duas bocas que não se beijam. Mas amanhã é domingo, e segunda ninguém saberá.
Minhas vontades são as palavras. Permaneço estupefata pela intensa verdade deste momento. Uma Vênus, muito calma Vênus, mora dentro de mim. Ela tem safiras no umbigo e um seio que freme de tanta alma. Não duvido que entre os cabelos escondem-se efemérides olorosas (como frutos pulsantes). Esta Vênus estava a dançar de vestido liberto e florido, e de súbito...
Aquiesce, coração! Não desesperes.
Minhas vontades são as palavras
aqui postas.
Meu branco sangue, palavra derretida, que é dor e que escorre.
Já que não posso, preciso pintá-las.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ângela Pralini

Os poemas
que me estão a escapulir
são tranquilos
e têm olhos perversos;
Dez anéis de agonia

São borras de sangue,
Meus coágulos de culpa...

Os poemas que nunca farei
são as provas indeléveis
de minha psicopatia.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os Bichos














Não se pode sentar à mesa de bar com os bichos.
Os bichos não são irônicos
Não são ritualísticos

Os bichos andam pelados
Os bichos são políticos
Os bichos não guardam coisas
Os bichos são perfeitos
Os bichos são princípios

Não submetarás os bichos
A loucas delongas humanas.
Os bichos nos falam com os olhos.
A palavra mansa dos bichos
jamais sustentar-nos-á

Aprenda a quietude dos bichos.
Eles têm apenas a calma tácita,
A vasta calma tácita dos bichos

Quando muito, nos lambem feridas
Afagam-nos as mãos
Se deitam e
dormem
alegres.

Peço-te encarecida,
Não prefira-os sempre
para que não cogitem autismo.

Lembres!
Apesar daqueles olhos melódicos,
os bichos nos amam como bichos.
Não macules a asa da borboleta,
Ela nunca compreenderá.

Os bichos ainda são bichos.

Humildes e fáceis, nos são maiores
Não têm orgulho de seus polegares
Eles têm apenas a calma tácita,
A vasta calma tácita dos bichos